A grande busca de Edson

Teria Thomas inventado uma máquina para falar com os mortos?

Marcelo Henrique

“Eu tenho trabalhado por algum tempo construindo um aparelho para ver se é possível que personalidades que tenham deixado a Terra possam se comunicar conosco”.

Em outubro de 1920, Thomas Alva Edison (1847-1931) afirmou isto em uma entrevista para o “The American Magazine”. Inventor brilhante, com mais de 1900 patentes industriais, bem no auge da Revolução Industrial, no momento em que o homem estava se aperfeiçoamento no domínio e manejo das máquinas. Seus inventos foram responsáveis por mudanças qualitativas na vida das pessoas, citando-se a lâmpada incandescente, o projetor, o fonógrafo e a câmara cinematográfica.

Mas, teria Thomas inventado uma máquina para falar com os mortos?

Em outra entrevista, no mesmo ano, para a “Scientific American”, ele disse: “Eu tenho pensado por algum tempo em uma máquina ou um aparelho que possa ser manejado por uma personalidade que tenha passado para outra existência ou esfera”.

Sabe-se que os inventores são bem caprichosos e, além disso, cautelosos em relação à divulgação de seus experimentos. Muitos deles só informam acerca de seus métodos e tentativas, quando são vitoriosos em produzir o invento. Nestes casos, apresentam rascunhos, protótipos e falam abertamente das inúmeras tentativas, mencionando inclusive os passos em falso que deram, na ânsia de resolver problemas e, por fim, serem exitosos.

Então, nunca foi encontrado nenhum artefato, protótipo, esquema ou sequer anotações deste projeto do cientista.

Vale dizer que, tanto no continente americano quanto no europeu, os fenômenos físicos, no intercâmbio mediúnico entre “vivos e mortos” tinha atraído a atenção de personalidades sérias de muitas áreas do conhecimento. O movimento espiritualista e, depois, o próprio Espiritismo colocou lado a lado a ciência lógica e mecânica e a filosofia.

Diante não só de experimentos com ectoplasma, assim como a tiptologia de objetos que se moviam e produziam ruídos, a mediunidade psicofônica e psicográfica já estava em plena atividade. Natural, assim, que homens de visão e inventivos também se interessassem por intermediar, com máquinas, esta ocorrência comunicativa. Perguntado sobre a imortalidade e a comunicabilidade dos Espíritos, o inventor, que não era adepto das ideias espíritas, mas, sim, interessado em buscar a logicidade e razoabilidade de muitas questões, ele ponderous: “Eu não afirmo que nossas personalidades passem para outra existência ou esfera” para a Scientific American. E completou: “Eu não afirmo nada porque eu não conheço nada sobre o assunto.”

Edison sempre reafirmou seu enfoque puramente científico, sobretudo motivado pelo intuito de facilitar a vida das pessoas, como nesta afirmação: “Se existe uma necessidade popular ou desejo, uma invenção capaz de preencher a necessidade ou desejo, eu acredito que se nós iremos fazer algum progresso real na investigação psíquica. Devemos fazer isso, então com aparelhos científicos e de modo científico, do mesmo modo que fazemos com a medicina, eletricidade, quimica e outras áreas”.

No decorrer das entrevistas ele vai detalhando seu objetivo e, ainda mais, se deixando conhecer em face de suas aspirações e motivações. Ele acreditava que, se existissem Espíritos, ou seja, se os mortos pudessem voltar para ter contatos palpáveis conosco, eles poderiam, assim como moveram objetos e móveis, pudessem atuar sobre as válvulas altamente sensíveis e produzir resultados como sons ou outros registros de sua existência. Então, ele ponderava que o simples murmúrio de um Espírito poderia influenciar a válvula e, ampliando-se tal ação, seria possível obter inúmeros registros da personalidade invisível, nos propósitos da investigação.

