A babel do Espiritismo

Marcelo Henrique |

Ufanismos Espíritas: dos Espíritos, de Kardec ou dos Espíritas? 

Muitas vezes me pego folheando a Revue Spirite, esse notável repositório de informações acerca do Espiritismo. E comparo várias dissertações com os textos de Kardec esparsos nas obras “mais densas” em que está presente a Filosofia Espírita e, nesse caso, sob a chancela do controle universal. Já destaquei inúmeras vezes que os textos da Revista devem ser lidos com atenção e interesse, mas sem a intenção de colocá-los, de pronto, como verdades indiscutíveis. O laboratório de Kardec permitiu-lhe, de 1857 a 1869, colocar “n” temas para debate e maturação, tanto é que, em variadas situações, as páginas mediúnicas foram motivo para alterações do pensamento de Kardec (e dos Espíritos) na revisão de algumas de suas obras.

Há um entusiasmo por vezes exacerbado de Kardec em relação à “proposta do Espiritismo”. Esperava ele que a difusão dos conhecimentos espiritistas pudesse levar a novas mentalidades – individuais e coletivas – as quais, sob bases espíritas, permitiriam a construção de novas sociedades e conduziriam o planeta, a passos largos, ao progresso.

Isto fica patente no texto em que Kardec fala dos “períodos do Espiritismo”, analisando passado, presente e futuro – naquele quadrante da segunda metade do século XIX – quando ele projetou para meados do século XX a entrada do planeta numa era de regeneração. Já estamos caminhando para a segunda década do século XXI, e a barbárie, as sandices, as violências e as intolerâncias nos dão provas cabais de que regenerados é que os homens em geral, em sua imensa maioria, não estão.

Há quem diga que o planeta permanece evoluindo a passos largos (Lei do Progresso) e que as descobertas e experimentos científicos, a modernidade das relações e das comunicações, a conquista de direitos de gerações mais adiantadas (quarta, quinta), são demonstrativos das “previsões” dos Espíritos Superiores. Como se o conhecimento e o progresso tecnológico, material, científico fosse atestado de dianteira na senda evolutiva, tão-somente.

As contingências sócio-político-econômicas, as relacionadas à linguagem e às relações entre indivíduos, povos e Estados, o diálogo interfilosófico e inter-religioso, os acordos de convivência política no plano internacional, ainda sofrem em face da intransigência dos interlocutores e, ao passo que em dada década avançam, em outras recrudescem, como resultado da aplicação de ideias pessoais, crenças e paixões, ainda primitivas, ou voltadas à conversão, escravização e dominação de consciências. O que falar, então, das barreiras ideológicas, das de crença, e as derivadas da dificuldade de compreensão em face da língua que se fala?

Erasto, um dos Espíritos Superiores mais marcantes em toda a Codificação tem esse traço de otimismo exacerbado – ou, como pontuo no título deste artigo, um UFANISMO ESPÍRITA. Sim, porque ao falar “dentro” da obra do Espiritismo, Erasto, personagem conhecido do Cristianismo se destaca como intérprete espírita e suas ideias devem ser interpretadas como espiritistas – e não como signatárias da verdade cristã, anterior a 1857.

Em um trecho contido na Revue (Novembro, 1862, “Origem da linguagem”), ele ditou (a cento e cinquenta e sete anos atrás, portanto): “a Humanidade marcha para uma língua única, como consequência forçada de uma afinidade de ideias em Moral, em Política, e sobretudo em Religião”. Incrível! Afinidade de ideias morais, políticas e religiosas como condutoras da unificação da linguagem humana planetária!

O que podemos dizer disso? Você, amigo ou amiga, vê algum traço disso ao seu derredor? Ligando a TV ou acessando sites de notícias e informações, percebe algum sinal (ainda que de fumaça, em distante horizonte) de sinergia, entendimento, esforços conjuntos, para o estabelecimento de BASES reais e claras em termos de Moral (filosofia), Política e Religião! Tirando, aqui ou ali, um evento isolado, promovido quase sempre por entidades educacionais ou ONGs voltadas a questões de interesse coletivo, não se consegue divisar quase nenhum traço dessa proposta conciliatória. E conciliar, aqui, simboliza o gesto de desprendimento que minimiza posições pessoais e busca acordos em que não há vencedores ou vencidos, superiores ou inferiores, líderes ou seguidores.

