Corrupção entre nós, espíritas.

Neste 9 de dezembro,  dia internacional de combate à corrupção, vamos fazer uma reflexão para dentro das nossas casas.

Marcelo Henrique

Foi em 2003, que a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu a data de 9 de dezembro como o dia internacional de combate à corrupção, tendo, diversos países em Mérida (México) assinado uma Convenção internacional a respeito.

Neste ano (2021), o lema é “Seu direito, seu desafio: Diga não à corrupção”.

Quando se fala em corrupção, muitos pensam que é uma ocorrência que diz respeito, apenas, a poderes e órgãos públicos, envolvendo pessoas que ocupam cargos, funções ou atividades nos entes estatais ou que, em órgãos privados, celebram algum tipo de negócio ou possuem algum interesse que é tutelado pelo Estado.

Esquecem-se, os que pensam assim, que a corrupção é um fenômeno decorrente da ação/omissão humanas, provocado, intencional, desejado e concretizado (ainda que, às vezes, seja apenas fruto de uma tentativa não concretizada, caso se descubra a tempo, em investigações e ações policiais ou judiciais, ou, ainda, que algum dos envolvidos rejeite a proposta criminosa). Seu âmbito também pode alcançar a vida privada, entre pessoas ou entre instituições, voltada a obter (auferir) algum benefício (não necessariamente financeiro), em uma relação interpessoal.

Para que haja a corrupção é preciso, portanto, mais de um agente (pessoa) envolvida, compreendendo aquele que promete a vantagem e o que a recebe, sendo que a ação corruptiva pode ter origem em quem deseja obter algum benefício e oferece a outrem uma promessa, como o que visa receber algo e oferece a oportunidade a outro, para que este a beneficie.

Deste modo, corromper e ser corrompido é circunstância que envolve dois vetores – o de dar e o de receber – alcançando o contingente de Espíritos que estejam encarnados neste Planeta e qualquer cenário onde haja relações humanas. Por isto, os ambientes espíritas também podem ser locais em que grassa a corrupção ou em que, por determinada atitude, alguém se beneficie de algo, por finalidade ilícita.

Um exemplo simples é o do atendimento que as instituições espíritas prestam – espiritualmente falando, embora possamos colocar neste “leque” também as circunstâncias de materialidade, como a oferta de bens (remédios, donativos, roupas, sapatos, livros e outros). Quando se desrespeita a ordem de necessidade ou de entrada – a “fila” – tem-se um ato de corrupção.

Outro segmento passível de ser palco para a corrupção é aquele relacionado às eleições para a diretoria de determinada agremiação espírita. Em muitos casos, existem disputas entre chapas concorrentes, pelo “voto” de confiança dos associados. Neste segmento, as “promessas” para determinados “eleitores” configura, igualmente, corrupção, porque desequilibra a balança de escolha, que deveria se pautar, apenas e tão-somente, em relação à avaliação da personalidade dos membros da chapa e suas propostas (divulgadas e registradas).

Nas últimas décadas, ainda, tem surgido um outro tipo de corrupção, igualmente lamentável, nos chamados ambientes espíritas. E isto envolve as instituições em geral que possuem determinados membros ou o patrocínio, por parte de dada entidade ou grupo espírita, a pessoas para a “prestação de um determinado serviço”. Falamos, em específico, das comunicações mediúnicas e, neste contexto, as cartas de entes queridos desencarnados.

Pode-se dizer que se formou uma verdadeira “indústria de psicografias”, com grupos patrocinando pretensos médiuns que receberiam comunicações voltadas àquelas pessoas que procuram instituições espíritas para receber notícias dos que partiram deste mundo. E o desespero pela perda do ente querido é tanto que, além de buscarem nos centros espíritas, também o fazem por meio eletrônico (virtual) em grupos das redes sociais ou por meio dos sites das instituições.

E, onde há procura, há oferta. Lei de mercado, portanto. Há “médiuns” porque há os que querem o “serviço”. E há o “serviço” porque surgem “médiuns” para prestar o mesmo. Locupletam-se, portanto.

Evidentemente que há médiuns reais e sérios. O nosso querido Chico Xavier foi historicamente reconhecido por receber mensagens de desencarnados, dirigidas a seus familiares e amigos mais próximos. Mas, com uma característica marcante: a espontaneidade. Todas as semanas, a instituição em que o médium mineiro atuava recebia caravanas de pessoas de todo o país e do exterior. Nos grupos e excursões, haviam, evidentemente, muitos que desejavam – de todo o coração e Espírito – saber do “paradeiro” de seus mais caros. Mas o Chico nada sabia disso. Sentava-se, proferia as suas falas sobre o Evangelho e, depois, concentrado, passava a psicografar, sem um “destinatário” previamente escolhido. Sua mediunidade, dinâmica e prodigiosa, era espontânea e, em muitos casos, vários dos presentes eram agraciados com as mensagens a eles (nominalmente) direcionadas. Hoje em dia, há médiuns similares, que, no instante do “transe mediúnico” e quase sempre inconsciente, não sabem para quem a mensagem se dirige, até que ela seja concluída, e nunca tiveram qualquer contato prévio com os destinatários.

 

Entretanto, e isto está sendo inclusive objeto de investigação dos entes policiais e judiciais federais brasileiros, há um grupo de “médiuns” que possui um aparato de apoio grandioso, com vários “funcionários” que vasculham as redes sociais dos “interessados em receber mensagens mediúnicas” anotando informações “valiosas” para buscar dar uma aparência de verdade e fidedignidade à comunicação. Ou seja, com base nas próprias informações dadas pelo saudoso parente, em recordação aos momentos vividos, cita-se um apelido, um animal de estimação, o nome de outros parentes, o local onde residiu ou os lugares preferidos, assim como hobbies, atividades ou gostos pessoais. Prato cheio, assim, para os fraudadores e corruptos, que visam atrair a simpatia e auferir algum tipo de vantagem.

É necessário salientar que não é necessário que haja dinheiro ou bens (presentes e similares) envolvido. A “fama”, a “divulgação” do médium e a possibilidade de “venda casada” (oferecimento de livros ou similares) já caracterizam, por si só, a corrupção e a falsidade ideológica de quem a realiza ou patrocina.

Lembremos, por fim, que nada disto é novidade. Jesus, a seu tempo, já havia alertado para os “falsos profetas”, nome dado à mediunidade daquele tempo. O dom de profetizar também incluía a possibilidade da comunicação com pessoas desencarnadas e o fornecimento de informações de caráter pessoal, em todos os tempos.

Assim sendo, o espírita sensato, estudioso das obras de Kardec, cônscio de suas responsabilidades e dentro da chamada ética espiritual-espírita deve, de pronto, rechaçar toda e qualquer atitude de corrupção em nosso meio, sobretudo combater e denunciar aos órgãos competentes a existência destes falsos médiuns que exploram a fé e a emoção alheia. E, ainda, ao conhecer situações e personagens deste “meio”, divulgar e esclarecer todos os que possam vir a se interessar por este “comércio da fé”.

Por fim, e em sede de mediunidade, lembremos sempre da advertência fraternal do homem de Nazaré: “será muito cobrado daquele a quem muito for dado”.


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+ Marcelo Henrique