Curso de Formação de Pesquisadores Espíritas FEC/UFSC propõe abandono de dogmas do movimento espírita

Por Manoel Fernandes Neto


Professor Francisco Fialho (UFSC): Incentivando a duvidar sempre para conseguir fazer ciência.

A ciência espírita não é uma miragem. Foi este o sentimento que emergiu no encerramento, neste domingo, 14.07.2013, da I Turma do Curso de Formação de Pesquisadores Espíritas, desenvolvido pelo NEOPE-VPCC, da FEC.

A iniciativa tem uma dupla potência. De um lado, o respaldo do conhecimento espírita advindo de uma federativa. De outro, a chancela acadêmico-científico da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), incluído como atividade de Extensão Universitária em Pesquisa em Transfenomenologia. Um projeto em harmonia com o pensamento abrangente da Codificação, a cargo do professor Francisco Fialho, do Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFSC.

Mas formar livres pensadores é um desafio em um movimento que é livre em sua concepção, podendo organizar-se da forma que achar melhor, respeitando, mas adaptando as orientações da federativa. Assim, proliferou-se em Santa Catarina e no Brasil um espiritismo muito mais religioso em sua raiz, o que também o ajudou a se fortalecer em suas bases e adeptos, situação já objeto de diversos estudos acadêmicos.

Todavia, em pleno século 21, chega o momento de um ajustamento em seus três pilares: Ciência, Filosofia e Religião, com ênfase na pesquisa, de acordo com o que nos trouxe Kardec. (Allan Kardec, A Gênese, cap. I, item 55).

O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará. 

Mário, Marcelo e o Professor Fialho: A FEC na vanguarda

Sem rótulos

Tornarmo-nos pesquisadores competentes quando estamos acostumados com dogmas do movimento espírita não é tarefa fácil. Como colocar em dúvida os ensinamentos da Codificação? Como admitir que em algumas passagens das obras básicas foi considerado o conhecimento da época, e que elas não estão de acordo com os avanços do conhecimento dos tempos atuais?

Como afirmou e reafirmou durante todo o curso o professor Fialho:

Não existem fatos, nem uma verdade que dure pra sempre. Fazer ciência é contestar. Vivemos em um tempo de desconstrução. Todos os grandes cientistas e pesquisadores são descontruídos em algum momento, e nem por isso deixaram de ser grandiosos e citados como referência. Fazer ciência é isso.

Mas a pergunta pertinente: qual o espectro de pesquisa que pode ser realizado por um pesquisador espírita?

Diferentemente de outro dogma de que a ciência espirita só pode ser realizada nas mesas mediúnicas, o curso da FEC/UFSC nos mostrou uma abrangência muito maior. Uma forma de fazer ciência que desloca o pensamento espírita do umbigo de seus próprios domínios e que cria conexões com o que estão fazendo em outras áreas e culturas. “Devemos parar de criar muros, rotulando como ‘não espíritas’ iniciativas de outras escolas e doutrinas. Devemos criar pontes, investigando e pesquisando essas melhores práticas, sem viés, sem verdades preconcebidas, tão típicas do nosso movimento”, aponta o professor Fialho.

A beleza da busca

O que é a Verdade? Foi esta a questão que durante dois fins de semanas e atividades extras na biblioteca da UFSC cerca de 20 pessoas, espíritas ou não, tentaram responder. Com certeza não conseguimos responder, e isso é boa notícia, segundo Fialho. “Em ciência, a verdade só existe por breves momentos e aí é que está a beleza da pesquisa; é a busca constante do contraditório”.

Mas isso pode parecer algum tipo de “obsessão grave” diante da visão atual da maioria de dirigentes espíritas, algo que vem sendo mudado pela vice-presidência de cultura e ciência, da Federação Espírita Catarinense, patrocinadora desta iniciativa. “É um projeto maior, que privilegia a dialógica, em contraposição à retórica e à dialética. Ou seja, buscar e estudar pontos em comum com o que vem sendo feito em outras áreas do conhecimento”, diz Mário S. Thiago, atual vice-presidente, que participou da primeira turma com colaborações pontuais e relevantes, baseadas em seu conhecimento como dirigente espírita há várias décadas.

Aliás, o que marcou o curso foi a interação e o diálogo constante entre o grupo de alunos, professor e organizadores, em que não só era permitido discordar, mas incentivado a isso. Desta forma, horas pareceram segundos, e dias, breves minutos na imortalidade da nossa vivência. Vídeos, imagens, sons, escolas científicas, sorrisos, abraços, comunhão entre os participantes, teorias, teses, intuição, ação em um desfile de referências de pensadores espíritas e não espíritas. Com destaque a Bezerra de Menezes, que nos lembrou que qualquer ciência seria inútil se abandonássemos as iniciativas assistenciais desenvolvidas por centenas de casas espíritas do nosso País. “A nossa pesquisa deve ser escolhida de acordo com metodologias que respondam, principalmente, qual a dor que é preciso consolar”, diz Fialho.

Ou, como disse Marcelo Henrique Pereira, assistente da vice-presidência de ciência e cultura, em artigo recente neste portal:

A postura do cientista (espírita), portanto, deve ser a de encarar, de frente, a verdade (parecemos ouvir Kardec quando prelecionou “fé inabalável só o é a que pode encarar a razão, frente a frente, em todas as épocas da Humanidade”, não é mesmo?), mas com a ética que se espera dos espíritas, ou seja, uma pesquisa ética, voltada para o Bem da Sociedade, a partir da divulgação dos resultados das pesquisas, que se espera possam alcançar toda a comunidade terrena.
Libertação e busca

A turma da Nova Era, de Blumenau: Teresinha, Adriana, Jorge, Mirabel, Manoel, Maickol e Edir: Estudo e pesquisa na pauta.

Livre pensar

A S.E. Nova Era foi o grupo representante da cidade de Blumenau, de acordo com o histórico da casa, que vem, desde sua fundação no ano 2000, privilegiando o estudo, as iniciativas de pesquisa sistemática para exposições públicas, que se juntam ao seu trabalho assistencial e de esclarecimento.

Nas palestras e nos cursos da Nova Era, outras escolas filosóficas são citadas e estudadas, inclusive com bibliografia sugerida a seus monitores e alunos para estudos inter-religiosos. Além disto, o portal da Nova Era, no ar desde 2003, vem se consolidando como exemplo desta nova proposta dialógica de não “falar somente para “dentro” do movimento, a publicar artigos e ideias de pessoas de outros credos e filosofias, tais como o teólogo Leonardo Boff e o pastor Ricardo Gondim, além de canais temáticos como Iluminismo Vive (liberdade e tolerância), Ser Sustentável (ecologia e consciências), Os caminhos da Ciência (notícias científicas de várias áreas).

O Curso de Pesquisador Espírita da FEC/UFSC terá novas turmas marcadas. O objetivo do projeto é formar uma massa crítica na área e agendar novas etapas, desta vez por meio de workshops para formação de grupos de pesquisa com os participantes. Etapas em médio e longo prazo pretendem desembocar na própria casa espirita, com a criação de seus departamentos de cultura e ciência, em uma grandiosa iniciativa que permite reviver Kardec em sua sede de conhecimento como pesquisador imortal.

Acima de tudo, reviver este livre pensar que nos liberta cada vez mais, quando buscamos, de forma incessante, a verdade, mesmo que ela se afaste a cada piscar de olhos.

Renascer todos os dias e prosseguir é uma missão que nunca deve ser abandonada pelo espírito.

Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião da Casa Espírita Nova Era.


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