A superfície e a profundidade

Todos precisamos da superfície e do profundo, conosco mesmos, nas relações interpessoais, nas atividades, nos estudos.

Cristina Sarraf

Pensa no mar. Nos lagos e rios. Pensa na Terra.

Pensa num bolo com cobertura, numa torta, num pacote de presente, numa geladeira fechada.

Pensa nas pessoas. Pensa nos trabalhos doutrinários do Centro Espírita.

O que todos têm em comum?

Respondo para você: a superfície e a profundidade.

Mas veja que interessante: a superfície é ótima e sem ela não há profundidade. E a profundidade é ótima e sem ela não há superfície. Nenhuma das duas é melhor. Ambas são necessárias e atendem a certas necessidades das criaturas.

Todos precisamos da superfície e do profundo, conosco mesmos, nas relações interpessoais, nas atividades, nos estudos. Você pode preferir a cobertura do bolo ou o bolo em si, o pacote ou o que ele contem.

Já pensou se tudo fosse superficial ou tudo fosse profundo?

Esses são mais contrastes de que precisamos para perceber as coisas da vida e escolher melhor o que nos convem.

Vi um programa na TV, mostrando a vida no fundo do mar. Coisa fascinante! Lá na superfície não se pode imaginar… A superfície guarda essa espetacular profundidade, só alcançada por quem a busca.

Apesar de adorar o mar, e preferir essa parte mais funda, não posso chegar nela e nem desfrutar de suas belezas, se não sei nadar, se não tenho escafandro, não sei como agir lá e nem tenho recursos financeiros para adquirir isso tudo. Enquanto não me preparar e me equipar adequadamente, não adianta só querer ou me jogar no mar.

Quem filmou essa pesquisa oceanográfica, mostrou também a presença dos tubarões, das arraias e outros seres que poderiam “criar problemas” aos mergulhadores que não soubessem, e muito bem, como se comportar naquele paraíso. Lá na superfície, que agora me parece sem graça, não se corre esses riscos… aos quais, aliás, ainda não devo me expor porque não tenho treinamento adequado, específico e muito menos experiências, vivências.

Um mergulhador consciente e responsável não me levaria! Sabe que eu só criaria dificuldades… Meu lugar por hora, é a superfície, de preferência na terra e se quero ir ao profundo do oceano, eu que me prepare para isso!

Concordam comigo?

Pois é, os trabalhos espíritas das Casas Espíritas são semelhantes a esse mar.

Há que se ter atividades superficiais, necessárias e importantes, específicas a quem delas precisa, por questões pessoais, de maturação espiritual e de preparo. E há que se ter os de profundidade, importantes para aqueles que já aprenderam o necessário e o suficiente na superfície e amadureceram um tanto para poderem arcar com as responsabilidades coerentes com este estágio.

 

Não se pula etapas no processo de amadurecimento interno e intelectual, tenha-se a idade que tiver ou o tempo que for, de estudo espírita.

Ninguém vai pensar que o primeiro grau é bobagem, já estando no terceiro, porque sem aquele não poderia estar neste.

E mais: estar não é ser! Estamos na superfície, no primeiro grau, na frente da geladeira… E poderemos estar no fundo do mar, no segundo grau e com a geladeira aberta, tendo acesso ao seu conteúdo. Mas… quantas vezes você já comeu ou bebeu algo gelado demais e se deu mal ou deixou muito tempo a porta aberta e aqueceu um alimento que estragou?

Ou seja, na profundidade também há estágios e nos primeiros deles não se sabe o necessário e não se tem o domínio para lidar bem com certos detalhes.

Parodiando, no fundo, no fundo, não nos “bancamos” nas situações quando ainda somos imaturos. E descobrimos essa imaturidade ao perceber que não nos garantimos, cedemos, somos envolvidos ou nos perturbamos em certos momentos ou pela ação de certas pessoas ou Espíritos.

 

Vamos então, empreender o trabalho pessoal de fortalecimento e disciplinação, se quisermos chegar e nos manter, um pouco, na profundidade. Só depois avançaremos mais…

Antes disso, é ter paciência, perseverança e desenvolver amor por si, e pelos outros. Ou então, ficar na superfície, cujos caminhos conhecemos melhor…

Em tempo: nem os trabalhos de superfície e nem os de profundidade, nas Casas Espíritas, podem ferir o objetivo da existência desses núcleos, que é o estudo teórico e prático do Espiritismo, e muito menos ferir os Princípios do próprio Espiritismo. Porque se isso estiver acontecendo, o problema já é outro.


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+ Cristina Sarraf