Dependência psicológica da ajuda dos espíritos

Rita Foelker, http://www.edicoesgil.com.br/

O espiritismo desencoraja formalismos e automatismos. Nenhum ritual mecanizado, nenhuma repetição de gestos e palavras pode substituir a energia da vontade e do sentimento. Como fé esclarecida por princípios racionais, o espiritismo solicita de seus adeptos reflexão em seus atos e compreensão da natureza das forças que agem além da matéria.

Muitos de nós, contudo, ainda precisamos de muletas psicológicas. Precisamos de noções e atos simples, freqüentemente automáticos, que nos dêem a sensação de estarmos amparados, ainda que não se sustentem perante uma análise mais aprofundada de seus mecanismos.

Refiro-me a práticas comuns como anotar os nomes das pessoas conhecidas no caderno de vibrações da casa. Ou receber o passe, obrigatoriamente, toda vez que se vai ao centro espírita, independente observarmos se estamos realmente necessitados ou não. Ou tomar a água fluida sempre que se chega ou que se sai, sentindo como se algo estivesse faltando quando não o fazemos.

Uma das coisas que sempre me chamou a atenção em Calunga , meu querido amigo espiritual, é sua constante orientação para que abandonemos esse tipo de atitude.

Com muita razão, ele pede para sermos responsáveis por nossos pensamentos, sentimentos e ações, pois quando, por exemplo, pegamos o caderno de vibrações e relacionamos os nomes de nossos familiares, amigos, vizinhos ou conhecidos, muitas vezes não sabemos se o caso de cada uma dessas pessoas necessita de um atendimento espiritual específico. Fazemo-lo por hábito, simplesmente.

Pensando melhor: será que já buscamos dialogar com cada um, ver se nós podemos ser úteis de alguma forma ao auxílio daquela criatura? Ou simplesmente delegamos a tarefa aos amigos espirituais e nos sentimos livres do encargo e, simultaneamente, com a consciência tranqüila por termos feito "algo"?

O passe é um recurso oferecido por todos os grupos espíritas de forma ampla e generosa. Mas não é por isso que precisamos abusar deste recurso. Antes de entrar na fila do passe como sempre, perguntemos a nós mesmos: sentimos que precisamos receber aquele tipo de ajuda naquele momento?

Será que já pensamos que além de receber o auxílio, é importante comparecer à casa espírita igualmente para doar algo de nós mesmos, sejam bons pensamentos, preces, amizade, companheirismo ou algumas horas de colaboração na manutenção do prédio, por exemplo?

Certamente, o Pai conhece nossas necessidades, bem como nosso carinho por aquelas pessoas de nosso círculo de relações que entendemos estar em sofrimento. Creio que isto seja levado em conta em cada caso particular. Entendo que nossas preces sinceras, todas elas, recebem um tipo de atendimento, não segundo nossos pedidos e inquietações, mas segundo a sabedoria presente nas leis divinas que governam nossos destinos.

Contudo, isso não nos exime do dever de amadurecer, de agir com consciência ao escrever um nome, ao fazer um pedido por qualquer pessoa ou ao sentarmo-nos para receber os eflúvios do passe.

Quanto às muletas psicológicas, se ainda precisamos, talvez já seja tempo de abandoná-las. Lembremo-nos da orientação do Mestre ao paciente recém-curado: "Levanta-te, toma o teu leito e anda" (Jo 5, 8).

Quando nos sentimos mais fortalecidos, tanto pela amorosa receptividade dos responsáveis pelo atendimento fraterno, quanto pelas energias do passe e pelas leituras e palestras que ouvimos, é o momento de pensar em abandonar hábitos antigos e caminhar com nossas próprias pernas.

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+ Rita Foelker