Doação de órgãos, um ato de amor

Destacamos os apontamentos e as notas para estudo, comentados na palestra Doação de órgãos, um ato de amor.

Quando se fala em transplante e doação de órgãos, grandes discussões ainda se levantam: o que diz a lei, quando é feita a retirada dos órgãos, comercialização, capacidade dos hospitais em atender, entre outras dúvidas, surgem quando abordamos este assunto.

De 1997 até 2001, a lei era a do consentimento presumido, ou seja, a pessoa não se manifestando contra, era doadora. Em 2001 a lei foi modificada dando à família o direito de decidir. Portanto, toda pessoa que queira ser um doador de órgãos, deve manifestar isto, claramente à família.

Nos idos de 1967 o Dr. Cristian Barnard realizou, na África do Sul, o primeiro transplante de coração. Luois Washkonsky, em estado crítico após 3 ataques cardíacos e desenganado pelos médicos, prevendo poucas semanas de vida, recebeu o coração de Denise Ann Darval, 25 anos, vítima de acidente de carro, com diagnóstico de morte encefálica. O paciente durou 18 dias. Morreu em conseqüência do seu corpo ter ficado vulnerável às infecções pelas altas doses de radiação que recebeu.

Inicialmente as cirurgias de transplantes não tiveram sucesso devido à rejeição do órgão transplantado. A partir de 1967, desenvolveram-se várias drogas imunossupressoras (ciclosporina, azatiaprina e corticóides), que visavam reduzir a possibilidade de rejeição, passando então os receptores de órgãos a terem uma maior sobrevida. Em relação à evolução da Ciência, cumpre considerar que não é tarefa do Espiritismo ou dos Espíritas contestar as novas descobertas científicas. Elas estão dentro dos desígnios Divinos, trazer ao ser humano solução para os problemas que geram sofrimento. Cabe, sim, aos Espíritas, acompanhar de forma criteriosa e racional todas essas descobertas em relação ao seu uso e aplicação, fazendo-se respeitar pelos cientistas, para que, através da aproximação da Ciência com a Religião possa trabalhar a evangelização da própria Ciência.

Na época, revelou-se a sabedoria da Espiritualidade maior, aconselhando a continuidade das cirurgias de transplantes e a busca de soluções alternativas, inclusive órgãos artificiais. Manifestou-se Emmanuel, através de Francisco Cândido Xavier, em 1971:

“O problema dos transplantes deve merecer o nosso respeito e vamos pedir para que a nossa ciência médica continue para frente, conquanto não deva desprezar os órgãos chamados plásticos, tanto quanto possível, na substituição de órgãos no veículo físico, mas os transplantes merecem a nossa consideração e devem prosseguir”.

Atualmente já constituem rotina os transplantes de: córnea, ossos, pele, vasos, e multiplicam-se os de órgãos vitais como coração, rins, fígado, pâncreas, etc.

À luz do Espiritismo sabemos que o nosso organismo biológico nos é emprestado por Deus como um instrumento de evolução durante a reencarnação. Esse instrumento deve ser usado de acordo com as diretrizes traçadas pelas leis Divinas, onde a caridade é a lei maior. Então :

“ …são perfeitamente válidas as doações de órgãos, partes e tecidos do corpo humano, inclusive em vida, quando possível e sem prejuízo da integridade biológica, do doador e após a desencarnação…. Importante na verdade, a conscientização de que a doação de órgãos se constitui não somente um ato altruístico de liberalidade em benefício do semelhante, mas na verdade, obrigação moral de todos aqueles que superam as limitações da matéria, para compreender que na condição de seres espirituais temos todos a mesma origem, criados por um único Pai, gerando a fraternidade universal.”

Mas a imperfeição ainda é uma característica nossa, que revela-se não só nas descobertas científicas, mas na sua aplicação prática. Nos perguntamos até que ponto estas descobertas serão usadas para o bem. A história nos mostra muitas invenções que foram mal usadas. Cabe aí termos o entendimento de que cada um responde por seus atos. Se as descobertas não encontram uma resposta necessária dos seres humanos, em especial a doação de órgãos, fecha-se à possibilidade para procedimentos mais aperfeiçoados. Hoje ainda nos questionamos muito em relação à doação de órgãos.

A Doutrina Espírita nos esclarece que as células são governadas pelas leis da natureza, sob o influxo do Espírito, enquanto fazendo parte de um organismo individualizado. Uma vez retiradas deste organismo, voltam à sua condição primitiva, adaptando-se com certa facilidade aos organismos aos quais forem transplantadas. O coração, retirado, deixa de manter relação com o Espírito do doador.

Entre nossas preocupações, podemos destacar:

Estar vivo e ser retirado os órgãos.

Os critérios da lei são claros para a retirada de órgãos e tecidos: deve haver a morte encefálica, ausência de funções do encéfalo. Ele é lesado em seus neurônios e não pode ser reconstituído. A morte encefálica deve ser constatada e registrada por dois médicos, (um neurologista) que não pertençam às equipes de remoção e transplantes. É ainda admitida a presença de um médico de confiança da família no ato de comprovação e atestação da morte encefálica.

Retirada de órgãos de pessoa juridicamente incapaz.

Somente mediante a permissão expressa de ambos os pais ou seus responsáveis legais.

Individuo não identificado.

É vedada a retirada de órgãos e tecidos.

Entre pessoas vivas.

Permitida no casos de órgãos duplos, parte de órgãos, tecidos ou parte do corpo cuja retirada não impeça o doador de continuar vivendo sem risco de sua integridade física e mental.

Gratuidade na doação de órgãos.

A lei veda a comercialização de órgãos.

Gestantes.

É vedado a gestante doar seus órgãos, salvo no caso de medula óssea, desde que esta doação não ofereça riscos ao feto.

