A chance à paz

9 de outubro:  John Winston Lennon.

Marcelo Henrique

All we are saying is give peace a chance
(Tudo o que eles dizem é dar à paz uma chance)
John Winston Lennon (1940-1980)

A paz continua sendo uma angustiante busca. Tanto a que se abriga dentro de nós, quanto a que ocupa nossos nichos de convivência pessoal, em ambientes múltiplos e, também, aquela que deve povoar o planeta azul.

Mas, os dias andam bem turvos. As polaridades – que é certo fazem parte da vida, diante da faculdade individual de pensar e decidir o que se quer, para si – estão bem acirradas e é muito difícil, praticamente em todos os setores e quadrantes da existência, diante das mais diferentes paixões ou preferências, conversar amistosamente.

Parece que vivemos um hiato de temperança e compreensão. Há tentativas, de todos os lados, de colonização de mentes, porque já não se pode mais escravizar corpos, prendendo-os por correntes pesadas, e o que resta, para os que querem impor suas convicções, é o bombardeio psíquico e a bravata.

Grita-se! E os gritos não são mais (tanto) orais, presenciais, que seriam estridentes mas ecoariam até desaparecer – porque até a reverberação do som tem fim, por princípios físicos – mas, são, do contrário, escritos, sobretudo os expressos nas redes sociais que aproximaram – e distanciaram – as pessoas.

É fato que o diálogo é uma ferramenta necessária, porquanto nenhum homem sobrevive apenas das suas (próprias) ideologias. Desde tempos imemoriais, ainda nômades e, depois, já sedentários, desenvolvendo os primeiros rudimentos da propriedade (privada) sobre terras, cavernas, cabanas ou palafitas, a dialética se fez entre os iguais e a persuasão, pelas capacidades cognitivas ou pela força física, cooptou colaboradores para as revoluções possíveis.

A dialógica conduz à maiêutica, porque é necessário perquirir, questionar, provocar, buscar conhecer… Os maiores ícones da história não foram os que apresentaram respostas prontas, como bulas ou receitas para a felicidade, mas os que provocaram, nos homens, o desejo de sair de seus mundinhos, zonas de conforto e cascas protetivas, na direção do “algo mais”.

 

Não raro, estes personagens da História que merecem ser lembrados e cujos exemplos – mais do que as meras palavras ditas ou escritas – são diretrizes ou rotas, todos se caracteriza(ra)m por questionar seus interlocutores, propor a escolha entre várias alternativas possíveis e direcionar cada ser ao autoexame e à caminhada por suas próprias pernas.

Vamos lembrar, neste 9 de outubro, de um dos maiores compositores e cantores que se materializou nesta Terra: John Winston Lennon que, vivo fosse, estaria completando 80 primaveras (pois esta é a estação deste mês).

Música, aliás, que foi o seu principal megafone para influenciar gerações. Aos 15, o adolescente, que já crescera no contato com as palavras cruzadas, a música e a literatura, e tocava banjo, ouvindo os discos de Elvis Presley, ganhou seu primeiro instrumento. Com ela e o baixo de Paul, e mais dois amigos, criaram The Quarrymen.

Depois, ele e John mais George e Stuart foram os “quatro fantásticos”, ainda que este último tivesse ficado pouco, sendo substituído por Ringo. Os Fab4, The Beatles, fizeram a maior banda de rock do planeta. Referindo-se ao conjunto, no início da década de 60, Lennon disse que os besouros canoros de Liverpool eram mais populares que Jesus de Nazaré, naqueles dias. Talvez tenham sido mesmo naquele “flash” do tempo infinito, dada a amplitude de suas canções e, mais do que isso, o conteúdo de muitas de suas letras.

O quarteto inglês, aliás, vaticinou: Tudo do que precisamos é o amor (“All you need is love”, 1967) e o amor que você recebe é igual ao que você dá (“The end”, 1969). Neste ponto, entendemos, Lennon & McCartney reproduzem Yeshua, porque a mensagem deste último sempre foi relacionada (e direcionada) ao amor.

