Bem-aventurados os que são Misericordiosos

Por Rose Mary Grebe

Humberto de Campos, Espírito, nos conta no livro Boa Nova que depois de difundidas as primeiras pregações de Jesus, os enfermos e derrotados da sorte, enchiam as ruas em turbas ansiosas.

Vinham das aldeias importantes do lago da Galiléia como Magdala, Corazim, Betsaida, Dalmanuta, e enchiam as ruas de Cafarnaum, buscando o mestre. Conta-nos também que Levi, um dos que Jesus convidara a seguí-lo, que era cobrador de impostos e tinha uma boa situação financeira, foi procurado por um grupo de infelizes que queriam saber mais do Evangelho de Jesus de modo a trabalharem com o Mestre.

Levi achou muito estranho e disse aos infortunados que o novo reino congregaria os corações sinceros e de boa vontade, que desejassem irmanar-se como filhos de Deus. Mas que poderiam fazer eles na situação em que se encontravam? E foi apontando as desgraças daqueles que conhecia e com isso justificando a não possibilidade deles neste trabalho. Os infelizes, cabisbaixos e humilhados, somente então chegaram a reconhecer suas deficiências. Foram tomados de uma dor sem limites.

Afinal Jesus havia falado tão diferente, com palavras tão carinhosas dissera que seu amor viera buscar os que se encontrassem em tristeza e angústia. O grupo retirou-se desalentado. Mas, afinal, Jesus pregaria no monte, quem sabe ministraria os ensinamentos de que necessitavam…!

Logo em seguida, Jesus comparece à casa de Levi e este lhe relata o ocorrido. Jesus, com profundo desvelo, bate-lhe no ombro e diz que precisamos aceitar a colaboração dos vencidos do mundo. Se o Evangelho é a Boa Nova, como não há de ser a mensagem Divina para os tristes e deserdados na imensa família humana? Os vencedores da Terra não necessitam de boas notícias. E Jesus sobe o monte e uma grande multidão de oprimidos o aguarda. Deixando perceber que se dirigia aos vencidos e sofredores do mundo e como que esclarecendo o espírito de Levi, pela primeira vez pregou as Bem-Aventuranças.

Vendo a multidão, Jesus subiu a um monte, sentou-se e os discípulos o rodearam. Pôs-se então a lhes pregar, dizendo:

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados os mansos porque possuirão a Terra.

Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

Bem aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os de coração puro, porque verão a Deus.

Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados sereis quando vos cobrirem de maldições , vos perseguirem e, mentindo, disserem de vós todo o mal por minha causa. Rejubilai então e exultai, porque grande recompensa vos estará reservada nos céus; visto que assim também perseguiram os profetas, que existiram antes de vós.” (Mt V. v 1-12)

Pessoas estudiosas da nossa Doutrina e de outras nos dizem que o Sermão da Montanha ou Sermão do Monte seria a nossa Carta Magna. Se todos os escritos se houvessem perdido, este sermão bastaria, para nos mostrar quem foi Jesus, seria o nosso Código de Moral.

No Sermão da Montanha, além de todos os ensinamentos, temos implícita a lei de causa e efeito, a cada bem-aventurança segue uma conseqüência para a mesma, mostrando, assim, a justiça e o amor de Deus.

Hoje refletiremos sobre a quinta bem-aventurança.

O que seria ser misericordioso?

Misericórdia: 1. sentimento de dor e solidariedade com relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça, acompanhado do desejo de ajudar ou salvar essa pessoa; compaixão, piedade.

2. ato concreto de manifestação desse sentimento, como o perdão; indulgência; clemência.

Ser misericordioso é compadecer-se das misérias alheias, materiais e espirituais.

No nosso estágio evolutivo, já entendemos as misérias materiais, quando vemos as catástrofes ocasionadas pelos furacões, enchentes, incêndios, terremotos, erupção de vulcão. Nós entendemos, nos apiedamos quando vemos as estatísticas da fome, do desemprego, falta de moradia, saúde, principalmente quando caminhamos na nossa Rua XV e vemos as filas que se formam para o atendimento no INSS, filas estas onde observamos: mulheres, grávidas ou não, pessoas jovens, idosas, não sabemos por quanto tempo ali esperam. O que sabemos é que descemos e subimos a rua e a fila continua do mesmo jeito.

Ser misericordioso é condoer-se destas e de muitas outras misérias que vemos no nosso dia-a-dia. Mas a misericórdia, segundo o dicionário e o entendimento de nossa Doutrina, não é passiva, ela supõe uma ação.

