Heróis ou anti-heróis: Todos o somos!

Marcelo Henrique

“Deus se manifesta na natureza, abrange o todo e é crivado de opostos”, Heráclito de Éfeso.

Foge no tempo o instante em que conheci alguns personagens de ficção, em histórias de quadrinhos. Era a época em que os gibis eram, ao lado dos desenhos animados na TV aberta – porque não havia a multiplicidade de canais ou as diversas fontes, via internet, para acesso infinito a esta temática. Devia, eu, ter sete ou oito anos e foi na casa de um primo mais velho, que tinha muitos gibis. Eu também começava a ter os meus, da Disney, da Turma da Mônica, e de alguns super-heróis.

Meu herói favorito sempre foi o Batman. A riqueza dos detalhes, a tecnologia da BatCaverna e de todos os equipamentos do homem-morcego eram um visgo que atraía a curiosidade infantil. Depois, percebi os detalhes do sofrimento de Bruce Wayne, órfão em idade tão precoce e tudo o que isto representou na formação de sua personalidade.

Quanto mais me aprofundava na leitura das distintas histórias, mais fui conhecendo, tanto do personagem principal quanto dos vilões, variados, que ele enfrentava. Alguns de modo frequente, iam e vinham, em episódios diferentes, apresentando suas habilidades e sendo enfrentadas pela qualidade do homem-morcego.

Depois vieram os desenhos animados e os filmes, já muitos. Recentemente, acompanhei a série Gotham, exibida pela NetFlix, que também oferece contornos muito interessantes para os “mocinhos” e os “bandidos” da história ficcional. Um deles, em especial, parece ser o principal “inimigo” de Bruce: o Coringa. No cinema, já foram vários e diversificados os enredos e os atores que representaram este personagem. O mais recente, no filme que está, neste mês de outubro de 2019, em cartaz, nas “telonas”, o “Coringa” (Joker), é Joaquin Phoenix (cuja foto estampa o banner deste artigo).

É-nos, então, mostrado o personagem de forma desnuda, sem rodeios, com os contornos de sua vida pessoal e profissional e sua relação com os Wayne. Os dramas existenciais de Arthur Flack (vividos por Phoenix) têm origem numa infância violenta e desamparada, com a orfandade de pai e a insanidade da mãe. Toda a sua personalidade, que se alterna entre felicidade e infortúnio, sanidade e loucura, maus tratos e fracassos são estigmatizados em dois contextos do personagem: o apelido que sua mãe usa para a ele se dirigir – Feliz – e seus trabalhos como ator e pretenso comediante, vestindo-se de palhaço.

A violência moral e física a que se viu submetido durante décadas, assim como a dificuldade de se relacionar com outros além de sua genitora, irrompem, no filme, numa violência desmedida, seja contra quem lhe espezinha e maltrata, seja, depois, para com a sociedade, os políticos, os ricos e poderosos.

 

A personalidade humana – e, porque não dizer, a espiritual – são, como sabemos, na cátedra espírita, o somatório de todas as experiências e aprendizados. Uma a uma, as existências que se repetem, moldam o caráter e infundem no ser caracteres que o identificam. As habilidades de uma existência não se perdem no túnel das existências (reencarnações), muito pelo contrário, volta e meia são visíveis e presentes nas atuais vivências. “Somos quem podemos ser”, um refrão de uma canção popular brasileira, é a tradução da condição de protagonistas que somos em relação às nossas vidas – ou, pelo menos, é o que se espera que isto seja.

Coringa somos todos nós. Que alternamos bons e maus momentos. Que colecionamos situações de sucesso e fracasso, ventura e desventura, vitórias e derrotas, amores e ódios. Podemos ser heróis ou anti-heróis. A depender do contexto, das inter-relações, da forma como tratamos os outros e somos, por eles, tratados.

