Autonomia – A história jamais contada do espiritismo

Nova obra de Paulo Henrique de Figueiredo revela fatos surpreendentes sobre Allan Kardec e a história do Espiritismo

Erika Silveira

Autor de obras de sucesso como Mesmer: a Ciência Negada do Magnetismo Animal e Revolução Espírita: a Teoria Esquecida de Allan Kardec , o pesquisador e autor Paulo Henrique de Figueiredo lançou em agosto seu novo livro: “AUTONOMIA- A HISTÓRIA JAMAIS CONTADA DO ESPIRITISMO”, pela editora FEAL- Fundação Espírita André Luiz.

O livro resgata pela primeira vez vivências pessoais de Allan Kardec e a essência do pensamento espírita. O novo projeto faz parte de um amplo trabalho de recuperação de uma parte da história do Espiritismo no Brasil e no mundo antes desconhecida, apontando os desvios realizados por alguns para tentar esconder a teoria moral espírita.

Autonomia é o resultado de um profundo estudo de documentos relevantes e esclarecedores encontrados no acervo do grande pesquisador do espiritismo, Canuto Abreu e também outros pesquisadores, que se dedicaram para que hoje pudéssemos ter acesso a todo esse conhecimento.

O que aconteceu após o dia da morte de Allan Kardec com os caminhos traçados pelo Codificador?

Para entendermos melhor esse importante trabalho de resgate da história espírita, conversamos com o autor Paulo Henrique de Figueiredo. Confira nessa entrevista para o Correio Espírita.

Poderia traçar um paralelo entre essas descobertas, suas pesquisas e o novo livro?

Quando fiz toda essa pesquisa surgiu uma dúvida: Por que não se ensina essa proposta da moral autônoma no espiritismo atualmente? Em que momento ocorreu um abandono desse material que Kardec dava tanta importância? Eu fui a campo pesquisar para tentar encontrar, ai descobri coisas fantásticas, por exemplo, a grande maioria dos espíritas segundo uma estatística que Kardec fez, mais de 66% eram espiritualistas racionais, a minoria vinha da religião.

E hoje não temos noção da diferença entre o movimento espírita daquela época e o atual e eu também tinha informações que haviam textos emA Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, que tinham sido retirados, então liguei uma coisa na outra, o que será que tem nesses trechos? Será que não tocam na questão do espiritualismo racional? Como iria publicar o livro Revolução Espirita e esse assunto ainda estava em pesquisa na época, resolvi não colocar no, mas assim que passou o lançamento, passei a trabalhar na nova pesquisa. Quando fomos estudar as diferenças entre A Gênese original e a adulterada, exatamente os trechos retirados confirmavam a questão da Autonomia, entendi então que tinha alguma coisa errada, por que Kardec tiraria o que tinha de mais avançado? Eu e meu grupo chegamos a conclusão que teríamos que ir a França para levantar a documentação, e por incrível que pareça, no mesmo mês chegou a notícia do lançamento do livro da Simoni Privato. Na mesma semana que lançou me correspondi, oferecendo meus livros e pedindo os dela, ai descobri que ela conhecia e divulgava meu livro Mesmer nos países de língua espanhola. Achei o livro da Simoni absolutamente fantástico, bem embasado e decidi divulgá-lo em Português, ai comecei a publicar artigos e falar em meus programas na Rádio Boa Nova a respeito do livro dela e o assunto explodiu.

E quanto a publicação da versão original da obra A Gênese de Allan Kardec em português, da qual é o editor e o Projeto Cartas de Kardec lançado em 2018 pela Fundação Espírita André Luiz?

Quando fomos preparar a tradução original do livro A Gênese, passei a questionar se haviam mais documentos. Veio a tona um outro assunto que eram as cartas de Kardec em posse da família Canuto Abreu. Um dos diretores da FEAL conhecia o neto do Canuto, o Lian, então ligou para ele e conseguimos chegar nas cartas de Kardec que foram acompanhadas de 40.000 páginas de documentos do próprio Canuto Abreu e 18.000 obras raras de sua biblioteca. Desde então um grupo de pesquisadores tem se dedicado a esse material, uma fonte inacreditável de novas informações sobre o espiritismo. Material que se tornou o projeto Cartas de Kardec, de conhecimento público.

