“Demônio!”

[ CONTO ] Ela não sente vergonha de frequentar o centro espírita juntamente com os cultos da igreja.

Por Manoel Fernandes Neto

A palavra da amiga do culto, ou mesmo das amigas, veio bem forte na sua cabeça ao passar pela porta da casa espírita. Elas sempre voltavam ao mesmo assunto: o espiritismo era coisa do diabo; conversar com os mortos nunca traz coisas boas; só o espírito santo é de confiança.

Mas ela já não era mais criança. Na igreja desde bebê, com todos seus ritos e batismos, já perto do 26 anos de idade, formada em psicologia, se perguntava que demônio tão silencioso era esse que todas as vezes em que esteve no centro para palestras públicas tinha sido tão bom, tão gratificante.

Sim, ela não sente vergonha de frequentar o centro espírita juntamente com os cultos da igreja. Os dois grupos, na sua análise, são importantes em sua vida. Na igreja, estava toda sua história, seus amigos de décadas, de excursões quando crianças, afetos dos encontros quando eram jovens, pessoas que caminhavam com ela e que estavam sempre unidas. Na igreja, também tinha todo um estudo aprofundado da bíblia, dos evangelhos, dos povos antigos e seus testamentos em que ela era muito, muito ligada.

Já com a casa espírita, o encontro veio bem depois, algo recente, cerca de um ano e meio, mas que pareciam milhares. Começou pela sua curiosidade de conhecer de perto esse “mal” de que tanto falavam suas amigas. Resolveu tirar a prova em uma noite, em um centro espírita instalado há anos perto da sua casa. Foi caminhando com o coração a mil, preparada para tudo, para o enfrentamento desse cramunhão.

Naquela oportunidade, ela pensava “estou com Deus Jesus” acima de tudo e com ele não vou “temer o mal, mesmo que eu ande pelo vale da sombra da morte”. E naquela noite, a luz se fez: foi bem recebida, abraçada por diversos trabalhadores, que explicaram a dinâmica da casa, como ocorriam as palestras e os passes e até mostraram em detalhes a livraria e a biblioteca.

Foi uma noite luminosa em que não encontrou o “coisa ruim”, mas viajou por mundos distantes, tantas moradas da casa do Pai, tema da palestrante – “Vejam só,” pensou “uma mulher!” – tão simpática ao dividir ensinamentos que já vibravam dentro dela: que o que morre é a carne, que continuamos por diversos mundos, conforme nosso grau de merecimento e trabalho; acima de tudo, muito trabalho.

E foi assim que começou a frequentar o local escondida de todos da igreja, dos amigos, familiares, que não percebiam uma hora ou uma hora e meia utilizada depois do trabalho. E foi ali, nas dezenas de semanas seguintes, que aprendeu sobre a codificação espírita, sobre renascer centenas de vezes, sobre o Deus amoroso causa primária de todas as coisas e que Jesus é um Mestre, um irmão, o modelo que pode ser alcançado por todos nós. Também leu cuidadosamente as obras que norteavam a Doutrina Espírita e tantos outros livros que discutiam sempre nos encontros com os novos amigos que fazia na casa.

 

A igreja, continuava frequentando normalmente. Cada vez com mais alegria, interagindo nas escolas dominicais, indagando os professores de forma respeitosa, e eles gostando muito de seu interesse por temas sagrados. E ela compreendendo mais e mais os desígnios de Deus e suas conversações pautadas pelo amor ao próximo e à vida.

Um dia, determinada, marcou uma conversa com o pastor, idoso com muita experiência. Ela estava preparada para deixar a igreja, caso fosse necessário. E expôs tudo a ele. Sua vida dupla, sua frequência no centro espírita, todos os conhecimentos que ela tinha adquirido, sua afeição a todos da igreja, mas também a todos os amigos que tinha feito no centro. Disse, determinada, que se sentia bem nos dois locais, que aprendia em ambos, que amava estar nos dois lugares.

Ele ouviu tudo com muito atenção. Após ela falar, sorriu e disse para ela que o importante mesmo era ela estar feliz, em comunhão com Deus e falou de uma forma amorosa sobre as diversas formas que Deus utiliza para falar com seus filhos e filhas; que ela sempre seria bem-vinda na igreja, que ninguém tinha direito de proibi-la de frequentar o lugar que ela escolhesse, que isso era decisão dela, como eram também direito os livros que ela escolhesse para ler ou os temas para estudar e se ela se sentisse bem em dois locais, que assim seja e completou em seguida rapidamente: “aleluia, aleluia”.

“Demônio!”

Hoje, ela nem liga mais quando as amigas da igreja continuam a usar a expressão que já aprendeu que podem ter outros significados mitológicos nem sempre maléficos. Fica feliz mesmo de olhar o melhor de cada um e seu estágio evolutivo, no centro espírita ou na Igreja, e que de alguma forma estamos todos interligados. Ela não sabe como isso ocorre integralmente, mas ela continua estudando e querendo descobrir. Com certeza.

Manoel Fernandes Neto é jornalista e escritor. Curador de conteúdo. Editor do portal Nova Era, e diretor de CMM Interativa. Acesse também www.manoelfernandesneto.com.br

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