A era do PPS

Marcus Braga

([PPS] Extensão de programas de computador feitos no Microsoft PowerPoint, que são apresentações de slides autoexecutáveis, sem a necessidade de se apertar o botão a cada mudança de slide.

Vivemos a era do PPS. Não há um evento espírita, um encontro que eu vá que não tenha aquele monte de imagens com a música de fundo, com textos saltando, da mesma maneira que recebemos diversos destes, por e-mail, diariamente.

Da mesma forma, os palestrantes espíritas têm abusado do uso de slides gerados em computador, repleto de imagens e textos, muitas vezes simplesmente lidos, onde a ideia a ser desenvolvida fica perdida naquele emaranhado de informações, com movimentos e cores, na busca de impressionar e despertar a atenção dos ouvintes, como se a ideia desenvolvida não fosse forte suficiente para isso…

Estamos embevecidos pela tecnologia. Fascinados por esse admirável mundo novo. Quando já nos acostumamos a uma nova parafernália digital, ela já está obsoleta e nós destreinados. Carregamos o material de apoio de nossas atividades de divulgação espírita e pedagógicas com essa nuvem de estímulos para os sentidos dos que nos assistem, esquecendo-nos de dosá-las. “- Ah, você viu que filme legal da apresentação? E as imagens, que lindas?” Tudo isso, roubando espaço da discussão das ideias, em um ritmo frenético.

Para cada PPS, PPT, WMV, MP3, MVI etc., diminuímos as ações humanas de jogral, teatro, declamação, música cantada “a capela”; e todas essas manifestações humanas construídas e sentidas. Diminuímos gente, trocando estes por paisagens distantes, música mecânica e textos. Essa onda de tecnologia galopante precisa de equilíbrio!

Não se trata de ojeriza à tecnologia ou um desejo ermitão de se afastar desse mundo novo, mas sim uma necessidade de não sermos atropelados, em nossos valores e vivências, por equipamentos eletrônicos. A tecnologia virou um mito, sinônimo de futuro e progresso. Mas isso não implica o fim da vida como conhecemos e sim a utilização de recursos adicionais voltados para o ser humano.

Essa questão da tecnologia avassaladora traz em si, ainda, outros reflexos na nossa vivência. Em uma festa de jovens da mocidade espírita, em um encontro, em uma tarde fraterna, observo que nos preocupamos muito com fotografar e filmar, para postar no Blog e na rede social. E lá está aquela multidão com seu celular levantado, como um exército de “câmeras-men”, na busca de registrar em seu aparelho tudo que estão vendo, ou deixando de ver.

Essa é a questão. A tecnologia está fazendo que o aspecto estético e o desejo de registrar tudo suplantem a construção do conhecimento e a vivência dos momentos. Nas atividades deve ser valorizado o sentir e não o registro. Lembrar-nos-emos do que sentimos vendo os momentos registrados. Mas se não sentimos nada, nada lembraremos…

É compreensível isso tudo, pois são muitos estímulos, principalmente para o jovem espírita. Essa gama de informações, onde ele perde a profundidade do momento na multiplicidade dos eventos. Mas é preciso reagir, rever conceitos e posturas frente à tecnologia diante dos nossos valores, dos sentimentos mais profundos.

Por fim, fica a reflexão… Estamos valorizando nossos eventos pelo seu potencial tecnológico ou essa tecnologia está na dose certa, servindo ao sentimento e ao aprendizado do Espírito?



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