Criticar não é julgar, espíritas!

“É somente por extensão que a palavra criticar se tornou sinônima de censurar; em sua acepção própria e segundo a etimologia, ela significa julgar, apreciar. A crítica pode, pois, ser aprobativa ou desaprobativa.

A nossa atenção é sempre chamada sobre aquilo que vemos atacado; há muita gente que quer ver os prós e os contras, e a crítica faz aparecer a verdade, mesmo aos olhos daqueles que não a procuravam aí; é assim que muitas vezes, sem querer, se faz reclamo do que se quer combater”

(Allan Kardec. “O Que é o Espiritismo”).

Nessas quase quatro décadas, minhas, em ambiências espíritas, a par de não existir uma única visão sobre o Espiritismo, já que cada um, conforme a própria diretriz apresentada por Kardec, é livre para formar suas próprias convicções em relação aos preceitos espíritas, percebe-se alguns comportamentos e posturas que nada têm a ver com a proposta contida nos textos originais, muitos dos quais sugestivos e prescritivos – mas não impositivos – para as chamadas PRÁTICAS espiritistas.

Se há um traço característico no trabalho do Codificador, este é o da CRÍTICA. Ainda sem ter sido apresentado ao fenômeno espírita (mediunidade, intercâmbio entre “vivos” e “mortos”), o Professor Rivail já exercia sua criticidade em todas as realidades e cenários em que convivia. Na academia científica, no seu ofício de professor, nas agremiações sociais e entre amigos e familiares. E, quando ouviu falar, pela vez primeira, das manifestações físicas que tinham se tornado comuns na Europa e na América do Norte, exerceu o juízo crítico para dizer que só acreditaria se lhe provassem que os objetos que se moviam e respondiam a questionamentos humanos, tinham nervos e cérebro.

Depois, já ambientado com a natureza dos fenômenos, afastando, de pronto, o componente “sobrenatural” que sempre foi a explicação das liturgias religiosas para certos “dons” e “ocorrências”, criticou aqueles que o utilizavam como divertimento e lazer, ou para a prestidigitação e a ilusão dos circunstantes, afastando, pela crítica, o caráter frívolo de certas manifestações.

Um pouco além, considerando que era possível entabular diálogos sequenciais e lógico-racionais com tais Inteligências Invisíveis, procurou perquirir aqueles que frequentemente se manifestavam nas reuniões, CRITICANDO os resultados, na forma de seleção de conteúdos que, por um lado, eram consentâneos e concordante com os princípios da Doutrina nascente e, de outro, afastando as comunicações que eram apócrifas, porque apresentavam adereços, adornos e elementos discordantes e dissonantes, muito embora recepcionados por médiuns sérios e sob assinaturas ilustres ou memoráveis.

 

Não é demasiado lembrar que uma outra rotina de procedimentos, paralela e complementar, mas muito válida e estrutural, na atividade de composição das obras espíritas, da parte de Kardec, se deu em relação a um sem-número de documentos que ele foi recebendo, por carta, egressos de várias partes da Europa e do Continente Americano, contendo psicografias recepcionadas em centenas de grupos espíritas espalhados pelo mundo. O mesmo critério de seleção, baseado na universalidade dos ensinos foi aplicado pelo professor, para separar joio de trigo, permitindo a incorporação de ideias advindas da mediunidade, mas sem a sua presença de homem de ciência para aferir a forma e os elementos intrínsecos ao fenômeno. Também, aqui, o criticismo de Kardec é patente e judicioso.

O leitor, estudioso da história do Espiritismo, assim como o neófito ou o que não tenha tanta bagagem espírita, em termos de literatura ou vivências, pode estar se perguntando: a atividade de Kardec parou por aí?

Não! E nem poderia. Nos quase doze anos de sua atividade “espírita”, Kardec ainda pôde se relacionar presencialmente com muitos grupos espíritas, nos arredores de Paris e Lyon e em outras regiões europeias mais próximas e, por correspondência, com inúmeros “centros espíritas” de várias partes do planeta. Nesses diálogos, Kardec pôde observar as rotinas, os comportamentos, as manifestações e, também, os resultados dos intercâmbios com os desencarnados. Aqui e ali, como bem descrito na Revue Spirite e no “Viagem Espírita em 1862”, foi pontual e claro em sugerir muitas correções aos seus companheiros espíritas, com a crítica aguçada, mas fraterna, visando o aperfeiçoamento das atividades e dos relatos mediúnicos.

E, como se não bastasse, também enfrentou a oposição daqueles que, exercendo o juízo crítico pessoal, desejavam que a “doutrina”, as reuniões e as atividades espiritistas assumissem outros contornos, posicionamentos ou práticas. E se levantou, criticamente, diversas vezes, contra essas “novidades”, advertindo para os perigos derivados dos cismas, dos escolhos da mediunidade e dos personalismos derivados das duas grandes chagas da Humanidade, o orgulho e o egoísmo.

