“Lobos são os que devoram os fatos”

O prestigiado ensaísta francês em seu apartamento de Paris.ERIC HADJ (El Pais)

Destaque do El Pais: Entrevista com o filósofo Bruno Latour.

Nota do Editor NE: Em uma entrevista ao El Pais intitulada “O sentimento de perder o mundo, agora, é coletivo”, o pensador Francês Bruno Latour fala das falácias alimentadas por parte da sociedade e governos do mundo em relação à negação da ciência; como exemplo os movimentos antivacina e a contra a urgência climática, assuntos abordados também em seu novo livro Down to Earth. Politics in the New Climatic Regime. Vale a pena a leitura da entrevista em um tempo que traz a necessidade premente de valorização cada vez maior das pesquisas  científicas e da própria história. Abaixo um pequeno trecho sobre pós-verdade. A entrevista na íntegra pode ser lida no El País. (MFN)

P. … pode haver uma ideia compartilhada da verdade?

R. As pessoas se queixam das fake news e da pós-verdade, mas isso não significa que sejamos menos capazes de raciocinar. Para conseguir manter um respeito pelos meios de comunicação, a ciência, as instituições, a autoridade, deve haver um mundo compartilhado. É um tema que estudei no passado. Para que os fatos científicos sejam aceitos, é preciso um mundo de instituições respeitadas. Por exemplo, sobre as vacinas se diz: “Estas pessoas ficaram loucas, estão contra as vacinas.”

Mas não é um problema cognitivo, de informação. Os que são contra não serão convencidos com um novo artigo na revista The Lancet. Essas pessoas dizem: “É este mundo contra este outro mundo, e tudo o que se diz no mundo de vocês é falso.”

 

P. Os fatos não existem independentemente desses mundos?

R. É preciso sustentar os fatos, não vivem sozinhos. Um fato é só um cordeiro frente aos lobos.

P. Quem são os lobos?

R. Os que devoram os fatos. Um fato deve estar instalado numa paisagem, sustentado pelos costumes de pensamento. São necessários instrumentos e instituições. As vacinas são o exemplo de um fato que precisa de uma vida pública. Se eu sair pela rua com uma seringa tentando vacinar as pessoas, serei considerado um criminoso.

Se a vida pública é deteriorada por pessoas que consideram que – não importa o que você disser – este não é o mundo delas, os fatos não servem para nada.

 

P. Mas nesse caso há um fato: as vacinas são úteis, não importa se os outros acreditam ou não.

R. No meu mundo e no dos leitores do EL PAÍS, sim. Mas nem todo mundo lê o seu jornal, nem tem um doutorado, nem confia nas instituições médicas, nem vive num país onde o Ministério da Saúde apoia as vacinas. É preciso muita coisa para sustentar os fatos.

A entrevista na íntegra pode ser lida no El País


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