Quantos exemplos nos chegam, diariamente, de pessoas que venceram situações adversas, em que se encontravam literalmente no “fundo do poço” e construíram o “novo”, por suas próprias forças, recuperando-se moral, intelectual, espiritualmente? Quantas ressurgiram das “cinzas” e, quando todos já lhe davam como vencidas, reapareceram triunfantes? Quantas pessoas que nada tinham ou eram e que construíram um “império”, que não é representado, apenas, pelas questões econômico-financeiras, mas pela satisfação de serem o que são, hoje, independentes, livres e felizes?

Por outro lado, quantas há que sucumbiram? Que não tiveram a condição íntima de superarem humilhações e decepções, para reinventarem-se? Aquelas que desistiram de si mesmas, que estão, como zumbis humanos, perambulando pelas ruas, utilizando drogas pesadas, desistindo da condição mínima de existência humana, agindo como animais primitivos e selvagens? Quantas acabam sucumbindo e tirando a própria vida?

Os cenários que enfrentamos, neste mundo de “expiações e provas”, por vezes, não é muito favorável. Dos muitos testes que enfrentamos, dia após dia, figura a nossa disposição para os embates e a constatação do quanto estamos preparados para a luta “contra” nós mesmos – representada, esta, pelas mazelas de nossa (ainda) inferioridade moral: os vícios de personalidade, de conduta, as visões parciais e imperfeitas em relação à vida e ao mundo. E, ao lado dos testes, as oportunidades de reencontro com antigos personagens de nossas trajetórias, em que há “fios desencapados” que precisam ser “consertados”.

O pano de fundo do filme “Coringa”, assim como é o sorriso. O sorriso do menino Arthur, que, dito por sua mãe, teria vindo ao mundo com uma sentença: ser “aquele que nasceu para fazer rir e trazer alegria”. O local onde ele trabalha se chama “Haha’s” e tem como slogan “coloque um sorriso nessa cara”. Na sequência das muitas cenas, um imperativo é constante: o dever de felicidade, a ode à alegria, a indispensabilidade do riso… A tudo isso, Arthur vai obedecendo, quase que cegamente. As piadas que escreve são muito ruins, mas ele continua insistindo, em seu sonho de ser um famoso comediante, como os que vê na TV em preto e branco, nos talk-shows americanos. E sua “missão” de palhaço contrasta e se confunde com sua risada incontrolável, o distúrbio neurológico de que sofre.

A loucura de Arthur se confunde com a de sua mãe, principalmente pela rejeição a que esta última sofreu, em função de sua própria enfermidade. E ele escreve em seu carcomido e desgastado caderninho de anotações – onde figuram seus planos de comediante e suas piadas – a frase que revela muito mais de sua essência: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não tivesse uma”. Triste, não?

A doença levou o personagem à criminalidade, o que não quer dizer que os outros “loucos” ajam da mesma maneira. Na diretriz espírita, temos as sucessivas advertências dos Espíritos Superiores, levando Kardec a afirmar: “reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelos ESFORÇOS que faz em DOMAR suas MÁS inclinações”.

O que é verdade e o que é delírio em nossas vidas? Até que ponto a fantasia se funde com a realidade, e vice-versa? O que distingue os sonhos do mundo real?

Arthur sou eu, Arthur é você, somos todos nós! Em nossas “loucuras”, projetamos coisas irrealizáveis, assim como propomos, a nós mesmos, o sucesso na forma de atitudes. Nem tudo depende apenas de nós mesmos. Há várias contingências dentro dos cenários e roteiros do dia-a-dia. A questão não é, tão-somente, a delimitação (necessária) entre o imaginário e o real, mas a forma com que lidamos com aquilo que não está (ainda) ao nosso alcance de realizações. E como trabalhamos, em nós, com as frustrações, as derrotas, os fracassos e a incompetência (maior ou menor) de sermos mais e melhores, em todos os sentidos.

As neuroses, as psicoses, as loucuras do cotidiano estarão sempre presentes. Somos loucos porque sonhamos? Somos loucos porque acreditamos? Ou somos loucos porque queremos subverter a ordem posta e ousar agir diferentemente daquilo para que fomos “trabalhados” ou em relação àquilo que os outros esperam de nós?

Somos heróis ou anti-heróis? Responda por si mesmo…


Continue no Canal
+ Marcelo Henrique Pereira