A homofobia disfarçada no Movimento Espírita

Florencio Anton

Temos assistido de forma assustadora surgirem em todos os lugares notícias relacionadas a assassinatos de seres humanos homoafetivos.

Para se ter uma ideia, no Brasil, “o país das diversidades”, segundo relatório divulgado em 2012 do Grupo Gay da Bahia, a cada 26 horas 1 homossexual é assassinado o que nos coloca em primeiro lugar no ranking de assassinatos homofobicos, situação que concentra 44% das mortes de todo o planeta. Uma triste realidade para uma parcela de cidadãos declaradamente adeptos do Cristianismo em suas vertentes religiosas cujo discurso e máxima, diria axioma, é a frase de Jesus contida nos Evangelhos : “ Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.”

O Espiritismo, composto de conhecimentos revelados pelos Espíritos e que abraçam a ciência, a filosofia e a religiosidade, nos apresenta Jesus como modelo e guia conforme exarado na resposta á pergunta 625 de O Livro dos Espíritos, é, portanto uma religião cristã. Uma religião fortemente estruturada no direito do uso do livre-arbítrio e como consequência as suas reações, uma religião que propõe o raciocínio e a sedimentação de uma fé afastada dos dogmatismos, uma religião que propõe amor e instrução aos seus profitentes… mas…uma coisa é o que está escrito e outra o que fazemos com os escritos, por isso não devemos confundir Espiritismo com Movimento Espírita já que este último está formado por homens e suas interpretações.

Particularmente tenho enfrentado uma série de embates ideológicos com alguns colegas espíritas em torno da questão da homossexualidade, e percebo em alguns, com um certo choque, as mesmas posturas e sentimentos homofóbicos encontrados fora de nossos arraiais e que são o cerne dessa onda de violência que se alastra, contudo, o pieguismo, a ignorância ou mesmo a falsa santidade em que se arvoram fazem-nos velar os seus comportamentos hostis disfarçando-os com o moralismo das conversas de pé de ouvido ou dos ajuizamentos sobre a idoneidade deste ou daquele companheiro declaradamente homossexual ou não que atuam no Movimento Espírita.

Para eles o indivíduo homoafetivo é emocionalmente desequilibrado, sexualmente desajustado quando não raro os colocam na posição de obsidiados intratáveis e por conta dessa desqualificação fica praticamente impossível para os primeiros o alcance de posições de trabalho espírita dentro do Movimento como em palestras, reuniões mediúnicas, orientações de pessoas entre outros…

Dia desses fiquei pasmo quando um amigo me relatou que ouvira de um presidente de federativa estadual que o mesmo não aceitava o fato de um espírito da envergadura de Bezerra de Menezes vir se comunicar por intermédio de um “gay” e que se fosse um espírito seguramente era mistificador… Em outra ocasião soubemos de outro companheiro que estimulou com seu discurso, em um país da Europa, o veto a palestrantes homossexuais pois estes eram, em seu juízo falacioso, “demasiadamente vulgares e promíscuos.”
Não bastasse isso, livros, pensamentos, “mensagens ditas de espíritos” explicitamente criadoras de uma homofobia institucionalizada tem sido divulgadas contrariando frontalmente a concepção basilar de AMOR assente no regime de alteridade que deve sustentar as relações proposta pelo Espiritismo.

Pillay , comissária das Nações Unidas, emitiu em maio de 2011 , uma expressão memorável:

"[…] Em última análise, a homofobia e a transfobia não são diferentes do sexismo, da misoginia, do racismo ou da xenofobia. Mas enquanto essas últimas formas de preconceito são universalmente condenadas pelos governos, a homofobia e a transfobia são muitas vezes negligenciadas. A história nos mostra o terrível preço humano da discriminação e do preconceito. Ninguém tem o direito de tratar um grupo de pessoas como sendo de menor valor, menos merecedores ou menos dignos de respeito. […]”

Diante disso Espíritas cabe-nos uma reflexão profunda em torno dos nossos medos e comportamentos para assumi-los sem disfarce e transforma-los a fim de que não cometamos o assassinato simbólico de corações homoafetivos que tem produzido muito em prol da divulgação de Kardec.

Não discutam pessoas, discutam idéias, não estacionem no ostracismo dos próprios sistemas!

É necessário não esquecer que, conforme Emmanuel , para que isso se verifique em linhas de justiça e compreensão, caminha o mundo de hoje para mais alto entendimento dos problemas do amor e do sexo, porquanto, à frente da vida eterna, os erros e acertos dos irmãos de qualquer procedência, nos domínios do sexo e do amor, são analisados pelo mesmo elevado gabarito de Justiça e Misericórdia. Isso porque todos os assuntos nessa área da evolução e da vida se especificam na intimidade da consciência de cada um.


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