Com Kardec, estudo e Apometria, Casa Caminho chega aos 15 anos

Entrevista a Manoel Fernandes Neto

O Centro Espírita Caminho, que completa 15 anos em 2015,  é uma simpática e aconchegante casa espírita localizada no município de Gaspar, SC. Como tantas outras sociedades dedicadas ao estudo e divulgação da Doutrina dos Espíritos, a instituição mantém uma agenda de palestras, atendimentos fraternos, terapias holísticas, estudo de livros, cursos específicos e pesquisas da mediunidade, com destaque para atendimento com Apometria que, como outras práticas, não está inserida na codificação espírita, mas são utilizadas como tratamento mediúnico em diversas instituições brasileiras que seguem a codificação espírita.

Nesta entrevista, Paulo Bedusch, um dos fundadores e dirigente da Caminho, fala com franqueza sobre o trabalho realizado, o atendimento às pessoas e suas expectativas de futuro, reafirmando o caráter Kardecista da Casa Espírita Caminho.

“Os espíritos benfeitores estão sempre ao lado daqueles que são bons e puros, ou pelo menos são sinceros nas suas lutas. Aqueles que só falam e julgam o tempo todo normalmente são os que menos fazem em prol dos outros”, afirma Paulo.

Leia a entrevista:

Podemos lembrar que o livro “Nosso Lar”, que deu origem ao filme, foi rejeitado no início, quando foi lançado. Tudo o que é novo tem a tendência de ser rejeitado. A Apometria não foge desses dois monstros devoradores: a ignorância e o personalismo.

Paulo Bedusch

Você pode falar um um pouco sobre o trabalho de atendimento, de estudo, social e doutrinário de forma geral no centro Espírita Caminho?

Paulo Bedusch – Como você sabe, temos um trabalho marcante com Apometria, que atende dezenas de pessoas a cada semana. No campo dos sentimentos, nossa casa tem um estudo sensacional chamado “Oficina dos Sentimentos” que visa trazer a doutrina para dentro do coração através do autoconhecimento. Achamos que se a criatura não se conhecer, não pode se amar. E isso traz consequências graves para ela e reflete nos relacionamentos. É um processo difícil – não é para uma só encarnação.

Também temos cursos de mediunidade, do “Livro dos Espíritos”, do Evangelho, grupo de jovens e evangelização infantil, além das palestras públicas todas as terças-feiras à noite. Nossa casa está aberta praticamente todos os dias da semana, somente no domingo está fechada.

Procuramos dar oportunidades a todos que nos procuram, oferecendo estudos e boa convivência dentro da casa. Isso torna as pessoas mais alegres e seguras, outras engajam-se nos trabalhos que temos, e outras vão embora, preferindo deixar a vida como está. É opção de cada um e devemos respeitar.

Também fazemos distribuição de roupas e alimentos quando arrecadamos.

Como está sendo a experiência com o atendimento de Apometria?

Paulo Bedusch  – A experiência com a Apometria tem sido maravilhosa. Esta técnica de desobsessão tem nos mostrado o mundo espiritual de forma clara e ao mesmo tempo complexa. Nós, encarnados, temos pouca noção deste mundo espiritual e das vivências que já tivemos em datas pretéritas. E os resultados extremamente positivos que alcançamos proporcionam alegria em toda a equipe que trabalha com Apometria.

Se todos estudassem essa técnica maravilhosa, tenho certeza que a utilizariam, mesmo porque muitas casas não conseguem atender obsessões complexas. Normalmente, quando isso ocorre, aludem à imperfeição moral do obsidiado, caracterizando a falta de caridade.

Apometria é atendimento através do desdobramento dos médiuns e/ou do paciente. Possibilita buscar a causa real das dificuldades que o paciente está vivenciando. Sabemos que tudo que sofremos hoje se caracteriza por colheita de uma semeadura infeliz, muitas vezes a complexidade é grande e não se resolve com conversa fraterna, é preciso técnica e firmeza. Você já imaginou recuperar um traficante condenado, por exemplo, com 10 minutos de conversa fraterna? Se a Doutrina Espírita é a doutrina da lógica, alguma coisa está errada com a prática predominante nos trabalhos mediúnicos.

