Eu-Manifesto espírita

Os últimos anos têm me trazido reflexões muito graves, que me levam a questionar meu lugar no mundo e, porque não dizer, meu lugar em mim mesmo.

Titulo original: *MEU MANIFESTO ESPÍRITA ou EU-MANIFESTO-ESPÍRITA*

Pedro Camilo de Figueirêdo

Sou espírita. Sou cristão. Sou pai. Sou escritor. Sou amante do saber e da sabedoria. Tudo o mais, que digo que “sou”, apenas “estou”, porque é tudo circunstancial, pode mudar com o tempo, com o momento, com uma nova encarnação ou com o balanço das ondas. Aquilo que sou, porém, é fruto da convicção, filha do saber: eu sei e me sei e, por isso, eu “me sou”.
E como ser espírita, ser cristão, desde os 13 anos, é o que, desde lá, me define e me é, não tenho como não situar as graves reflexões que me têm assaltado nos últimos anos nesse locus que é o espiritismo, que é o eu-locus, o meu lugar de mundo, de fala, de ser. Por isso, estas palavras, muito mais do que o MEU MANIFESTO ESPÍRITA, é o EU-MANIFESTO-ESPÍRITA, por ser muito mais do que um pensar sobre ou a partir de, mas um pensar, um sentir e um “ser-em” e um “ser-em-si”.

Eu não ancoro minha convicção espírita (não falo em crença, penso que a convicção é um passo adiante) em pessoas, sequer em Kardec. Conquanto o método e a inteligência de Kardec me seduzam, como já não sou mais virgem e os ouvidos em parte já se calejaram, bebo do prazer que ele me oferece, mas não me embriago. Como consequência, o que as pessoas fazem ou deixam de fazer, dizem ou deixam de dizer, não abala minha convicção espírita, aquilo que sei e sou.

Já não me identifico com muitos movimentos espíritas que estão aí. E falo “movimentos” porque nem reconheço um único movimento, nem coloco nenhum deles, ainda que majoritário, como “oficial”. Entendo perfeitamente que cada um faça um “recorte” de aspectos do espiritismo e o empunhe, mastro à mão e ao sabor dos ventos tremulantes do progresso, a dizer: “aqui, sim, está o verdadeiro espiritismo”. É a verdade de cada um, ou antes, o recorte que cabe nos anseios e aspirações individuais. Não quero – e não vou – me guetificar, prendendo meu olhar e meus esforços no que penso serem aspectos despegados e entronizados de algo que, para mim, nunca pode ser só as partes, nem a soma do todo – é algo mais complexo, é um todo que vai além da mera soma dos pedaços.

 

Cada vez mais me convenço de que, nos dias atuais, as pessoas creem/seguem/abraçam o que querem, sobretudo o que encontra eco nas suas elaborações atávicas/reencarnatórias/existenciais mal resolvidas. Pouco importa o quanto se argumente, o quanto se diga; aliás, pouco mesmo importaria estarmos diante de Jesus, pois, ao contrário de Saulo, a maioria de nós já se encontra cega. Saulo ao menos estava predisposto a um novo olhar; do contrário, não teria visto a Jesus e, consequentemente, “perdido a visão” das circunstâncias que o aferrolhavam a interesses menores.

Juntando-se ao ponto anterior e, em parte, como consequência dele, venho nutrindo a convicção de que a melhor forma de dizer o que penso, de externalizar o que sinto, é dizer e externar porque penso ou porque sinto, e não para me opor ao que pensam e sentem as outras pessoas. Decidi – por enquanto é decisão e esforço pessoal, pois reconheço não ter, ainda, alcançado tal condição – que não mais construirei minhas pautas existenciais a partir da pauta dos outros, em resposta, oposição ou adesão a outras pessoas, mas pelo vivo desejo de ser eu mesmo, no supremo desafio de deixar de ser um “eu menor” para ser um “eu maior”.

Também por isso, cada vez mais acredito na comunicação não-violenta como instrumento seguro de construção da paz social. Penso que a melhor forma de despertar as pessoas para um sentido outro, diferente do que sentem, é reconhecendo o direito de serem quem são, sem agredi-las por serem assim, mas tendo a possibilidade de simplesmente apresentar outras visões, outras versões, sem a pretensão de ter “a” visão ou “a” versão da verdade.

 

Lembrando Caetano, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Eu estou cada vez mais certo de que não existe outro caminho a ser percorrido, na esteira do progresso, senão o de nos assumirmos como somos, imperfeitos, incompletos, inconsistentes, mas altamente plenos de belezas, riquezas e alegrias que somente a nós nos cabe. Daí o meu exercício diário de simplesmente ser – e deixar que cada um simplesmente seja.

É nesse sentido que me alegro da maior beleza tenho, da “mais grande” riqueza que possuo: de ser quem sou, nem mais nem menos; de fazer minhas escolhas, pouco importa quais sejam; de viver e saber a dor e a delícia de ser quem sou.

Essa, talvez, seja a única felicidade possível de ser vivida e sabida, neste mundo – SER LIVRE, SER QUEM SE É, SEM ABRIR MÃO DE SER.
E eu não abro mão de – pelo menos tentar – vivê-la

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