Tão crítico foi que manteve a unidade das atividades genuinamente espíritas, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), a representação, na prática, do desejado Comitê Central de Espiritismo – órgão que foi concebido por ele, ouvindo as boas sugestões dos Amigos Espirituais, como validador das novas informações trazidas pela Mediunidade sem descurar da necessária observação, acompanhamento e incorporação dos resultados das pesquisas da Ciência, posto que recomendou, sempre que o Espiritismo acompanhasse pari passu os progressos científicos. Essa crítica – interna e externa – Kardec realizou até que o aneurisma cerebral lhe levasse para o “outro lado”.

Hoje sabemos que a ausência física do “Chefe do Espiritismo”, resultou num hiato em relação ao seu magnífico e dinâmico trabalho, porque nenhum dos que lhe sucederam nas atividades da SPEE, mesmo considerando as características que são diferentes, individualmente, foi cauteloso com o método e com a crítica (mediúnica e associativa) de Kardec. Tanto é que a sociedade experimentou cisões, Amélie Gabrielle Boudet foi pouco a pouco sendo afastada das atividades, a produção/edição da Revue não manteve a mesma qualidade e aprumo crítico e, mais pontualmente, foram recentemente descobertos os crimes em relação à memória e ao legado kardecianos, com a adulteração de “A Gênese”, numa edição póstuma, totalmente desfigurada em relação ao conteúdo publicado pelo Codificador.

 

A nós, como continuadores da proposta e tutores do legado kardecianos compete, então, realizar as seguintes CRÍTICAS:

1) Às mensagens e às obras derivadas da produção mediúnica, seja localmente (instituição espírita) seja em face da divulgação por mídias ou da aquisição de livros, entre outros meios de difusão da produção mediúnica, AVALIAR o conteúdo, primeiramente em relação à concordância com a Filosofia Espírita (32 obras de Kardec), e, no caso de elementos “novos”, observar a observância (ou não) do critério de universalidade;

2) Aos encarnados que estejam envolvidos em qualquer atividade denominada espírita, em especial dirigentes, palestrantes ou médiuns, por suas manifestações orais ou escritas, presenciais ou gravadas ou documentadas, ANALISAR o teor das declarações, no sentido de diferenciar OPINIÕES PESSOAIS de FUNDAMENTOS ou TEORIAS DOUTRINÁRIAS, estando ciente de que nenhum cargo, posição ou reconhecimento público substituem o exercício da lógica racional e da criticidade em relação a ideias ou teorias, afastando, de pronto, portanto, a idolatria e a posição de superioridade “espiritual” de quem quer que seja;

3) À Mediunidade (fenômeno mediúnico) e aos Médiuns – sejam eles vinculados ou não a trabalhos e/ou instituições espíritas – PONDERAR se os resultados (curas, fenômenos físicos, mensagens ou obras literárias) estão conformes, primeiro, à teoria espírita e, mais precisamente, se as posturas e comportamentos na atividade ligada à Mediunidade guarda consonância com a ética recomendada pelos Espíritos Superiores (Doutrina Espírita), afastando toda e qualquer realidade que apresente elementos de arrecadação financeira, sob qualquer pretexto ou finalidade, exposição midiática, honrarias e glorificações, estrelato, liturgias religiosas ou abusos de toda a ordem, inclusive crimes de qualquer espécie; e,

4) Em relação a grupos, associações, instituições, federações ou quaisquer outros agrupamentos humanos, presenciais ou virtuais, MENSURAR o grau de profundidade e conhecimento espírita, a coerência entre teoria e prática, separando ideias pessoais de fundamentos filosóficos e doutrinários espíritas, a par de considerar que a imensa maioria dos seres que encontram-se encarnados neste planeta em nosso tempo possuem praticamente o mesmo nível evolutivo, com pequenas diferenças, razão pela qual, em face das imperfeições pessoais, não há sábios nem luminares para serem seguidos, cegamente, e que, igualmente, devamos compreender fraternalmente as dificuldades de entendimento assim como as de comportamento, porquanto todos nós estamos em caminhada progressiva.

A Crítica, portanto, deve ser ferramenta indispensável ao espírita estudioso e sensato, seguindo de perto os posicionamentos e as orientações de Kardec, sem a intenção de julgar quem quer que seja, mas apontando, criteriosa e conscientemente, acertos e erros, procurando repetir os primeiros e afastar os últimos, nas ações, palavras e pensamentos “em nome” do Espiritismo.

Críticos, prossigamos!


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+ Marcelo Henrique Pereira