Estes esclarecimentos são muito importantes para que não nos deixemos levar por alguns atavismos do passado, que muitas vezes afloram, inclusive em manifestações, pretensamente mediúnicas, animismo, que manifesta suas inquietações, travestida de Espíritos, em busca de órgãos. Que Deus seria esse que permite sofrimentos àqueles que fazem a caridade. E não existe caridade maior do que o dar de si mesmo.

E Richard Simonetti, nos diz:

“ …E não tenhamos dúvidas de que haverá um cuidado mais amplo dos nossos Benfeitores Espirituais, evitando que nossa generosidade implique em qualquer constrangimento para nós, proporcionando-nos, ainda, condições para que mais facilmente superemos os problemas de adaptação às realidades além- túmulo. ( Richard Simonetti, Quem Tem Medo da Morte ?)

– O ato de caridade de doação de órgãos pode gerar dor e sofrimento?

Não. A doação de órgãos somente beneficia o Espírito, que abandona a matéria em retorno ao mundo espiritual. Ainda que se considere a doação involuntária, feita pelos pais ou responsáveis, não há reflexos negativos para o Espírito. Mensagem de um suicida (ele havia doado seus olhos).

“ Graças a Deus melhorei da hemorragia incessante que me enloquecia. Depois de algumas semanas de aflição, um médico me apareceu com uma boa nova. Ele me disse que as preces de uma pessoa beneficiada com a córnea que doei ao Banco de Olhos se haviam transformado em pequeno tampão que colocado sobre o meu peito, fez cessar o fluxo de sangue.” ( Chico Xavier, Amor e Saudade)

– Quantas partes do corpo podem ser aproveitadas para transplante?

O mais freqüente: 2 rins, 2 pulmões, coração, fígado e pâncreas, 2 córneas, 3 válvulas cardíacas, ossos do ouvido interno, cartilagem costal, crista ilíaca, cabeça do fêmur, tendão da patela, ossos longos, fascia lata, veia safena, pele. Mais recentemente foram realizados transplantes de uma mão completa. Um único doador tem a chance de salvar, ou melhorar a qualidade de vida, de pelo menos 25 pessoas.

– Uma pessoa em coma, também pode ser doadora?

Não, coma é um estado reversível, ao contrário da morte encefálica.

– Como o corpo é mantido após a morte encefálica?

O coração bate às custas de medicamentos, o pulmão funciona com a ajuda de aparelhos e o corpo continua sendo alimentado por via endovenosa.

– Quem paga os procedimentos de doação?

A família do doador não tem gastos. Tudo é coberto pelo SUS.

– Quem recebe os órgãos doados?

Testes de laboratórios são feitos para verificar a compatibilidade entre doador/receptor. Após os exames, é feita a triagem, com base em critérios de tempo de espera e urgência do transplante.

– Podemos escolher o receptor?

Não, o mesmo será indicado pela central de transplantes.

Por que ser um doador ?

Qual a destinação do nosso cadáver? Alimentar os vermes, desintegrar-se e voltar à natureza. É uma decisão um tanto egoísta a de não doar. Nosso corpo nos serviu de veiculo para evoluir. Por que não fechar com chave de ouro esta passagem pela Terra? Isto é caridade, que não custa nada, e vai trazer vida a muitos irmãos nossos.

Francisco Cândido Xavier relata em suas obras mediúnicas três casos de transplantes involuntários (doação feita por seus familiares). Nas mensagens os Espíritos agradecem os familiares a iniciativa e asseguram que as equipes espirituais socorristas são tão organizadas que as doações transcorrem tranqüilamente, sem repercussões e sim com benefícios de reequilíbrios e bem estar. Amparados por equipes de Alta Luz, de alta capacidade, que lhes deram cobertura para que não sentissem nada. As preces e vibrações emitidas pelos receptores e respectivos familiares também os beneficiaram e muito.

Acidente de transito

Um dos feridos, um rapaz de 28 anos, é rapidamente socorrido e levado para o hospital mais próximo. Ele sofreu forte traumatismo craniano e seu estado é grave. Na Unidade de Terapia Intensiva, os médicos lutam em vão para salvar sua vida. Dois dias depois, o diagnóstico é definitivo: morte cerebral. Não há mais nada a fazer. Ou melhor: há algo que ainda pode ser feito. Os médicos consultam a família do paciente sobre a possibilidade de doação de órgãos. A família não se opõe. Os médicos imediatamente entram em contato com a Central de Transplantes, que envia uma equipe ao hospital. Após os exames para verificar a compatibilidade do doador, é dado o sinal verde. Em menos de 48 horas – prazo máximo –, os órgãos são retirados. Um mês depois, o coração do rapaz bate em outro peito e as córneas, o fígado e os rins oferecem uma nova perspectiva de vida para pessoas que, finalmente, livraram-se da angústia de espera por um doador.

A cena ideal é mais ou menos assim. A realidade, nem sempre.

Segundo informações do Ministério da Saúde:

– 1,1% das ocorrências de morte cerebral no país não são notificadas à Central de Transplantes.

– Dos doadores potenciais, ou seja, aqueles com diagnóstico notificado de morte cerebral, apenas 21,1% tornam-se efetivos.

– O resultado é que, em um país com potencial de 10 mil doadores de órgãos por ano – conforme estatísticas aceitas internacionalmente –, menos de 4 mil chegam ao conhecimento das Centrais de Transplantes e pouco mais de 800 se tornam doadores de fato.

– Cerca de 45 mil pessoas estão hoje na lista de espera por um transplante – principalmente de rins e córneas.

Bibliografia

1. LISSO, Wlademir, Doação de Órgãos e transplantes. São Paulo: Edições FEESP, 1998.

 


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+ Rose Mary Grebe