Hipóteses

Por Manoel Fernandes Neto

Quinhentos anos. Nem mais, nem menos. Disse de forma natural, na sabedoria de seus 7 anos, ou mais. Era o tempo de vida que desejava para o pai. No café da manhã de sábado, ela de fato decretou. E ele compreendeu o significado. Aos 52, lembrou-se dos próprios temores noturnos infantis. Dos olhos estatelados pensando no sofrimento diante da possibilidade desta ausência. A morte, um lugar vazio para todos, mas assustador quando vai o pai ou a mãe. E a gente imagina ficar sozinho.

Mas isso é um tempão, explicou para ela. Ela confirmou que era isso mesmo. A brincadeira por aí caminhou; imaginou então que ela teria 455; uma graça: dois velhinhos, pai e filha. Mas ele também aproveitou e disse que era imortal. Lembrou que o que morria era somente a matéria, o corpo; ele sempre falava do mesmo assunto. E que era certo que os dois tinham, cada um, muito mais de 500 anos, com a mesma consciência, individualidade, chamada de alma por algumas crenças, e espírito imortal por outras, como a dele.

Ela não se impressionou. Nunca se impressiona quando o assunto são espíritos, renascimentos, ação e reação. Regularmente ele sempre dá alguma aula sobre o assunto. Já fizeram teatrinho sobre o mundo espiritual, com papeizinhos colados nas portas do apartamento indicando vários locais que possam existir em outros planos: departamento de reencarnação, escola, hospital, até parque de diversão para espíritos brincalhões. E também já procuraram espíritos no escuro, com lanterna e tudo, embaixo da cama, na área de serviço, no banheiro.

Ele sabe que tem gente que somente considera a hipótese do materialismo. Nada contra, pensa. Recentemente leu um artigo em que o filho pergunta sobre Deus. E os pais, agnósticos, explicam de uma forma bem bonita que nem todo mundo acredita nesta força superior, causa primária de todas as coisas. No texto, ficava bem claro que não era a crença ou não na Divindade que tornava as pessoas boas ou ruins. Para isso, o que importava era a atitude pessoal de cada um, ao definir que um ser humano, uma planta, um animal, uma pedra ou um inseto merecem respeito e gentileza.

No dia em que ela decretou os 500 anos, pensou nas suas hipóteses passadas. No fanático que assassinava sem piedade, no indiferente diante da dor alheia, no despudorado que abusou da confiança da multidão. Mas também considerou a hipótese do arrependimento, do choro compulsivo, do mergulho interior para a busca de entendimento, estudo e compreensão.

Ele também já ensinou ela a investigar. Foram caminhando até a padaria, em um sábado à tarde. Coletaram tampas de garrafas, folhas e até uma peça pequena da porta de um carro. Em casa, fotografaram e trabalharam no sistema de reconhecimento de imagens do Google e em livros e publicações na estante repleta. O objetivo era encontrar tipos similares, procurando descobrir o que era cada peça. Pesquisar é legal, disse ela com alegria.

Também ela achou bacana a história de que, de tempos em tempos, ganhava outro corpo, na lei da reencarnação. Quero ser alta como a minha irmã, disse, determinada. Foi compreendendo com facilidade o significado de ter 500 anos. Ou mais. Tanto que já vivemos!, exclamou solene. Especulou: sempre fomos pai e filha? Ele explicou que os papéis mudavam. Poderiam ter tido papéis trocados, ou cada um pelo menos uma vez, mãe, paciente e adorável. Como a minha, disse feliz.

Por fim, ela perguntou como ele sabia de tudo isto. E ele disse que várias evidências, comprovações, pesquisas e experiências teriam lhe trazido esta convicção. Mais uma hipótese?, ela provocou. E ele na experiência de mais de 500 anos afirmou sem medo e sem dogmas: mesmo desta forma, valeu a pena vivê-la contigo no dia hoje!

Ela sorriu e também compreendeu.

 

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