Espíritos enganam Espíritas

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Liszt Rangel | Adeptos dos Princípios Espíritas, nos tornamos alvos fáceis destes espíritos pseudo-sábios e levianos, somos paralisados na razão e no julgamento.

Liszt Rangel é Psicólogo clínico, Jornalista, Historiador, Palestrante e Escritor com mais de dez livros publicados.
Perfil no Facebook.  Texto sugerido no grupo Espiritismo COM Kardec

​Não é de hoje, que o Homem exaltado pelo sobrenatural se permite seduzir pelas revelações do além-túmulo.

Envolto pelas crenças infantis, as relações que estabelece com o mundo dos mortos, enquanto desvenda-lhe os segredos de sua imortalidade, demonstra a sua incapacidade de transcender aos limites da matéria, o que o leva em muitos casos, a assumir uma postura reativa, materialista, baseada na impossibilidade de aceitar algo que lhe escape à razão cartesiana.

​Por outro lado, não faltaram os apaixonados pelo fenômeno que engrossaram as fileiras dos fanáticos e crentes piegas que se disseram mensageiros divinos, missionários do “Alto” e geraram uma grave neurose-obsessiva na sociedade, com ideias messiânicas e apocalípticas.

 

Líderes religiosos, indivíduos místicos com ideias excêntricas que se diziam acompanhados de vozes reveladoras, foram pessoas narcisistas e ególatras, outras eram esquizofrênicas e até algumas se tratavam de sociopatas que estimularam as massas ao abandono da razão.

​A imensa necessidade de se sentir infinito, imortal, reflete o medo de ser esquecido. Foi assim com os faraós egípcios e imperadores romanos. Esta necessidade ainda permeia nossas ações.

​Os espíritas, na opinião do ainda desconhecido Allan Kardec, são os que não deveriam temer a morte. As estreitas relações que estabelecem com o “País dos Mortos” facilitam-lhes a compreensão da vida em um sentido integral.

 

Sendo assim, eles compreendem que os espíritos são os mesmos que estiveram ontem no Egito ou na Grécia, ou também, atravessaram as noites medievais na Europa e são estes espíritos que continuam a ser hoje, na Pós-Modernidade, o que se tornaram ao longo da jornada.

​Os espíritos revelados, enquanto se revelavam aos crentes e não crentes foram profundamente estudados por Allan Kardec e a ele se apresentaram como o “Princípio Inteligente do Universo” (1).

Ao mesmo tempo, esclareceram que nada mais eram do que as almas dos homens que haviam vivido na Terra. Por isso, eles encontram-se como personalidades contínuas, em processo de crescimento intelectivo e moral.

São indivíduos que se constituíram com suas crenças e gostos, paixões e vícios, virtudes e desregramentos, ideias cristalizadas e traumas, preconceitos e pudores. Eles carregam suas queixas, seus medos, suas habilidades e talentos que conquistaram, enquanto estiveram na experiência carnal ou quando somavam lições no além.

Eles influenciam os que ainda estão presos ao corpo e se utilizam destes para manterem seus interesses, e assim, revelam-lhes a natureza evolutiva.

Os falsificadores de assinaturas e de obras de arte, os charlatães praticantes de curandeirismo, os lidadores da palavra fácil e arrebatadora que comove as massas sonhadoras e iludidas, ainda vivem! Nos cercam e estão entre nós, porém agem nas sombras!

Multiplicam-se em nosso meio, enquanto dividem a atenção do público para o burlesco e o místico, tomando os nomes de personalidades distintas e respeitáveis, que na opinião do Kardec, “quanto mais os espíritos são elevados na hierarquia, mais seu nome deve ser acolhido com desconfiança.” (2)

 

​Manifestam suas teorias fantasiosas e psicóticas, tomando como escudos, figuras como o admirável e humilde Chico Xavier e espalham o terror, através de revelações quanto ao futuro apocalíptico da Terra, difundindo pensamentos espetaculares de que o Brasil será fatiado, acolhendo os estrangeiros, e estes por sua vez, serão vítimas de calamidades na Europa, na Ásia e na África.

Disseminam absurdos de gestação e reencarnação na espiritualidade, e assim, semeiam a fascinação coletiva, através da ideia narcisista de que os espíritas serão os eleitos de uma Terra renovada, aonde espíritos de alta envergadura virão a ser nossos vizinhos.

É a mesma fascinação que envolveu no passado os judeus, os egípcios, os romanos e tantas outras civilizações. E todas faliram!

Também se divertem de nossa credulidade, apontando que este ou aquele companheiro espírita já desencarnado, foi a reencarnação de tal personalidade respeitada pelos adeptos do Espiritismo.

Este problema não passou despercebido de Allan Kardec quando afirmou que “certos espíritos, mais presunçosos do que lógicos, tentam às vezes, impor seus sistemas estranhos e impraticáveis, graças aos nomes venerados com que se adornam. O bom-senso logo faz justiça a essas utopias, mas até lá, elas podem semear a dúvida e a incerteza entre os adeptos.” (3)

 

Sendo assim, nós, adeptos dos Princípios Espíritas, que nos tornamos alvos fáceis destes espíritos pseudo-sábios e levianos, somos paralisados na razão e no julgamento, afastando com isso qualquer possibilidade de contato com mentes mais lúcidas que possam nos arrancar da trama de enganos em que nos enredamos e que ainda nos comprazemos.

REFERÊNCIAS:

(1) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos – Questão 23.
(2) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns – Capítulo XXXI, mensagem IX.
(3) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns – Capítulo XXIX, Item 349.

 

 


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