Coronavírus: cientistas correm para barrar epidemia que vem da China

MERS virus, Meadle-East Respiratory Syndrome coronovirus, 3D illustration

Especialistas falam sobre a origem do vírus, escala que a epidemia pode atingir e possibilidades mais promissoras de tratamento e vacina. Brasileiros que moram na China relatam suas rotinas em meio a epidemia

Por Luiza Caires

Até a tarde desta segunda (03), já eram 17 mil infectados e 360 mortes passados menos de dois meses desde que foram identificados os primeiros casos, na China, de um novo vírus da família coronavírus. O grupo tem entre os seus representantes vírus que já nos incomodam há muitos anos, com simples resfriados, mas também variantes mais recentes e preocupantes, como as que apareceram no começo dos anos 2000, causando as epidemias de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio).

Estes últimos atingiram a nossa saúde com mais força especialmente pelo fato de serem novos. “O nosso sistema de defesa ainda não foi preparado para combatê-los. Assim, são capazes de se espalhar mais e há a possibilidade de causarem uma doença um pouco mais agressiva, que é o que testemunhamos nestes três episódios”, explicou o infectologista da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) Esper Kallas.

Paulo Brandão: ainda não se sabe se há algum intermediário entre o morcego e o humano para o 2019-nCoV – Foto: Luiza Caires

Mas como exatamente surge um vírus “novo”? O virologista da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP Paulo Eduardo Brandão segue de perto a evolução dos coronavírus, e sabe que estes organismos têm uma elevada velocidade de mutação. O 2019-nCoV, como foi chamado, tem muito em comum com os causadores de Sars e Mers. Além da transmissão se dar por vias áreas (contato com secreções de pessoas infectadas em pequenas gotículas – aerossóis – que podem ser espalhadas pelo ar) e das complicações respiratórias que podem gerar, como pneumonia, os três vírus chegaram até o ser humano através do morcego – o que não acontece com aqueles dos resfriados conhecidos desde a década de 1960, que desde o surgimento infectam apenas humanos.

“O novo vírus é muito próximo ao da Sars, com 85% de identidade, e outras partes do genoma que são recombinações com algum outro coronavírus que ainda não se conhece. Mas sua origem, pelos dados genéticos que já temos, é o morcego”, diz o pesquisador.

Nas outras doenças, morcegos doaram o vírus para um intermediário – o dromedário, no caso da Mers, e um mamífero chamado civeta, no da Sars – e a partir disso o vírus chegou até o ser humano. Segundo Paulo Brandão, ainda não se sabe se há algum intermediário entre o morcego e o humano para o 2019-nCoV, apenas que o centro do surto foi um mercado que vendia animais vivos na cidade de Wuhan, na China. Isso não quer dizer que alguém precisa ter comido um morcego ou outro animal infectado. E certamente não foi o caso de uma pessoa mordida por um morcego, já que a transmissão se dá somente pela via respiratória. Já a manipulação de animais para o preparo ou mesmo a inspiração de aerossóis com fezes de morcego contaminadas seriam meios possíveis.

A transmissão entre pessoas, por sua vez, se dá apenas a partir de um contato muito próximo. “Se o vírus cair num copo, por exemplo, é mais difícil haver infecção. A transmissão indireta não é eficiente como a de uma pessoa falando bem perto de outra, por exemplo, mas acontece”, explica o virologista, ressaltando que, ainda assim, todas as medidas de higiene básicas devem ser reforçadas.

De acordo com ele, cada pessoa infectada gera em média mais dois ou três casos, uma taxa de transmissão relativamente baixa. Infecções virais podem originar os chamados “supertransmissores”, capazes de infectar até dezenas de pessoas, mas são uma exceção – pacientes que por alguma característica genética estão mais suscetíveis a desenvolver uma elevada carga viral (porque o vírus se multiplica com mais facilidade no seu organismo), ou que não apresentam sintomas e, por isso, não tomam precauções para evitar o contágio de outros. Em relação ao 2019-nCoV, há suspeita de um caso assim na China, mas nada conclusivo.

Saber que a transmissão é por via aérea preocupa, mas também dá o caminho para interromper o processo. “Não temos medidas específicas ainda: é usar máscaras nos locais mais afetados, lavar as mãos com frequência, evitar aglomerações e fazer o isolamento dos pacientes suspeitos durante o período de duas semanas”, diz o professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP Eliseu Waldman. É a quarentena, que já foi usada contra a Sars, mas que desta vez foi acompanhada de uma medida mais radical: um cordão sanitário, com o bloqueio da cidade de Wuhan. Sem relativizar todas as violações que acontecem em ditaduras, o fato de a China ser um regime autoritário acabou favorecendo o controle maior por parte do governo.