Rodolfo Calligaris, no livro O Sermão da Montanha nos diz:

“(…) É apiedar-se das crianças órfãs ou abandonadas, interessando-se pela sua sorte e contribuindo, como e quanto seja possível, para que tenham um lar que as eduque e prepare para serem úteis a si mesmas e à sociedade, assim como olhamos os velhinhos desamparados, oferecendo-lhes um abrigo onde possam aguardar, serenamente, que a morte venha a libertá-los das vicissitudes terrenas.” ( p.27/28)

Ele ainda fala nas doenças que flagelam a humanidade. Nos dias atuais temos câncer, AIDS, depressão, acidentes vasculares, entre outras, que também devem despertar em nós sentimentos de piedade. Mas uma piedade que não seja a do choro e sim da ação no bem.

“Mas não há como resolvermos os problemas do mundo”! nós sempre dizemos isto. Não é preciso que resolvamos tudo, mas que façamos aquilo que está ao nosso alcance. Nós já sabemos o quanto a oração ajuda, quanto de benefícios traz uma palavra, um abraço, uma visita. Façamos, então, a nossa parte, aquilo que nos é possível.

Já temos o conhecimento de que todas as ações nossas resultarão em uma reação. O próprio Sermão da Montanha apresenta isto de forma clara. Então, deixemos de lado as nossas desculpas :

– Não tenho tempo, Não sou capaz,
–  Não gosto de ver tristeza,
– Vou fazer quando me aposentar,
–  Vou deixar para a próxima encarnação.

Se eu faço alguma coisa, outro também, mais outro, acaba acontecendo uma mudança, que progredirá. Assim mudaremos o planeta. É preciso começar. Não importa quem vai me seguir, eu devo fazer a minha parte.

Mas além das misérias físicas, temos as morais, caracterizadas pela imperfeição humana, talvez as mais difíceis de agirmos com misericórdia.

Não percebemos as nossas imperfeições: temos a grande facilidade de nos desculparmos: nosso temperamento é assim, temos que cobrar porque também somos cobrados, nossa sinceridade em primeiro lugar, e por aí afora.

Percebemos as imperfeições alheias: geralmente tudo o que desculpamos em nós ou nos nossos, conseguimos perceber como imperfeição nos outros.

Não nos perdoamos: Muitas vezes percebemos nossas limitações, mas ficamos remoendo, gerando culpa. Mas não mudamos a situação, que seria a de nos perdoarmos, seguindo em frente com novas atitudes e ressarcimento daquilo que fosse possível.

Não perdoamos o outro: se não sabemos nos perdoar, dificilmente conseguiremos ter essa atitude para com o nosso próximo. Nos detemos em julgamentos.

E os Espíritos, através de Kardec em o ESE, nos dizem que a misericórdia é o complemento da brandura, porquanto aquele que não for misericordioso não poderá ser brando e pacífico. Ainda nos dizem que ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas.

Há dois modos de se praticar o perdão:

– Um grande, nobre, generoso, sem pensamento oculto, evita ferir o amor-próprio e a suscetibilidade do adversário, ainda quando este último nenhuma justificativa possa ter.

– Outro em que o ofendido impõe condições humilhantes e lhe faz sentir o peso de um perdão que irrita em vez de acalmar. Se estende a mão ao ofensor, não o faz com benevolência, mas com ostentação afim de poder dizer a todos: vede como sou generoso. É impossível uma reconciliação sincera nestas condições. Não há generosidade, mas orgulho.

Os misericordiosos alcançarão misericórdia, disse Jesus.

Aquilo que fizermos aos outros, receberemos, essa é a lei. Sabendo que ainda somos Espíritos em seu começo evolutivo, muito precisamos da misericórdia alheia, daí termos que ser muito misericordiosos.

E encerrando a nossa historinha… Quando Jesus terminou, algumas estrelas já brilhavam. Levi sentiu uma emoção diferente, compreendera a lição do Mestre. Observou as filas que se retiravam e entre as pessoas estava o grupo que o procurara, que saia abraçado, com uma expressão de ventura. Aproximou-se dele e os saudou. No dia imediato abriu as portas de sua casa a todos os convivas daquele dia memorável

Jesus participou da festa, partiu o pão e se alegrou com eles. E quando Levi abraçou o aleijado, com a sinceridade de sua alma fiel, o Mestre o contemplou enternecido e disse:

– Levi, meu coração se rejubila hoje contigo, porque são também bem-aventurados todos os que ouvem e compreendem a palavra de Deus.!…
(Boa Nova p. 74 a 80 – Resumido)

BIBLIOGRAFIA

1. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 110 ed., Brasília: FEB, 1994.
2. CALLIGARIS, Rodolfo. O Sermão da Montanha. 9 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994.
3. XAVIER, Francisco Candido. Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos. 16 ed. Rio de Janeiro: FEB,1985.

4. VINÍCIUS (Pedro Camargo). Em Busca do Mestre. 3 ed., São Paulo: Edições FEESP, 1988

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