Nos muros ou nas telas, artistas urbanos comentam a pandemia

Mural de larga-escala, em Manhattan, Nova Iorque do artista urbano Tristan Eaton

Por Carolina Rezende e Edson Leite | O florescimento da arte conectada com sérias doenças infecciosas é antigo.

Uma médica, com máscara de proteção respiratória, luvas e estetoscópio, sinaliza com as mãos, um coração. Uma enfermeira, protegida por escudo facial com o símbolo do super-homem, mostra um olhar expressivo, talvez uma mistura de compaixão e coragem. Em época de pandemia, artistas urbanos de vários países, levam para os muros e para as telas, mensagens de esperança, alegria, humor, respeito e apoio. O florescimento da arte conectada com sérias doenças infecciosas é antigo. Os surtos dessas enfermidades alcançaram tempos de guerra, atingiram antigas civilizações, refletiram em revoluções, bem como na política, e também tiveram influência nas manifestações artísticas.

Ao voltar os olhos para o passado, percebemos que diversas pandemias deixaram suas marcas na história e na arte. Assim, a Peste Negra aterrorizou os anos 1300; o Cólera provocou reproduções irônicas sobre o contexto daquele período; a Gripe Espanhola e, mais tarde, a AIDS, não perdoaram artistas como Edvard Munch e Keith Haring, respectivamente.

 

A arte respondeu aos surtos infecciosos anteriores de acordo com as leis que imperavam em cada um daqueles contextos.

Nesse sentido, a Peste Negra levou a uma subsequente alteração na forma de pensar. O surto, de 1348, alcançou uma expressiva taxa de mortalidade e ocasionou uma dualidade de comportamentos na Europa Ocidental. Houve o agravamento do rigor religioso, como forma de alcançar a salvação, e, de outra parte, o aumento pela procura de atividades que trouxessem o prazer, já que, naquela situação de alta mortandade, o futuro, o amanhã, era imprevisível. Dentre os temas das práticas artísticas medievais, destaca-se a presença da popular “dança macabra”. Produzida em vários suportes, a “dança” era composta por personagens vivos e mortos. Mostrava que, a morte, não tinha uma data definida, contudo, era algo que não conseguiria ser evitado, e atingiria a todos.

No século XIX, o cólera trouxe, para a arte de seu tempo, questionamentos sociais com doses de ironia e humor. Desse modo, a gravura colorida do artista inglês Robert Cruikshank, “Robert Cruikshank’s Random Shots.-(No. 2.) A cholera patient” (“Tiros Aleatórios de Robert Cruikshank -(No. 2.) Um paciente de cólera”, tradução minha), produzida por volta de 1832, levantava irônicas (e sérias) indagações sobre a doença, a pobreza, a fome e o tipo de tratamento médico dado à época. Em outra obra, Cruikshank, acentuou as dúvidas existentes acerca da lisura de profissionais que estavam enriquecendo com o surto.

 

Em 1918, a Gripe Espanhola começou a se espalhar pelo mundo. Acometido pela doença, o pintor norueguês Edvard Munch produziu, do confinamento, a obra “Autorretrato com a Gripe Espanhola” (1919), onde evocou as consequências da enfermidade. Na pintura, mostrava-se debilitado, sentado em uma cadeira, com uma expressão facial até similar àquela da sua tão famosa “O Grito” (1893). Já em “Autorretrato Após a Gripe Espanhola” (1919), também de Munch, o artista, em uma aparente recuperação, surgiu com ares mais humanizados, vestido, como se estivesse retornando à vida.

Máscara de proteção respiratória azul apareceu sobre um mural de Banksy, em Bristol, na Inglaterra.

Em épocas mais recentes, novas pandemias atingiram o mundo. Produziram reflexos e novos tipos de conexões tanto com as manifestações artísticas contemporâneas como com os seus artistas. Talvez, o artista americano Keith Haring seja um bom exemplo desse contexto. Grande nome da arte urbana mundial, Haring chegou à Nova Iorque, para estudar arte, em 1978, no final de uma década onde a libertação sexual havia despontado. Na Nova Iorque dos anos 1980, repercutiu-se a explosão do graffiti. E, nessa atmosfera pulsante, o artista participou ativamente dos eventos. Descobriu, no graffiti, uma paixão. Seus murais, traziam uma linguagem própria e podiam, através de seus personagens, fazer emergir questões relativas à sexualidade e a homossexualidade (assumida por Haring). Era uma forma, por meio da qual, ele demonstrava o orgulho de ser gay.

Em 1981, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, identificou uma rara infecção pulmonar, que viria a ser conhecida como AIDS (síndrome da imunodeficiência adquirida). Os estudos iniciais apontaram que a incidência da infecção ocorria em homens adultos, homossexuais, que viviam em Nova Iorque e na Califórnia. O surto da AIDS, nos anos 1980 e 1990, atingiu famosos e anônimos. Haring, foi uma das vítimas. No entanto, apesar de carregar o vírus, a sua arte passou a reforçar a importância da vida, do sexo, do amor e do tempo. Para ele, esse vírus pôde fazer com que as pessoas repensassem sobre a razão da vida, que merecia ser apreciada. Haring, tornou-se um militante e reconhecia a urgência do seu trabalho. Dessa forma, através de obras como “Safe Sex” (“Sexo Seguro”, em português, tradução minha), de 1988, passou a conscientizar as pessoas sobre a prevenção da doença. Levava informação, por meio de sua arte.