Antivirais e vacinas são armas buscadas

Os cientistas já têm mais que o genoma do 2019-nCoV, que foi decifrado pela Escola de Saúde Pública de Xangai e divulgado no GenBank, um banco de dados de acesso aberto. Eles dispõem do próprio vírus isolado em cultivo celular. “A gente consegue produzi-lo em laboratório em quantidade suficiente para pesquisar antivirais e uma vacina. É como se fosse uma domesticação do vírus, que já está sendo feita na China”, diz Paulo Brandão, ao explicar que isso não é algo demorado de fazer desde que utilizados cultivos celulares corretos. Neste caso, estão sendo usadas células respiratórias humanas – e tem dado certo.

A partir daí, explica o virologista, “tendo a estrutura do vírus e de suas proteínas, e com um banco de dados de estruturas de antivirais, podemos usar simulações em computador para fazer boas predições. Conseguimos ver, por exemplo, se um antiviral vai bloquear uma proteína que atua fortemente na replicação do vírus, e testá-lo em laboratório.” Ele lembra que a pesquisa de antivirais hoje foi muito acelerada por técnicas de bioinformática: dá para ver como o vírus se casa com o antiviral antes de desenvolver um modelo biológico em laboratório, que leva tempo. “Até o momento, não se tem um antiviral que funcione bem contra os coronavírus em humanos, mas ele está sendo buscado, e precisamos continuar fazendo isso”, diz.

Outro caminho para tratamento é a produção dos chamados anticorpos monoclonais. A empresa Vir Biotechnology, de São Francisco (EUA), anunciou ter uma biblioteca destes anticorpos que demonstraram eficiência contra os coronavírus causadores da Sars e da Mers em testes de laboratório.

Há ainda o relato de caso tratado com um coquetel de drogas contra o HIV e que apresentou melhora. Ensaios clínicos de fase 3 (a última etapa obrigatória de testes antes de uma possível comercialização das drogas) começam nesta segunda (3) no Hospital de Amizade China-Japão em Pequim.

Mas e a vacina? Se com as técnicas atuais, sequenciar o genoma é uma questão de horas, e isolar o vírus em cultivo, de dias, para uma vacina ser liberada pode-se levar de meses a anos. “Vacinas para humanos têm exigências bem restritas, com várias fases de testes de segurança e eficácia”, explica Brandão. Somado a isso, há os entraves financeiros: nem sempre laboratórios comerciais, que podem produzir uma vacina em larga escala, se interessam. No caso do Ebola, por exemplo, foram 20 anos até o anúncio de que uma vacina está disponível – que ocorreu há poucos meses.

Por outro lado, grupos de cientistas já começaram um trabalho intensivo atrás da vacina para o 2019-nCoV, e pode ser que tenhamos algo em mãos em tempo recorde. O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), um dos maiores centros de pesquisa do mundo, anunciou que deverá começar os ensaios clínicos de uma vacina contra este coronavírus em até três meses. Anthony Fauci, diretor do NIH, afirmou à Agência Reuters que o prazo estabelecido é o mais rápido já dado pelo instituto em sua história.

Laura de Freitas: vacina com “grampo molecular” ajuda sistema imune a reconhecer proteínas como ameaça e gerar anticorpos – Foto: Arquivo pessoal

A  empresa Novavax, de Maryland (EUA), já tem uma vacina em desenvolvimento contra a Mers, e diz que agora está trabalhando também em uma para o novo coronavírus. Além disso, na Universidade de Queensland (Austrália), os cientistas estudam uma abordagem vacinal chamada “grampo molecular”. A pesquisadora do Instituto de Química (IQ) da USP e do Centro Redoxoma Laura de Freitas explica que o coronavírus, como o influenza, é um vírus envelopado: o material genético deles fica protegido por um envelope de lipídeos e proteínas. As proteínas são usadas para que o vírus se ligue na célula e consiga abrir a porta para entrar. São essas proteínas que o sistema imune identifica como estranhas e começa a gerar uma resposta – os lipídeos o vírus rouba da célula que ele estava infectando. “A gente consegue então produzir essas proteínas em laboratório e usar para fazer uma vacina. Pense nas proteínas como se fosse um novelo de lã. Se você tentar usar um novelo emaranhado para fazer tricô, pode até funcionar, mas vai estar cheio de nós que te atrapalham e vai demorar. Não funciona tão bem. Mas se você tem um novelo organizadinho, o tricô sai super rápido. Esse grampo molecular é como se fosse um organizador do novelo, garantindo que as proteínas virais feitas em laboratório estejam com uma organização que o sistema imune é capaz de reconhecer”, simplifica a farmacêutica.

A técnica já mostrou resultados promissores em testes com outros vírus, como o da Sars.


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