Flávio, obrigado por lembrar das crianças.

Com tantos vazios atuais, devemos ter a força direcionada ao futuro. 

Marcelo Henrique

Sim, são tantos os vazios… Em verdade, a Humanidade já vem dando nítidos sinais de “esgotamento”. São guerras, do íntimo ao exterior, que se manifestam, como que se, por muito tempo houvessem sido represadas.

A Natureza mostra sinais de esgotamento. Nunca se observou tantos cataclismas, e as destruições (materiais) que elas proporcionam, quando vêm.

Os relacionamentos humanos parecem minorados ante tantas “urgências”. E os dias transpiram curtos, para tantas atividades. Em muitos casos, também, o cérebro portátil, o celular, substitui afetos, desejos, buscas, realizações. Entretenimento fácil e plural, sem aborrecimentos. Ou quase…
Sim porque as redes sociais nos aproximaram – e nos distanciaram, contraditoriamente – das pessoas. Trouxeram para perto quem estava longe, quem não víamos “desde o colégio”, para nos afastarem diante da permanente incapacidade de entender o outro.

 

Pode ser o time do coração, o autor preferido, o artista que canta nossas dores e amores, o escritor ou filósofo que moldou nosso pensamento atual, o guia espiritual que nos atendeu nos maus momentos, o político em quem votamos, ou o ser que tanto amamos. Em sua defesa, não nos importamos de passar “por cima” de quem quer que seja… E com um “plus”: na vida real, não podemos (ou não conseguimos) esmagar o outro que, de nós, diverge e disputa. Na virtual, basta um clique para apagarmos totalmente, sem rastros, aquele que nos afrontava.

Estamos rodeados de gente, na tela ou na vida, mas continuamos solitários. Uma solidão amarga. Que brota da incompreensão de lidarmos com o diferente, o que nos demove das conhecidas e acalentadas crenças interiores. Seja a nossa fé, a nossa convicção, a nossa experiência, a nossa educação, o nosso raciocínio, o nosso amor, a nossa paixão. Não há espaço para derrotas!

 

Ainda que no castelo que erigimos em torno de nós, estejamos confortáveis – mas, nem tanto! – a rotina existencial nos força a disputar espaço com outrem. E lá se vai a nossa segurança, serenidade, equilíbrio, temperança e “aura” de bom moço. Estaremos desnudos! Que seja por instantes. E a fábula da perfeição – que estabelecemos, nós, ou que foram desenhadas por alguém ao nosso derredor – se esvai em segundos.

Tudo isto para falar da falência individual e coletiva a que estamos submetidos, não por capricho dos deuses, nem pelas forças de um destino inexistente, tampouco pela decisão de alguém que nos direciona ao cumprimento de deveres espirituais… Mas pelos efeitos de cada uma de nossas ações, pois não há nem algozes, nem culpados, nem salvadores, além de cada individualidade em relação a si mesma.

Quero falar de vida e morte. Ou de morte. Ou só de vida. Já que a morte não existe! Ou, melhor, nós matamos a morte. Desde o mito Jesus que venceu a morte e ressuscitou, na crença cristã, perguntamos, com o mesmo tom do adágio bíblico: – Onde está, ó morte, o teu aguilhão!

Precisamos dessa certeza, tal qual o ar ou a água, ou o repouso, ou o trabalho, ou o amor! Precisamos de tudo. Ou de nada. O que é o tudo, e o que é o nada?
Escrevo estas linhas com profunda tristeza e, ao mesmo tempo, com relativa esperança. Tristeza pelo mote de compor esta crônica tão ácida e áspera, ao invés de romantizar poeticamente como é do meu feitio e preferência, diariamente.

 

Migliaccio se foi! E deixou um bilhete-testamento para a Humanidade: “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje!”.

De pronto me lembrei de Nascimento, ao ser entrevistado no Maracanã, após o grande feito (milésimo gol no futebol): “Não quero festas para mim. Acreditem que para mim é muito mais importante ajudar as criancinhas pobres, os necessitados. Pensem no Natal. Pensem nas criancinhas!”.

Ah, as crianças… Sim, elas nos despertam o gesto de acolhimento, o dever de proteção, o sentimento de comoção. Mas as crianças crescem e se tornam adultos. E envelhecem.

Edson, o Pelé, passa por maus bocados. O dinheiro, os bens, o sucesso, as honrarias não duram para sempre. E não são suficientes diante de uma alma carente, faminta ou sedenta, seja de valores, seja de reciprocidade.

Flávio, o “seo” Chalita, amargou a idade aguda dos oitenta e cinco anos na solidão e na doença, após “cair o pano” das últimas aparições televisivas ou teatrais. E, no isolamento social destes dias, sem ver os colegas e amigos, sem gravar os esquetes de novelas ou séries, sentiu-se profundamente só e decepcionado.
E preferiu, ele mesmo, abrir o portal que conduz à imortalidade… Seu gesto, último e pungente só não é maior do que o libelo que escreveu. Acusatório. A si e aos demais seres similares. A nós e ao mundo que vimos construindo.

Volto os olhos para o país que, nas últimas décadas, tem sido o nosso cenário. Em que teatralizamos o “tudo bem” por algum tempo, para encenar, verdadeiramente, o martírio e a decadência de nossas relações. Aparências, nada mais, sustentaram nossas vidas (Márcio Greick).

As angústias desta “quarentena” que parece não ter fim e que pode, conforme os especialistas da área, alternar-se entre o retorno às atividades e novos isolamentos sociais, repressivos ou prudenciais, nos leva a uma viagem diferente. A viagem para dentro de si e o enfrentamento de nossos monstros íntimos. Aqueles que, por certo, aprisionamos por anos ou décadas. E que já julgávamos, como animais pré-históricos, extintos.

 

Eles reapareceram, mostrando o lado “fera” que ainda há em nós. Indômito, o animal tateia no escuro da perplexidade e da impotência para se perguntar: – Por que tantos vazios? Se puder, responda a si mesmo!

Que você encontre a desejada paz, Flávio!


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+ Marcelo Henrique