Mas muitos falam de Jesus e não agem como Jesus. Então, em 1966, no auge da banda, John afirmou sem qualquer peso na consciência e, de fato, separando o “Cristianismo do Cristo e o de seus vigários” – título, aliás, de um livro que ressalta as diferenças entre a mensagem originária do homem Jesus e as prédicas das religiões instituídas em “seu nome”, nestes termos: “O cristianismo irá embora. Vai desaparecer e encolher. Eu não preciso discutir sobre isso; eu estou certo e ficará provado que estou certo. Somos mais populares que Jesus agora. Eu não sei quem vai acabar primeiro, o rock’n roll ou o cristianismo. Jesus era legal, mas seus discípulos são grossos e medíocres. São eles distorcendo isso o que estraga, pra mim”.

 

O homem que ousou IMAGINAR não haver nem Céu nem Inferno, nem as distinções relativas à pátria; nenhum motivo (para matar ou morrer) e nenhuma religião. Não haverem posses e, por isso, ganância ou fome forem inexistentes. Todos vivendo o presente, compartilhando o mundo e gozando a vida em paz (“Imagine”, 1971).

E, ainda, houve tempo para, nesta canção, ele afirmar e convidar os demais que sonhassem um mundo assim. Porque ele não era o único!

Lennon esteve bem pouco entre nós, já que um fanático religioso que o fulminou em frente ao apartamento em que vivia em Nova Iorque, declarando que, de fã dos trabalhos desde os The Beatles, havia se indignado contra afirmações do cantor sobre Deus e a religião. Quarenta anos, apenas!

Ativista político e “embaixador” da paz, afirmou: “Nossa sociedade é controlada por pessoas insanas com objetivos insanos. Acho que estamos sendo administrados por maníacos para fins maníacos e acho que sou passível de ser colocado como louco por expressar isso. Isto que é insano sobre a situação”.

O grande contributo de John para a contemporaneidade está correlacionado à sua crença – e afirmação, em suas falas e músicas – que o poder do povo será capaz de mudar o mundo, dentro da ideia de corresponsabilidade para a edificação de cenários sociais mais favoráveis, igualitários e progressistas.

 

Ele repetia sempre que não deveríamos apenas ser pessimistas, achando que o planeta estava cada vez pior. O planeta são as pessoas e estas apenas repetem os mesmos erros, para ele.

Por detrás de seus inconfundíveis óculos arredondados (“afinal, o que é rock-n roll? os óculos de John e o olhar do Paul – comporia e cantaria Humberto Gessinger, Engenheiros do Hawaii), a paz sempre foi a obsessiva luta do poeta inglês, que asseverou: “Todos falam de paz, mas ninguém faz nada por ela. A paz só pode ser atingida com métodos pacíficos. Combater o sistema com armas é errado. Eles são milhares e ganhariam sempre”.

Num autorretrato, Lennon se imaginava um palhaço. Gostava de rir, abundantemente e fazer rir. A esse respeito, Elton John, outro dos maiores músicos de 1960 para cá, muito próximo do cantor e dos demais besouros, disse que amava estar com John justamente pela incrível capacidade dele em fazer os outros rirem e se divertirem. Foi, aliás, eleito pelos críticos americanos da música como o “Palhaço do Ano”. O beatle riu disto também e concordou, criticamente: “Somos humoristas. Todas as pessoas sérias, como Kennedy, Luther King e Gandhi foram assassinadas. Queremos ser os palhaços do mundo”.

Que ironia, não! Ao que parece, o levaram a sério e o colocaram neste panteão, naquele 8 de dezembro de 1980, com quatro balas à queima-roupa…

O anseio pela paz, todavia, não morreu! Será que daremos chance a ela?


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+ Marcelo Henrique