A benzedeira

Imagem ilustrativa de Free-Photos por Pixabay

[ Crônica ] O encontro. O mistério. O ritual. A cura?

Marcelo Henrique

Uma imagem, bastante envelhecida, de um Cristo com o coração à mostra, envolvido em espinhos, na parede desgastada e sem cor. Um calendário do tipo “folhinha”, com mensagens, em que são retirados os dias passados. Móveis antigos, na sala, cadeiras, poltrona, sofá, um pequeno tapete, com alguns rasgos, denotando o implacável tempo. Uma cozinha simples, com geladeira e fogão díspares e uma mesa de fórmica com quatro cadeiras. Cortinas simples, para diminuir a incidência da luz do sol.
Neste ambiente ela se concentra…

O terço na mão. O lenço a adornar a cabeça de uma fronte cansada e de cabelos cor de cinza. Um vestido que ainda mostra a vaidade que vicejou na juventude. Um sorriso, ante algumas frases de boas vindas e de acolhimento. O olhar, sereno, mas atento, com as meninas dos olhos um pouco anuviadas, mas conservando ainda nítida visão.

 

Ela me manda sentar. E pergunta das bananas. Estendo-lhe a sacola, com seis, talvez oito delas. Bem verdes, caturras, grandes, espessas… Ela as examina, apalpando-as, aprovando-as…

Pega uma desgastada faca e corta, quase à metade. O fruto brilha, ainda que imaturo, e pequeno líquido começa a brotar, quase gosmento…

Ela me olha, e diz: – não se assuste. Não vai sentir dor alguma. Talvez alguma sensação de frio, ao encostar na pele…

Pergunta-me onde estão. Aponto-as. São várias. Na perna, nas mãos, nos pés… Uma a uma… Ela estranha o tamanho de algumas. Uma, na “batata” da perna, vive esfolada, sangra, quando a bola de futebol a arranha, eu digo. E ela me diz: – Essas aqui são daquela qualidade ruim, das brancas. Mas vamos dar um jeito…

 

Fecha os olhos. Faz uma oração, católica, conhecida. E outra… Outra mais… E uma reza, meio ininteligível, não sei se pela precariedade do falar ou das palavras, que desconheço.

Também fecho os meus e sinto o contato da banana cortada em minha pele. E ela vai passando a banana cortada nas berrugas (verrugas), deixando-as “babadas”, amareladas, meladas…

Alterno entre abrir e fechar os olhos… Curioso, meio impaciente, talvez descrente.

Termina o rito, o ritual, a benzida. Ela abre os olhos. Sorri, agora mais efusivamente. E afirma: – você vai ficar curado. Elas vão cair. Deixe a banana agir por todo o dia. Só tome banho quando for dormir. Volte mais seis vezes. Uma por semana. São sete vezes. Para que elas “vão” embora para sempre!

– Lembranças à mãe – ela diz, quando me despeço… – Te espero, semana que vem!

Saio sem olhar para trás. Na mente, a dúvida, se a simpatia vai me livrar daqueles incômodos. Assim desejo. E espero pela próxima vez de benzer…


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