No dia 11 de março de 2020, quando o novo coronavírus já havia se espalhado por diversos países, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia da covid-19. Não muito se sabia sobre o silencioso vírus e respostas à doença vieram de várias áreas.

A arte também realiza tentativas de combate à covid-19. As manifestações artísticas podem ter efeito sobre as interações entre as pessoas, e trazer motivação, engajamento, confiança. Podem inspirar. Dos muros coloridos pela arte urbana e dos trabalhos produzidos, em outros suportes, por seus artistas, saltam mensagens que incorporam elementos traduzidos em esperança, alegria, amor, enobrecimento das profissões de saúde, necessidade de confinamento e de medidas protetivas.

 

Próximo do Dia Internacional da Enfermagem (comemorado em 12 de maio), o artista urbano Tristan Eaton, pintou um mural de larga-escala, em Manhattan, Nova Iorque. O elemento central da obra é uma enfermeira que, com máscara de proteção, traz, no uniforme hospitalar, símbolos e cores da bandeira americana misturados a outros elementos, como pombos da paz, o rádio portátil (uma das marcas da cultura Hip Hop), o bombeiro e outros personagens, todos protegidos por escudos faciais. A obra também faz uso da linguagem. Por meio de palavras, ressalta o heroísmo e o agradecimento.

Fenômeno da arte urbana mundial, o artista britânico Banksy (que não revela a real identidade), divertiu seus seguidores, quando publicou, no instagram, uma imagem do que seria o banheiro da sua casa, todo bagunçado, por diversos e pequenos ratos criados com estêncil (o rato é um dos personagens característicos do artista e aparece muito nas suas obras). As indisciplinadas figuras, pisam em pastas de dente, enquanto seguram as argolas que sustentam as toalhas; correm sobre o papel higiênico; entortam o espelho; e são capazes de provocar risos diante de tamanha desorganização. Na legenda, o artista urbano escreveu: “Minha mulher odeia quando trabalho de casa”. Recentemente, Banksy criou outra obra. Nesta, um menino, ajoelhado no chão, brinca de fazer voar a boneca com forma de uma imponente heroína enfermeira. A capa de super-herói do brinquedo, flutuava pelo ar, acompanhando o movimento da boneca. Ainda na cena, um cesto acomodava outros dois brinquedos (um batman e um homem-aranha). Não resta dúvida que a protetora escolhida, pelo garoto, foi a valente enfermeira.

O artista de rua francês Seth, deu cores e vida a uma pequena menina que, sentada num balanço, move-se em direção a um céu azul. Com o deslocamento, a garota quebra as grades da janela que a mantinha presa. Na legenda, a palavra “soon” (ou, “em breve”, em português).

Eduardo Kobra e sua obra

No Brasil, o muralista Eduardo Kobra, trouxe para a parede cinco crianças de diversas partes do mundo. Crianças que, com culturas e religiões diferentes, estariam fisicamente separadas, porque distantes, geograficamente, uma da outra. Mas no muro, estavam lado a lado. Protegidas com máscaras, todas tinham olhares de esperança e gestos de fé. Em sua conta no Instagram, o artista ressaltou: “vamos vencer isto juntos, mas separados. Ou separados – por isso juntos”. Transmitiu mensagem de união, com distância física, fé e esperança.

 

De rápida comunicação visual, a arte urbana pode irradiar hábeis mensagens para auxiliar a formação de uma consciência coletiva na luta contra a covid-19.

E estudos já demonstraram que apreciar a arte pode reduzir os níveis de estresse, deixar o humor mais leve, elevar a saúde mental, além de influenciar na expectativa de vida.

Em 2015, ressalta-se, uma pesquisa conduzida na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, apontou que realizar atividades que despertam boas emoções, sentimentos positivos, como por exemplo, admirar uma obra de arte, podem deixar mais saudáveis os níveis de citocinas (substâncias químicas necessárias para o funcionamento do corpo, mas que, em nível elevado, têm sido ligadas à depressão). Assim, a proximidade com a arte pode proporcionar importantes benefícios para a saúde, especialmente no momento atual (em maio, a OMS ressaltou a necessidade de ação quanto à saúde mental, em razão de vários países terem mencionado um aumento de sintomas relacionados à ansiedade e à depressão derivados da pandemia).

 

No final do mês de abril, uma máscara de proteção respiratória azul apareceu sobre um mural de Banksy, em Bristol, na Inglaterra – a obra, “Garota com o Tímpano Perfurado” é um estêncil, de 2014, que remete, em forma de paródia, à renomada pintura “Moça com Brinco de Pérola” (c. 1665), do artista holandês Johannes Vermeer. Não se sabe quem acrescentou tal máscara sobre o mural do mais famoso artista desconhecido da contemporaneidade. Talvez também não seja tão conhecido que, lá no século XVII, quando Vermeer pintou a sua “Moça com Brinco de Pérola”, Inglaterra e Holanda eram alguns dos lugares assolados pela Peste Bubônica. Vermeer – que era capaz de transformar cenas simples, do dia a dia, em pinturas primorosas -, por causa da peste, pintou muitos trabalhos da sua casa, em confinamento. De lá, como se fosse o palco para as suas obras, converteu a vida dentro de casa em beleza.

Por Carolina Rezende, mestranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte (PGEHA) da USP, e Edson Leite, professor titular do MAC-USP e do PGEHA-USP

Publicado originalmente: jornal.usp.br/?p=337492


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