Na sua opinião, por que setores do movimento espírita não aceitam a Apometria, chegando, em alguns casos, ao ponto de estigmatizá-la?

Paulo Bedusch  – Isso se deve a várias razões, mas acredito que as principais são a falta de conhecimento e estudo, ou seja, a própria ignorância no assunto de ordem científica e também a etiologia espiritual que caracteriza este movimento. Quem foram os espíritas em vidas passadas? O personalismo, em muitos casos, campeia em nosso movimento espírita, e isso vem de muitos anos. O próprio Chico se queixava muito do “fogo amigo” dos espíritas. A propósito, podemos lembrar que o livro “Nosso Lar”, que deu origem ao filme, foi rejeitado no início, quando foi lançado. Tudo o que é novo tem a tendência de ser rejeitado. A Apometria não foge desses dois monstros devoradores: a ignorância e o personalismo.

Claro que a Doutrina tem seus postulados que devem ser assimilados pelos seus profitentes, mas devemos sempre respeitar aqueles que não pensam como nós..

Paulo Bedusch

A Doutrina Espírita é progressista e não podemos ter a pretensão de que o tempo parou depois da publicação das cinco obras do Pentateuco Kardequiano. Como a própria espiritualidade afirmou que Kardec voltaria no início do século passado para concluir a obra – e acredito que voltou –, pouca gente se atreve a reconhecer em Chico Xavier a reencarnação de Kardec. Talvez algum psicanalista pudesse explicar o motivo de muita gente não aceitar este fato, que no meu entender é absolutamente lógico.

Já que tocamos neste assunto, o que mais você destaca que não está na codificação e é utilizado pelo movimento espírita?

Paulo Bedusch – O próprio passe não está na codificação e é amplamente utilizado pelo movimento espírita. Mas quando se fala em aprimoramento do passe, isto já se torna outro problema. Não aceitam o passe magnético com movimentos dispersivos, embora já esteja confirmado o poder de restaurar equilíbrio às pessoas. Falam da “pureza doutrinária”.

Na sua opinião, o que significa o termo “pureza doutrinária”?

Pura hipocrisia. Normalmente quem enche a boca para alardear tal conceito se faz portador de sua própria arrogância. Não existe pureza doutrinária, existe a pureza de coração. Não percebem que não são os métodos que importam, e sim o que têm no coração. Os espíritos benfeitores estão sempre ao lado daqueles que são bons e puros, ou pelo menos são sinceros nas suas lutas. Aqueles que só falam e julgam o tempo todo, normalmente são os que menos fazem em prol dos outros. Claro que a Doutrina tem seus postulados que devem ser assimilados pelos seus profitentes, mas devemos sempre respeitar aqueles que não pensam como nós.

A rigor, falta ao movimento espírita mais amor. É necessário uma maior abertura de mentalidade ao movimento espírita, pois estudar e descobrir novos métodos não deveria ser rejeitado, e sim estudado e praticado; caso não se vejam resultados positivos, então que se rejeite.

Acho estranho as casas que não fazem experiências, se o próprio Kardec evoluiu a Doutrina fazendo exatamente experiências, sempre com muita responsabilidade e discernimento, obviamente.

A Casa Espírita Caminho não é filiada à FEB. Pretende ser um dia? O que você pensa sobre isso?

Paulo Bedusch – Isso não nos preocupa. O importante é a firmeza dos trabalhos consistentes e dentro do espiritismo. Somos Kardecistas, mas não vejo hoje a Federação Espírita Catarinense em condições de agregar qualquer benefício à nossa casa. Tem mais um fato: nossa casa tem cerca de 15 anos de existência e nunca fomos procurados pela federação. Já respondemos questionários que nos remetem mas nunca obtivemos retorno. No entando, respeitamos o trabalho que fazem na FEC e esperamos que prossigam na sua tarefa.