A repercussão das entrevistas com tal personalidade foi bastante notória e nas reuniões sociais se dizia que o inventor iria “caçar fantasmas”. Manifestações deste tipo, algumas jocosas, outras descrentes, são muito comuns, em todos os tempos, em relação àqueles que desconhecem ou desqualificam a fenomenologia espiritual-espírita.

Obviamente que o inventor não participou de sessões mediúnicas que já eram bastante comuns nas cercanias e, mesmo as em locais distantes, como na França e arredores, chegavam notícias da participação direta de homens, como médiuns, na produção das comunicações. Mas este distanciamento foi positivo, para o cientista, que não se deixou influenciar pelas questões ideológicas e, também, religiosas, sempre comuns quando o tema é a imortalidade da alma.

Edson declarou, por exemplo, conhecer, pela imprensa, experimentos com mesas, tabuleiros ouija e com médiuns, mas era consciente de que tais não seriam a única maneira de comunicação inter-existencial.

Entendemos que muitos dos resultados obtidos com a Transcomunicação Instrumental (TCI), nas últimas décadas e, em especial, com a “Caixa de Frank” – um rádio especialmente modificado que “varre” as sintonias AM, FM e as bandas de ondas mais curtas – invento de Frank Sumption (1953-2014), que obteve amostras “cruas” de áudios de Espíritos, formando, inclusive, palavras e em vários idiomas. Muitos acreditam que os Espíritos juntavam palavras de transmissões ocorridas para formar palavras e frases, transmitindo mensagens.

Entendo, após quase quarenta anos estudando e experimentando a mediunidade e por já ter participado de experimentos com a recepção de vozes, sob o guarda-chuva da TCI que é absolutamente imprescindível a presença de pessoas portadoras de faculdades mediúnicas ostensivas (médiuns), no recinto, para produzir qualquer fenômeno espiritual.
Do mesmo modo como, no passado, os Espíritos se valeram da mediunidade de alguém presente para produzir a tiptologia, as mesas girantes, as cestas escreventes e, depois, passaram a se valer dos corpos de seres encarnados (médiuns), a operacionalidade da utilização de equipamentos sonoros, de audiovisual ou eletrônicos, no nosso entendimento requer a presença e a ação de, pelo menos, um médium.

Voltando a Edison, por suas declarações à imprensa nota-se que ele não era adeso às ideias convencionais e religiosas sobre a vida após a morte. Ele afirmou que os corpos humanos seriam “compostos de miríade de miríades de entidades infinitesimal, cada em sua unidade de vida”, mas postulava acerca da íntima interconexão entre todas as coisas vivas: “Existem muitas indicações que nós seres humanos agimos como uma comunidade ou conjunto antes que unidades. As entidades vivem para sempre e a morte é simplesmente a partida das entidades de nossos corpos”.

O entusiasmo do empresário e inventor norte-americano, expresso em todas as suas investigações e experimentos, também alcançava a ideia desejada de imortalidade: “Eu espero que nossa personalidade sobreviva”, disse Edison. “Se tal ocorre, então meu equipamento terá alguma utilidade. Por isto eu agora estou trabalhando em um dos mais sensíveis equipamentos que eu tenha pretendido construir, e eu espero pelos resultados com grande interesse”.

Será que o mundo e o próprio Espiritismo teriam sido diferentes, se Thomas Alva Edison tivesse tido sucesso em seu intento? Envolto em um dos países mais prósperos da história contemporânea, com o prestígio de suas invenções e laureado nas academias científicas, com certeza, acaso tivesse logrado êxito em seus experimentos, estaríamos muito mais preocupados com a busca de novas respostas para as grandes questões da existência e ampliando o alcance do conhecimento espiritual para os homens envoltos em projetos, áreas e setores que alavancam as transformações físicas, materiais e sociais da civilização humana. E não há dúvidas de que o Espiritismo – embora não tornado, ainda, crença comum, não no sentido religioso, mas na acepção de ser aceitas as suas formulações e princípios, estaria influenciando o Progresso, como estimou Kardec e como predisseram as Inteligências Superiores.


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+ Marcelo Henrique