E o livro Autonomia aconteceu paralelamente ao trabalho do Projeto Cartas de Kardec?

O projeto Cartas de Kardec é minucioso e longo, então ao mesmo tempo resolvi me debruçar sobre os documentos do Canuto Abreu, daí veio a grande surpresa que podemos dizer que é a motivação deste livro, que sai fora do contexto das minhas pesquisas anteriores, porque em meus dois livros anteriores fui atrás da informação e agora a informação que chegou até nós, um caminho inverso.

Poderia dar mais detalhes do livro Autonomia?

Quando nos deparamos com os documentos do Canuto Abreu encontramos muitas cartas endereçadas às pessoas do futuro, ele sabia que o material dele teria que ser preservado, nada poderia ser separado, então preparou artigos, cartas e documentos para aqueles que tivessem acesso a isso no futuro entendessem o recado. É incrível, porque lendo tudo isso é como se ele estivesse lá, no Centro de Documentação e Obras Raras da FEAL, dizendo, você que está ai no futuro olha o que eu tenho a dizer, e sabendo que isso só seria conhecido do futuro, deixou toda história registrada.

Para resumir para os leitores a história, ele fazia parte do movimento espírita, logo na virada do século, há poucas décadas de Kardec para frente e teve uma desconfiança que o movimento espírita no Brasil não estava seguindo a proposta original de Kardec. Era muito estudioso da questão da religião, da ciência, filosofia e ficou espantado com as diferenças que encontrava na prática e os textos originais. Resolveu dar um passo ousado.

Primeiro se correspondeu, depois viajou à França para conversar com os pioneiros como: Gabriel Delanne, Leon Denis, Henri Sausse e médiuns que trabalharam com Kardec. Cada um com sua biblioteca, suas ideias, ele entrevistou todos e descobriu que Kardec tinha recebido dos espíritos uma previsão de que inimigos invisíveis iriam desviar o espiritismo de sua rota para tentar fazer com que o espiritismo não atingisse sua meta e que Kardec ficasse atento a isso.

E o que Kardec fez? Pessoalmente foi selecionando documentos para formar dossiês e separando isso em um armário. No livro o armário é o nosso principal personagem, esse armário inicialmente estava no instituto de educação de Kardec, depois levou para a Sociedade Parisiense e foi guardando preciosamente os documentos para contar a história do espiritismo, denunciar alguns desvios e colocar em seu devido lugar os pioneiros.

E como Canuto teve contato com esse armário?

Na França teve contato com esse armário, só que não tirou nada de lá, só anotou, preenchendo inúmeros cadernos.

O que estamos começando a descobrir agora, o Canuto já sabia naquela época, os desvios que teriam ocorrido, adulterações e relatou tudo isso, só que não tinha documentos para provar, eram coisas muito graves que estava denunciando. Depois voltou a Paris para rever os documentos e registrar essa história para que pudesse ser contada. Em meio a tudo isso teve a segunda guerra mundial e ele perdeu o contato com todos. A partir daí vai ocorrer uma saga inacreditável que envolve queima de parte dos documentos, roubo do armário pelos nazistas, tentativas de desvios, uma série de fatos que só o destino impediu que fossem destruídos, senão não saberíamos hoje dessa história.

A obra relata toda essa saga?

Sim, narra todos esses acontecimentos e como finalmente o Canuto conseguiu trazer para o Brasil esse material e depois vem a segunda surpresa, ele conta tudo para o médium Chico Xavier e ambos decidem que precisariam tornar isso público, o que vai configurar novos caminhos e esclarecimentos para o meio espírita. Canuto pondera, precisamos conversar com os espíritos e nessa conversa com o próprio Chico, os espíritos orientam que não era o momento certo para divulgar o material, pois seria apenas motivo de escândalo, mas no futuro serviria de esclarecimento. O material deveria ser preparado, traduzido, comentado, preparado arquivos para contextualizar tudo isso. E foi o que o Canuto fez durante décadas, tanto ele quanto Chico mantiveram silêncio sobre o assunto, o que espantou muito os espíritas, mas o que antes poderia parecer egoísmo e orgulho quanto a posse dos documentos, hoje se configura a realidade que era precaução em virtude da orientação dos espíritos que disseram não divulguem antes de estar tudo pronto para que vire esclarecimento.

