Ecos da Pandemia

A médica psiquiatra Márcia Breton Ilha fala em entrevista exclusiva sobre ansiedade, depressão e a força do amor na superação das dificuldades.

Pandemia, ansiedade e depressão. E medos, muitos medos: medo do desemprego, medo de interrupção dos negócios, medo dos noticiários, medo de morrer. Como enfrentar tudo isso? Como funciona cada individualidade nesse enfrentamento? Como superar tantos desafios surgidos em 2020?

A médica Márcia Breton Ilha, sócia da Tocchi Empresarial, concedeu uma entrevista exclusiva ao portal Nova Era e Revista Nice, em que procura de uma forma simples e esclarecedora explicar o que está envolvido na análise desses temas.

Psiquiatra, formada em medicina desde 1991, com pós graduação em psiquiatria em 1993, ela fala diretamente sobre as marcas deixadas por esse período. “Sem sombra de dúvida, a próxima pandemia será a das doenças mentais.”

Consultora de empresas, Márcia analisa o mundo profissional e as doenças que podem surgir nesse ambiente: “Nossa sociedade é altamente opressora nesse sentido. Há a cobrança por desempenho, sucesso, status.”

Leia a entrevista completa, em que Márcia também fala do poder do amor que cura e acolhe:

“É a maior fonte de cura. Mas eu estou falando de amor verdadeiro, não o amor do apego, do ego.”

 

Depois de 7 meses de algum tipo de isolamento e privação em virtude da pandemia, como você analisa do ponto de vista psiquiátrico o impacto disso na cabeça das pessoas de uma forma geral?

Sem sombra de dúvida, a próxima pandemia será a das doenças mentais. Muitos fatores estão envolvidos nesta questão, além do isolamento, como o medo da doença, da morte, as incertezas em relação ao futuro, o excesso de convívios entre os que coabitam. O isolamento por si já é um fator muito importante.

 

Na década de 60, um psicólogo americano chamado Harlow fez um experimento com bebês macacos e mães substitutas, uma de lata e outra felpuda. Independente de qual fornecia alimento, eles procuravam claramente a mãe macia, principalmente em situações de medo.

Nós somos seres sociais. Necessitamos contato, principalmente os povos de cultura latina, que estão acostumados com toque, com beijo, abraço. Soma-se a isso a falta de ambientes naturais e sol – muita gente entende isolamento social com ficar preso dentro de casa, e temos um ambiente altamente propício para a depressão,a ansiedade, o alcoolismo e o aumento da violência.

Até que ponto o isolamento pode ser um gatilho para depressão ou ansiedade em pessoas que nunca manifestaram qualquer sintoma?

Depressão e ansiedade são doenças de causa multifatorial, com predisposição genética. Então, se eu tenho o “programa” de uma das duas doenças na minha genética, ele vai rodar em meu cérebro desencadeado por algum estímulo a que chamamos de estressor. No caso, o isolamento é este estímulo. Dependendo de como a pessoa está vivenciando este momento, o estressor pode ser suficientemente forte para trazer à tona uma doença que ainda não havia se manifestado.

A partir de que momento de uma ansiedade manifestada a pessoa deve procurar ajuda clínica de um profissional médico?

Ansiedade é uma reação natural do ser humano, e até importante em alguns momentos. Se eu não sentir ansiedade em situações de risco, acabo não sendo cauteloso e me expondo. Ansiedade vira patologia, e precisa de cuidados médicos, quando os sintomas passam a interferir na vida habitual da pessoa, por exemplo, atrapalhando interações sociais ou a execução de suas atividades laborais.

Em um momento como o que estamos vivendo, é normal ficar um pouco ansioso. O que temos escondido na ansiedade é o medo, o desconhecido, o que não podemos controlar. E o sars-cov-2 é isso, um vírus desconhecido, que pegou todos de surpresa.

Neste nosso mundo onde a informação é instantânea e está na palma da mão, temos uma chuva de informações desencontradas, fake News, notícias distorcidas, interesses diversos influenciando. As pessoas estão com medo. A maioria das pessoas desconhece a matéria.

 

Então ficam inseguras, sem saber o que fazer. Isso é normal. Vamos ficar mais aflitos, comer mais, e está ok. Mas, algumas pessoas vão ter sintomas mais graves (crises de pânico, fobias, compulsões, idéias obsessivas) e estas precisam de ajuda.

Ansiedade e depressão, elas têm cura? O que as diferencia?

Ambas são doenças, têm mecanismos biológicos e psicológicos envolvidos e tem tratamento. Os termos ansiedade e depressão envolvem muitos diagnósticos. Para te responder a esta pergunta, precisaríamos discorrer sobre eles. Temos várias doenças que se encontram no espectro dos transtornos de ansiedade, elas têm tratamentos de duração diferente e prognósticos diferentes. Assim também as doenças do espectro do transtorno do humor, onde se encontra a depressão, que tem vários graus. Por isso é necessária uma avaliação psiquiátrica, para o diagnóstico e o tratamento adequados.