A Doutrina não pertence a ninguém, ninguém conhece com profundidade o mundo espiritual. Jesus curou com poeira e saliva.

Paulo Bedusch

Na nossa casa enxergamos o movimento espírita com um excessivo institucionalismo, e isso asfixia o amor entre os espíritas e as casas; por essa razão fugimos ao excesso de formalismo; preferimos a afetividade à autoridade.

O que você acha que ainda não foi compreendido da Doutrina Espírita codificada por Kardec?

Paulo Bedusch  – Ah, sem dúvida que os espíritas buscam o conhecimento antes que o amor. A Doutrina só será compreendida quando praticada com amor e lealdade a Jesus. Somos todos uma família e não devemos estigmatizar ninguém. Devemos respeitar todos dentro da casa espírita e fora dela também. Sem o amor a vida não tem sentido algum. Não podemos colocar Kardec na frente do Cristo, pois antes de sermos espíritas somos cristãos. Acho que o amor é uma busca que deveria estar dentro das práticas das casas espíritas, mas hoje vemos praticamente só instrução dos postulados espíritas como se somente isso modificasse alguém.

Quais são os planos para o futuro do Centro Espírita Caminho?

Paulo Bedusch – Continuar trabalhando e pedir ao Mestre Jesus que nos inspire a continuar lutando com poucos recursos, mesmo isolados e muitas vezes discriminados. Felizmente sempre temos amigos que nos ajudam na parte doutrinária nas palestras. A Doutrina não pertence a ninguém, ninguém conhece com profundidade o mundo espiritual. Jesus curou com poeira e saliva. Imagine se nós tivéssemos essa prática? Seriamos taxados de obsidiados.

Mas acredito nas pessoas e acho que muitos espíritas devem aprender com os ensinamentos do próprio Kardec quando afirmou que o mundo só vai melhorar quando a educação for mais importante que a instrução. Por educação Kardec se referia justamente ao campo dos sentimentos, ainda uma região desconhecida de nós todos e a ser amplamente explorada buscando a luz do Cristo.
Na parte material, pretendemos construir (ampliar), para poder atender mais pessoas, formar mais equipes de trabalho.


Palavra do editor

Bom senso e livre pensar

Manoel Fernandes Neto, editor do Portal Nova Era


O coração aberto de Paulo Bedusch reflete a alegria que sempre encontro na Casa Caminho cada vez que tenho a honra de estar na instituição proferindo palestras. Outros integrantes da S.E. Nova Era também palestram na casa.

A franqueza, o sorriso, o amor pelo Espiritismo são uma constante em todos os trabalhadores da Caminho, que reverberam satisfação e alegria por estar na seara da Doutrina e do Cristo.

Utilizar estudo e prática de técnicas de terapia, espiritual ou emocional – como Apometria –, analisada dentro do arcabouço da doutrina, é uma constante desde Kardec. São inúmeros os procedimentos adotados na antiga Sociedade de Estudos Psicológicos, de Lion, na França, e retratados nas edições mensais da Revista Espírita. Só não sabe quem não estudou.

Ficar repetindo que isso pode falar, ou aquilo não pode abordar e adotar, é ingênuo e não produtivo para uma ciência aberta como a Espírita.

Citar Gandhi nas palestras espíritas é Doutrinário? Incluir uma citação de um Papa faz parte da Doutrina? E cursos sobre Física Quântica? A lista é enorme.

O importante mesmo não são as regras impostas, mas ter o Espiritismo norteando as pesquisas e o livre pensar, dentro do bom senso e da coerência. Ou como disse Paulo na entrevista: “Jesus curou com poeira e saliva. Imagine se nós tivéssemos essa prática?”


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