Espiritismo além dos muros

[ FRANKLIN FÉLIX ]

O jornalista Galeno Amorim acredita e aposta nos livros como aliados na ressocialização e reconstrução da cidadania entre pessoas privadas de liberdade.

“A verdadeira caridade é um dos mais sublimes ensinamentos de Deus para o mundo. Entre os verdadeiros discípulos da sua doutrina deve reinar perfeita fraternidade. Devem amar os infelizes, os criminosos, como criaturas de Deus, para as quais, desde que se arrependam, serão concedidos o perdão e a misericórdia, como para vós mesmos, pelas faltas que cometeis contra a sua lei. Pensai que sois mais repreensíveis, mais culpados que aqueles aos quais recusais o perdão e a comiseração, porque eles quase sempre não conhecem a Deus, como o conheceis, e lhes será pedido menos do que a vós.” O Evangelho Segundo o Espiritismo, Caridade com os criminosos, Allan Kardec

Em tempos de esfriamento dos ensinamentos de Jesus, do retorno do “olho por olho e dente por dente”, da ascensão das teologias das prosperidades e do flerte de espíritas com setores conservadores e retrógrados, algumas pessoas, espíritas ou não, têm se destacado com suas lições de fraternidade, solidariedade e amorosidade. Essas pessoas merecem nosso reconhecimento e suas boas práticas devem ser difundidas, como forma de incentivar outras pessoas.

Galeno Amorim é um jornalista de 57 anos e tem quase 40 de profissão. Casado e pai de dois filhos, se tornou espírita em meados da década de 1990. Atuante em alguns centros, se dedicou à psicografia, que é a técnica utilizada pelos médiuns para escrever um texto sob a influência de um espírito desencarnado, utilizando para isso sua própria mão. Filho de mãe sem escolarização descendente de migrantes italianos e pai descendente de negros escravizados, foi o pai, que, “contando causos reais e inventados”, despertou nele o interesse pelos livros e leitura. Já na adolescência, “fugia” da casa dos pais para a casa da irmã professora e que, por esse motivo, tinha livros em casa. Foi presidente da Biblioteca Nacional, do Observatório do Livro e da Leitura e do CERLALC/Unesco (Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe). É, também, autor de 18 livros, boa parte para crianças e especialistas em leitura.

De fala mansa, Galeno é um espectador que dá gosto de conversar. Sempre disposto a partilhar uma aprendizagem. Ele acredita que todo mundo merece a chance de se transformar e evoluir e que a leitura pode ajudar nisso. Por esse motivo desenvolveu, a mais de 20 anos, o Observatório do Livro e da Leitura, responsável pelo projeto Jornada da Leitura no Cárcere, que leva livros e literatura para ressocialização e reconstrução da cidadania entre pessoas privadas de liberdade.

A população carcerária é uma das mais estigmatizadas e excluídas de nossa sociedade. Segundo o site Politize!, que sistematizou os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e do Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias), o sistema penitenciário brasileiro conta com uma população de mais de 730 mil adultos em 1.400 presídios vivendo em prisões (dados de 2014). A situação da maioria dos presídios é de superlotação, de pouca verba e infraestrutura insuficiente. São homens jovens, com idade entre 18 e 29 anos, negros, moradores de periferias e com baixo grau de escolarização.

Conforme o relatório do Ministério da Justiça, “manter os jovens na escola pelo menos até o término do fundamental pode ser uma das políticas de prevenção mais eficientes para a redução da criminalidade e, por conseguinte, da população prisional”.

Amorim acredita que há três dimensões simbólicas na leitura: entretenimento, para suprir o tempo ocioso; conhecimento, exercendo, inclusive, um papel muito grande para remissão da pena; e existencial, tendo os livros enquanto caminhos e reflexões para as respostas que buscamos para vida (quem somos, para onde vamos). E é nessa dimensão, destaca Amorim, que entra o ponto de vista espiritual, que é mais amplo que o religioso e tem a ver como se transmite valores, princípios, questões éticas.

Os detentos que participam dos projetos são tocados por essas dimensões. Além disso, o livro prepara para o exercício pleno da cidadania.

Galeno relata que há várias histórias de transformação, mas uma das que mais lhe causam alegria é a história de superação do Carlos, um rapaz que, mesmo tendo passado pela Fundação Casa (Extinta Febem) e conhecido de perto as agruras do sistema socioeducativo (penal), continuou cometendo infrações quando maior de idade. Viciado em drogas, parou de estudar por que achava a escola um ambiente chato, ruim, desconfortável – e sabemos bem como o sistema educativo consegue ser excludente e seletivo quando ele quer. Para sustentar seu vício, passou de consumidor a traficante, migrando para assaltos à mão armada. Preso e condenado a mais de dez anos de reclusão, descobriu na leitura uma forma de ver o mundo de uma outra forma. Gostava tanto de ler que se tornou coordenador do clube de leitura em duas cidades por onde passou, depois virou coordenador de educação na penitenciária e se formou no magistério ainda dentro da cadeia. Hoje é estudante de Direito e faz palestras sobre prevenção da criminalidade.

Perguntado sobre as questões religiosas, relata que está muito presente e diz que ouve, nos lugares onde vai fazer palestras, que a Bíblia e outros livros religiosos estão muito presentes nas leituras de quem está encarcerado. Augusto Curi e Zíbia Gasparetto são os livros espiritualistas e de autoajuda de maior destaque.

Os livros permitem que a gente viva várias vidas em uma só, por que a gente vive a vida das personagens, do escritor, experiências, descobertas… Galeno Amorim

O sistema penal, com todos os seus avanços nos últimos tempos, é a forma mais difícil e degradante do ser humano se conscientizar de suas arbitrariedades. O Estado tem a obrigação de oferecer um recolhimento digno, por que é um direito em uma sociedade que pretende ser civilizada.

É preciso trabalhar contra esse encarceramento em massa que existe no Brasil e investir em penas alternativas para aqueles crimes que não representam perigo à vida humana e à sociedade.

“Empresas têm que criar vagas para ex-detentos e estabelecer percentuais para essa população, que obriguem as próprias empresas fornecedoras de presídios a contratarem. É sua contribuição em uma sociedade mais justa e pacífica”, afirma Amorim.

“Preso é segregado, discriminado, vítima de preconceito e intolerância e representa a visão da barbárie humana. Pessoas que cometeram algum tipo de crime – salvo algumas exceções das injustiças que há – devem ressarcir a sociedade e poder dar a volta por cima, se corrigir”, finaliza Galeno Amorim.

Leia o blog DIÁLOGOS DA FÉ


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