Alguns especialistas estão apontando que a pandemia pode levar a algum tipo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático e os chamados “gatilhos” podem impedir as pessoas a retornar a uma vida normal mesmo depois de uma vacina. Você pode comentar sobre isso?

Sim, qualquer situação estressante pode levar a um estresse pós-traumático. O conceito de trauma está ligado à forma como a pessoa vivencia aquela determinada situação. Podemos ver pessoas diferentes terem vivido situações estressantes semelhantes com resultados muito diversos. É comum observar isto em quem foi assaltado, por exemplo. Já vi casos de indivíduos no outro dia voltando a vida normal como se nada tivesse acontecido, até aqueles que ficaram semanas sem conseguir sair de casa. Então o que vamos ver depois da pandemia está ligado à forma como cada pessoa está vivenciando o momento, tanto psicologicamente como praticamente – quem perdeu pessoas ou emprego ou ficou mais tempo sozinho, por exemplo.

Depressão: estamos encerrando mais um mês de conscientização sobre prevenção de suicidio, o Setembro Amarelo, o que dizer para os familiares que têm casos de depressão na família? Como conviver e agir em relação a esse mal dentro das nossas relações familiares e de amizade?

Suicídio é uma questão delicada e mais prevalente do que se imagina. E aumentou muito na pandemia. O que é importante: dar suporte às pessoas que mostram qualquer alteração de comportamento. Não ter medo de ultrapassar a barreira que a pessoa muitas vezes coloca.

Falar claramente sobre o assunto, oferecer ajuda, ficar atento a qualquer sinal, não negligenciar. Sempre digo para os familiares que é melhor pecar por excesso do que por omissão. E não acreditar naquela conversa que rola por aí de que quem quer se matar não avisa. Avisa sim. Muitas vezes a pessoa tem uma ambivalência em relação à ideia de se matar. Ela só quer acabar com a dor e não está vendo saída. Então pede ajuda, às vezes de forma torta. Muita atenção aos jovens neste momento de pandemia. Maior retraimento, mais tempo isolado no quarto….. abra a porta e arrisque ser xingado pelo seu filho!

 

Ansiedade e depressão no mercado de trabalho. Como a carreira, a profissão e mesmo um emprego podem ser gatilhos para manifestação? Como uma pessoa chega a esse ponto? Quais são os sinais de alerta? Por favor, comente.

Nossa sociedade é altamente opressora nesse sentido. Há a cobrança por desempenho, sucesso, status. A gente vê isso desde a torcida de alguns pais no jogo de futebol da escola! Os alunos entram na primeira série já ouvindo falar no vestibular. Dependendo do curso que quer, é o caos. Então esta pressão já se inicia muito antes. Ela é gerada pelas expectativas dos outros, das projeções dos outros, que podem acabar sendo introjetadas e virando as expectativas do próprio indivíduo, e é difícil escapar desta armadilha. Então, novamente, o raciocínio é: situação estressante que desencadeia doença. Aí vai depender da genética. Pode ser doença gastrointestinal, pressão alta, ou depressão e/ou ansiedade.

Sinais de alerta: quando a pessoa começa a ter sintomas como insônia, dificuldade de sair da cama pela manhã, desânimo, falta de prazer nas coisas, taquicardia, tremores, mãos suando, sensação de pressão no peito, medo de sair de casa, estes são alguns dos exemplos. Qualquer coisa que fuja do seu normal. Procure ajuda.

Uma pergunta um pouco grande para encerrar, se for possível. Recentemente, o médico Fabiano Moulin, neurologista da USP e especialista em neurologia cognitiva e comportamento, deu um depoimento que viralizou falando dos benefícios da gratidão na redução da pressão arterial entre outros benefícios. Minha pergunta é: você como médica já presenciou melhoras de quadros de ansiedade quando a pessoa tenta mudar seu tipo pensamento, incluindo gratidão, espiritualidade, ou mesmo amor à natureza?

Sim! E será uma resposta um pouco grande também! Vamos falar de amor? Gratidão é amor. Perdão é amor. Espiritualidade é amor. E amor é a energia mais poderosa do mundo. É a maior fonte de cura. Mas eu estou falando de amor verdadeiro, não o amor do apego, do ego.

Quando nos voltamos para o amor, tudo é possível. O amor é o oposto do medo, da raiva, do rancor, do egoísmo. Me lembro de dois artistas famosos, inclusive parecidos fisicamente, um ator e outro cantor. Contraíram AIDS na mesma época, lá no final dos anos 80, um morreu rapidamente e outro resistiu uns 10 anos. A diferença? Um enfrentou a doença com positivismo, com verdade, com amor a si mesmo. Como resultado, recebeu muito amor dos fãs e dos amigos. O outro, se escondeu, se revoltou, negou a doença, ficou rancoroso…. e morreu.

 

Sempre trabalho com meus pacientes a lição que podemos tirar de tudo, mesmo as piores experiências. E isso nos torna melhores e mais fortes. Mas é preciso ter fé. Como dizia Gonzaguinha, fé na vida, fé no homem, fé no que virá….

Entrevista à Manoel Fernandes Neto, editor do Portal Nova Era


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