O Ufanismo de Erasto contagiou Kardec em inúmeros trechos da obra. É fato que, ao se deparar com inúmeras páginas de elevação moral, genuínas propostas para a caminhada, relatos de realidades extrafísicas que aguardam os seres que se adiantam na trajetória de progresso, cumpridas as etapas anteriores de provas e expiações – como é a tônica deste orbe – Kardec se “empolgou” com a perspectiva de raiar uma Nova Era para a Humanidade, com indivíduos e coletividades despertos, conscientes, fraternos e construtores desta nova realidade. Mas tal (ainda) não ocorreu. E, a olhos vistos, deve tardar, diante de tantas iniquidades e pouquíssimos rasgos de lucidez em termos de consciência e ação, nos nossos dias.

E o que vemos, então, senão ESPÍRITAS DEMASIADAMENTE ENTUSIASMADOS, falando em “datas limites” para a “transição planetária”, compondo histórias fantásticas, que bem poderiam ser enredos de películas cinematográficas (ou já são!), com a encarnação de seres “alados” (Espíritos de Luz) a povoar o planeta e a assumirem postos de liderança e condução de “rebanhos”. Por falar em rebanho, a postura e a manifestação dos “arautos espíritas” (os mais conhecidos, nacional e internacionalmente, assim como os mais modestos, “astros” locais da oratória dos centros e eventos) continuam a repetir seus bordões que cultuam a religião espírita como o ponto de convergência de todas (!) as demais religiões (“em nome do Cristo”) e que irão espalhar os “princípios espíritas” mundo afora, pois todos hão de reconhecer sua validade e aplicabilidade (!), levando um sem-número de adeptos à posição genuflexa de “crer cegamente” (ainda que se fale em fé raciocinada), porque “Deus está no comando”, “os Espíritos Superiores nos orientam e fazem por nós” e que muitos “guias”, já encarnados, estarão à frente da nau (espírita e planetária), com “Jesus no leme”.

O ufanismo “dos Espíritas”, infelizmente, não me seduz nem me tem como membro do séquito que, dia após dia, repete esses mantras como “verdades”. E ai de quem – com a Filosofia Espírita como diretriz – disser o contrário! É “acusado” de tudo! É considerado como “obsedado”. Ou então se questiona: – quem é você para duvidar dos “mentores” ou dos “palestrantes”? Vá fazer, primeiro, o que fulano ou beltrano tem feito, apra depois dizer algo diferente das “orientações” que ele nos traz…

 

É isso , amigos, a Babel Planetária prossegue e, de modo pontual, também é visualizada entre os espíritas. Os espíritas “crentes” não admitem que lhes confrontem ou lhes advirtam em nome da razão – bem poderia ser a kardeciana fé raciocinada, não é mesmo? – e os diversos grupos que se intitulam espíritas, laicos, científicos, filosóficos, religiosos, federados, e as demais adjetivações que vemos por aí, associadas a determinados autores ou médiuns e expositores, prosseguem cada qual com as suas “verdades”, sem nenhum interesse nem esforço de buscarem atentar para a proposta de Erasto. Sem a mínima compreensão da LINGUAGEM (que não se refere, unicamente, a idiomas) continuaremos proclamando o UFANISMO ESPÍRITA e muito distantes da Terra de Regeneração.

Por fim, até compreendo o Ufanismo de Erasto (por estar, ele, mais adiantado e “de fora” do mundo físico que é a nossa morada atual), o de Kardec (que estava diante de uma doutrina nascente, com a qual permaneceu à frente por cerca de doze anos). Mas não posso me contentar com o dos espíritas, pois já temos as diretrizes da Filosofia Espírita há praticamente cento e sessenta anos, mais de um século e meio, considerando que seria muito mais adequado do que teorizar acerca do Espiritismo, dar-lhe as condições efetivas de se tornar realidade de entendimento mundial. E por que não o fazemos, então?


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+ Marcelo Henrique Pereira