Bonachão e piadista, Francesco. Como Jesus!

A alegria é um dos traços dos espíritos (encarnados) que estão conscientes da finalidade de cada existência: o progresso.

Marcelo Henrique

Correu mundo afora uma gravação, na praça do Vaticano, em que um turista brasileiro aborda o Cardeal Bergoglio e lhe pede preces pelos brasileiros.

Jocosamente, o pontífice diz: – Vocês não têm salvação! É muita cachaça e pouca oração! E os dois gargalham, afetuosamente, seguindo-se o gesto de bênção do papa ao esperançoso homem.

Mesmo não sendo uma “personalidade espírita” nem estando vinculada ao Espiritismo, resolvemos utilizar este fato como mote para nosso artigo semanal. A referência ao nosso país, também é um elemento que justifica estarmos escrevendo.

Afinal de contas, espíritas ou não, muitos comentaram a passagem e, é claro, como ocorre em muitas destas situações, julgamentos foram proferidos.

Um número significativo de opiniões, nas redes sociais, tratou a questão como um possível desrespeito de Sua Santidade em relação aos brasileiros. Pura bobagem!

Quem é próximo do cardeal Jorge Bergoglio sabe de sua jocosidade, a forma bem-humorada com que ele conduz o dia a dia e como ele busca na forma descolada e com anedotas, tornar os ambientes menos “pesados”.

Sua primeira encíclica, aliás, já dava o tom de seu pontificado. Ela se chamou “Alegria do Evangelho”, um verdadeiro chamado dos cristãos à alegria, como um “santo” remédio para enfrentar as dificuldades existenciais. Para os espíritas, o contexto das provas e expiações, bem sabemos.

 

A alegria é um dos traços dos espíritos (encarnados) que estão conscientes da finalidade de cada existência: o progresso. Procuram, mesmo diante de dissabores ou infortúnios, encontrar motivos para sorrir, dentro da fé e da esperança que devem animar os corações das almas no curso do progresso.

A propósito, Kardec perguntou aos Instrutores Invisíveis se os desencarnados estariam interessados em nossas prosperidades ou desgraças. E eles lhe responderam que os bons Espíritos se sentem ditosos em relação às nossas alegrias. Este ensinamento está no item 486, de “O livro dos Espíritos”, uma prova inconteste de que, também espiritualmente, a alegria é contagiante, reforçando, também, a expressão genuinamente espírita de que os laços de afinidade e afeição se mantém após a morte.

 

Também na “Revista Espírita”, edição de março de 1869, um belíssimo texto do Maestro Rossini explica-nos que a harmonia, a felicidade ou a alegria são sentimentos e, por isso, inexplicáveis. Só compreende, o homem, quando os possui e não se possui algo senão quando se adquiriu.

Daí, para quem estuda o Espiritismo e para quem já compreende a finalidade da existência corpórea, não se sentir ofendido com a alegria “dos outros”, nem levar ao pé da letra, com sisudez e contrariedade, as atitudes jocosas que estão ao nosso derredor.

Fico pensando, então, no próprio Mestre Jesus, apesar de, nos textos evangélicos, sabermos tão pouco sobre este homem que revolucionou a história da Humanidade. Olhando para as passagens contidas nos evangelhos, podemos perceber um homem que se envolvia com seu povo e sua terra e, portanto, era um homem no mundo, sem ser do mundo.

Isto é fundamental para perceber que, não sendo vinculado às condições da materialidade, nenhum Espírito sofre indefinidamente nem pode ser considerado como a última das criaturas. Do contrário, imperfeitos, mas caminhando na senda do progresso, possuímos virtudes e defeitos, acertos e erros, e isto enriquece cada capítulo da nossa própria história.

Imagino um Jesus sorridente, alegre em muitos momentos, gargalhando em situações jocosas e, sim, fazendo piada de algumas ocorrências, para “desanuviar o ambiente”. Aqueles que buscam situar o Rabi numa posição infinitamente distante de nós outros, os “seres em caminhada”, aposta num personagem mítico e místico, um agênere, um ser que não se permitiu passar pelas situações da vida, tanto as favoráveis quanto as desfavoráveis, para lograr proveito com tais experiências.

 

Este, convenhamos, não é o Jesus-Espírita. Porque a ideia espírita de Jesus deve apontar para um irmão mais velho – na progressividade – que nos abraça, nos envolve, nos orienta, que se entristece nas situações difíceis, mas se alegra – e muito – nas situações que mereçam, como disse o Espírito Superior a Kardec, a felicidade e a alegria são sentimentos, sendo entendidos, por nós, quando os possuímos, isto é, os exercitamos, após termos adquiridos os mesmos.

Voltando a Francesco, o que muitos não viram ou não foi noticiado, é que, ao final daquele colóquio com um católico brasileiro que pedia orações pelo Brasil, após a piada, o cardeal argentino arrematou: “eu rezo sempre pelo Brasil”.

A alegria do papa nos remete a um coração puro, aquele que não enxerga maldade e tem esperança de dias melhores.

Ademais, olhemos para nós mesmos e respondamos: com quem é que nós, de fato, podemos fazer piada, chacota ou pilhéria? Quem é que pode brincar conosco? Aqueles que nos são PRÓXIMOS, aqueles a quem amamos, estimamos, valorizamos, entendemos… O afeto é essencial!

 

Neste sentido, a brincadeira de Francesco foi extremamente acolhedora, um gesto de sensibilidade, para tornar próximo alguém que, provavelmente, estava vendo pela vez primeira. Imagine a lembrança boa que aquele brasileiro levou para o restante de sua existência… E a marca que impregnou naquele Espírito. Sim, a situação do nosso país, como a de praticamente todo o mundo está bem delicada, diante da pandemia que nos assola. Mas não devemos esmorecer! O papa, com tal gesto, fez o brasileiro se sentir muito mais que um simples “alguém na multidão”…

Publicado originalmente:
Centro Espírita Amigos do Bem


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