Era isso que estava em meio ao Chico e ao Canuto e eles tiveram uma força de vontade descomunal para contar com as pessoas do futuro, porque você faz o trabalho de uma vida,deixa no papel, sabendo que a morte vai chegar, que você vai perder o contato e vai depender de outros, dos que vão receber isso no futuro e dar continuidade.

Como sentiu que o momento tinha chegado?

Não tem como não enxergar primeiro todas as profecias dos espíritos, no livro contamos várias delas e também porque no próprio documento o Canuto diz que o momento iria chegar quando tudo isso se reunisse e foi o que aconteceu, os documentos do Chico agora estão junto com os de Kardec e de Canuto, outros documentos que faltavam para contar a história chegaram também e nós não fizemos movimento nenhum. Eu posso contar o trabalho que dá você achar um simples documento raro, passei anos para conseguir um documento, portanto só pode ser providencial inúmeros deles se reunirem em um só local. São evidências, e depois o próprio conteúdo, porque já estávamos espantados com os depoimentos pessoais de Kardec. O livro traz algo que não conhecíamos, a atuação de Kardec com relação ao espiritismo na vida cotidiana e esse livro Autonomia traz uma parte disso. É tempo agora de rever, conhecer, compreender, debruçar sobre a nossa história, porque só faz alguma coisa aquele que compreende a si mesmo, e o movimento espírita precisa entender o que é o espiritismo.

Ao nos aproximarmos dos pensamentos de Kardec o que podemos extrair de novo?

O Kardec que tentamos imaginar só vendo pela grandiosidade de sua

obra é o intelectual, então ficamos imaginando que a vida do Kardec era atrás de uma mesa escrevendo apenas como um acadêmico, mas quando conhecemos as cartas pessoais, as descrições, os diálogos, a dedicação dele ao ser humano é algo impressionante. Neste livro vamos dar uma mostra significativa do relacionamento dele com os outros seres humanos. Em resumo eu poderia dizer o seguinte: Kardec tinha tanta convicção do valor do espiritismo para a transformação do mundo e dos indivíduos que cuidou dedicadamente da aplicação do espiritismo na vida das pessoas que o procuravam cheias de problemas. O incrível é que hoje quando vamos ajudar alguém temos recursos, podemos criar algumas explicações padrão e reproduzir para várias pessoas, Kardec não, ele recebia uma carta com a descrição e a resposta era especial para aquela pessoa e fez isso na vida inúmeras vezes, demonstrando que transformou o espiritismo enquanto Doutrina Espírita em Cristianismo na prática, o que é ação da prática da caridade no cotidiano.

Para finalizar, gostaria de fazer um convite ao público?

Os outros livros Mesmer e Revolução Espírita no primeiro momento eram respostas para minhas dúvidas e imaginei que fossem dúvidas também do leitor, esse livro Autonomia é diferente, é um presente, porque é o acesso ao conhecimento de todos esses fatos novos, toda essa vivência dos pioneiros que começam lá com Kardec passando por Léon Denis, Gabriel Delanne, depois chega ao Brasil com Canuto, Chico Xavier, mas recentemente, Eduardo Carvalho Monteiro, um pesquisador que se dedicou muito para que isso fosse possível, o Lian, neto do Canuto, o filho de Chico Xavier, Eurípedes Reis. Você vê pessoas que são contemporâneas e vamos ainda ao passado desde Kardec. Então todos esses tinham algo a nos dizer. Esse livro não é meu, sou apenas um porta voz das vozes do passado que querem dizer aos espíritas do presente um olhar do futuro.

Publicado originalmente: Correio Espírita

Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião da Casa Espírita Nova Era.


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