Profissionais indígenas trabalham em prol de crianças migrantes

Cerca de 4 mil indígenas waraos, da Venezuela, estão no Brasil. Em Manaus, migrantes da etnia trabalham com o UNICEF para garantir o acesso das crianças aos seus direitos básicos

UNICEF Brasil
UNICEF/BRZ/Michell Melo
Criança lava a mão no abrigo Tarumã-Açu, em Manaus, onde vivem hoje 158 indígenas da etnia warao. Monitores da própria comunidade trabalham para prevenir e mitigar os impactos da Covid-19 entre a população.

Das mais de 260 mil pessoas da Venezuela que cruzaram a fronteira com o Brasil desde o início da crise naquele país, cerca de cinco mil são indígenas. Estima-se hoje que quatro mil waraos, uma das maiores comunidades indígenas da Venezuela, tenham migrado em busca de melhores condições de vida.

Muitos cruzam a fronteira em extrema vulnerabilidade. Nos estados de Roraima, do Amazonas e do Pará, o UNICEF apoia as autoridades locais para garantir que as crianças da etnia warao e suas famílias tenham acesso a saúde, água, saneamento, higiene, educação, proteção e informação.

Para isso, é essencial o trabalho conjunto com profissionais da própria comunidade, que garantem que os serviços cheguem a essa população da forma adequada e ultrapasse a barreira do idioma, já que muitos não falam espanhol nem português. Conheça a seguir dois monitores que estão empenhados na tarefa de garantir os direitos básicos à sua comunidade em Manaus.

 

UNICEF/BRZ/Michell Melo
Nelson Rojas é migrante venezuelano warao e trabalha com o UNICEF em Manaus como monitor de saúde no abrigo Tarumã-Centro.

Nelson Rojas, monitor de Saúde e Nutrição

Nelson Rojas chegou ao Brasil há pouco mais de um ano. Saindo do estado de Monagas, na Venezuela, percorreu mais de 800 quilômetros desde o delta do Rio Orinoco até chegar à fronteira. Lá em seu país, deixou o trabalho de tradutor de espanhol para o idioma warao, em uma escola da comunidade. “Devido à crise econômica, me senti pressionado porque o salário não era mais suficiente para sustentar a minha família”, relembra ele, que adorava o trabalho.

Decidiu vir ao Brasil. Cruzou a fronteira em Pacaraima, no estado de Roraima, e passou um tempo em Boa Vista, capital roraimense, até chegar a Manaus. Enquanto estava no abrigo para migrantes waraos, gerenciado pela Operação Acolhida – a resposta do Governo Brasileiro à crise migratória venezuelana –, destacou-se por sempre se voluntariar para fazer traduções. Foi assim que conseguiu a oportunidade de fazer um curso para ser monitor de saúde.

“Quando recebi a notícia, eu estava indo para a Venezuela levar comida para a minha família, e voltei rapidamente. Foi grande a emoção por ser um trabalho do qual gosto muito”, conta. Durante quatro semanas, aos sábados, Nelson passou por treinamento. Com o certificado em mãos, recebeu sua missão: trabalhar pela saúde e nutrição das crianças waraos de até 5 anos e mulheres grávidas.

 

Nelson é hoje um dos monitores comunitários da Adra, parceira do UNICEF, que atua nos abrigos para garantir que as famílias estejam com saúde em dia, incluindo o calendário de vacinação e acompanhamento nutricional, e prevenidas contra a Covid-19. As atividades contam com o apoio financeiro do Escritório de População, Refugiados e Migração (PRM) do Departamento de Estado do Estados Unidos.

Para Nelson, é muito importante contar com pessoas da própria comunidade warao nessas ações, inclusive por causa do idioma, já que que muitas famílias ainda estão se adaptando ao português e ao espanhol. “Eu quero seguir trabalhando e contribuindo com o que tenho no Brasil. Assim como os brasileiros me ajudaram muitas vezes quando cheguei”, diz o monitor.

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Adolescentes waraos recebem orientações de Daisy sobre como se prevenir contra a Covid-19 no abrigo Tarumã-Centro, em Manaus.

Daisy Perez, monitora de Educação e Proteção

O UNICEF também mantém espaços onde meninas e meninos podem retomar a infância após a difícil jornada de migração: os Súper Panas. Em Manaus, o projeto promove atividades educativas e de apoio psicossocial em parceria com as Aldeias Infantis SOS Brasil. Nesse espaço, a língua e as tradições da comunidade warao são integradas ao projeto enquanto se ensina sobre o novo país de acolhida.

Daisy Perez é indígena e já trabalhava há 15 anos como professora de comunidades na Venezuela. Quando decidiu vir ao Brasil há quase dois anos, junto com o pai e os irmãos, teve que deixar muita coisa para trás, inclusive os dois filhos. “Por causa da crise, mesmo trabalhando como professora, o dinheiro não era suficiente”, conta.

 

Assim que cruzou a fronteira em Pacaraima, Daisy seguiu para Boa Vista, onde começou a trabalhar em projetos de educação para crianças migrantes. Agora, em Manaus, já não vive mais em abrigos e conseguiu trazer um dos filhos para o Brasil. A sua motivação é trabalhar para que a sua comunidade se integre como ela no novo país.

UNICEF/BRZ/Michell Melo
Crianças waraos do abrigo Tarumã-Centro participam das atividades no espaço Súper Panas.

Com a pandemia, 22 espaços Súper Panas abertos em Roraima, Amazonas e Pará continuam funcionando, mas adaptados para evitar o contágio pela Covid-19. O número de crianças e adolescentes foi limitado a 10 por vez, e máscaras e a higienização de mãos é parte integrante das atividades. “As crianças estão aprendendo, mesmo com as escolas fechadas. Aqui eles não deixaram de ter aulas, todos os dias estão aprendendo algo”, conta Daisy. O projeto conta com o financiamento do Governo do Japão.

No contexto da Covid-19, os Súper Panas viraram também programas de rádio, criados com a participação de crianças e adolescentes para disseminar mensagens educativas, de apoio à saúde mental, de proteção contra a violência e de prevenção do coronavírus. O conteúdo será transmitido em rádios locais e podcasts, para que as crianças migrantes e refugiadas, incluindo as indígenas, tenham novas formas de acessar conteúdos relevantes e educativos. Para isso, foram doados dois mil aparelhos de rádio para as famílias em Roraima, Amazonas e Pará.

Publicado originalmente: https://www.unicef.org/brazil/


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