I see dead people


É inevitável: Basta falar sobre contatos com além e logo vem à mente a frase “eu vejo gente morta”(tradução de I see dead people) que entrou para a galeria de citações cinematográficas graças ao filme O Sexto Sentido (The Sixth Sense), de M.Night Shyamalan. Lançado em 1999, o filme conta a história de um pequeno Cole Sear, interpretado pelo hoje não tão pequeno Haley Joel Osment. Cole recebe o apoio do Dr. Malcom Crowe (Bruce Willis), pois não consegue se entrosar no colégio justamente por ser considerado louco. Cole, enfim, conta seu segredo para Malcom, que como todo mundo já deve saber, é uma das “gentes mortas”que o garoto enxerga. Malcom ajuda Cole a aceitar seu dom e utilizá-lo para auxiliar ao próximo. Cole não sabia, mas estava entrando na categoria dos médiuns profissionais.

PROFISSÃO MÉDIUM

O que James Van Praagh, Sylvia Browne, Allison DuBois, Laurie Campbell, Sezanne Northrop e Catherine Yunt têm em comum? O fato de todos eles serem médiuns profissionais. Ou seja, quando preenchem um formulário qualquer, no campo “profissão”eles escrevem “médium”. Isso é muito comum nos Estados Unidos. DuBois escreve em seu livro Não é preciso dizer adeus (Ed. Sextante) que, mesmo tendo o dom mediúnico, você não é “obrigado a se profissionalizar”e também afirma que ela aprendeu a estabelecer “limites pessoais em uma profissão”da qual ela sabia muito pouco.

Todos juram de pés juntos que não usam a mediunidade para ganhar dinheiro. Falam em caridade, fazem contribuições aos necessitados, sonham com um mundo mais justo. O dinheiro vem dos livros que vendem, das palestras, entrevistas e das consultorias que fazem. E dos programas de televisão. Os livros, as palestras, as entrevistas. Os livros, as palestras, as entrevistas e as consultorias são sobre mediunidade, claro, Van Pragh e DuBois, inclusive, são as fontes inspiradoras dos seriados de TV Ghost Whisperer e Médium, respectivamente, e fazem consultorias destas séries.

A policia estadunidense e as agências de investigação costumam lançar mão de “investigadores paranormais” para resolver casos de difícil solução. Supostamente, os “paranormais”são capazes de localizar pessoas desaparecidas ou identificar um individuo que tenha cometido um crime no passado. Eles usam técnicas como a psicometria (entender uma pessoa tocando nela ou em algum objeto que pertença a ela), numerologia (leitura “paranormal”a partir de números como data de nascimento) ou técnicas rabdônicas (usadas para procurar coisas desaparecidas através da ondulação de varas ou instrumentos perto do chão), entre outras.
As habilidades mais comuns dos detetives psíquicos incluem a clarividência e a capacidade de ouvir pensamentos de pessoas vivas e Espíritos na forma de vozes, sons e música. Entretanto, há muitas críticas aos detetives paranormais pois, até agora, não há nenhuma evidência documentada de um único caso solucionado com sua ajuda. Em grandes casos, a polícia recebe centenas, as vezes milhares, de dicas de médiuns em busca de notoriedade. Só que a realidade costuma ser um bocado diferente da ficção. Dicas mediúnicas são, via de regra, vagas e imprecisas como: “ela está num lugar com muita água”(praia, rio, piscina, caída d’água??) ou baseadas no que a imprensa já sabe, o que não quer dizer muita coisa.

Allison DuBois, no entanto, afirma que colabora em desvendar muitos crimes e localizar pessoas desaparecidas.
Segundo Benjamin Radford, um dos editores da revista Skeptical Inquirer, especializada em investigar paranormalidade, porém, que se deu ao trabalho de checar a informação, todos os departamentos policiais citados pelo site dela e da série Médium negaram ter utilizado os serviços de DuBois ou de qualquer outro médium. Modestamente refizemos a checagem das fontes, e, realmente, todos os departamentos de polícia citados negam qualquer colaboração. Para Allison, a polícia têm muita dificuldade em diferenciar médiuns legítimos dos charlatães e acusa os que se passam de paranormais com a intenção de obter ganhos financeiros e ensina: evite o médium que tente lhe vender qualquer coisa. Mas ela não fala de livros ou programas de televisão.
Allison também alega ter implantado o sistema Amber Alert, no estado do Arizona. O site oficial não confirma tal informação. É preciso esclarecer que tentamos contatar Allison, mas não tivemos nenhum retorno dela, nem de sua assessoria, nem, mesmo, de seus guias espirituais…

EQUÍVOCOS PERIGOSOS

Mas estes não são os únicos problemas na carreira de Allison. Lendo seu já citado livro Não é preciso dizer adeus ou o outro, Médium – Por que os Partiram Nunca nos Deixam?, vamos encontrar equívocos na análise de temas como suicídio ou pena de morte, por exemplo. No primeiro caso, Allison nega a informação de que os suicidas “vão para o inferno”. Ok, sabemos que o inferno não existe, mas poderia ela estar falando de um lugar figurado? Algum tipo de penitência? Não. Allison afirma, do alto de seu vasto saber, que os suicidas não são considerados responsáveis pelo “poder superior”, pois eles não tem controle sobre este “desequilíbrio biológico, químico”. Já com relação à pena de morte, Allison chama de “final feliz” a condenação de um assassino à pena capital. Allison via a vítima e fez amizade com o filho dela. É curioso que nenhum Espírito ligado ao assassino tenha se manifestado, conclamando o perdão e misericórdia.

Contudo, animais domésticos se comunicam do além com seus donos que aqui ficaram. Allison seria uma espécie de “Dr. Dolitlle”mediúnico. Ela também acredita que nem todas as pessoas têm algo de bom dentro de si, que o bem não seja inerente às pessoas. E invoca Espíritos com hora marcada, fazendo o telefone tocar “daqui pra lá”quando bem entende e contradizendo, portanto, Chico Xavier.

Allison também dá orientações de como desenvolver a mediunidade em crianças, ao contrário do que lemos em O Livro dos Médiuns, aonde aprendemos que pode até ser “muito perigosa”tal prática. Mas Allison nunca leu O Livro dos Médiuns e desconhece que somente após o surgimento desta obra, a mediunidade passou a ser utilizada de forma coerente, permitindo contatos cada vez mais proveitosos com o mundo espiritual. Nenhum dos médiuns citados neste artigo fala em religião. Nada de Espiritismo. E somente Van Praagh acredita na reencarnação. Allison reclama de que a descoberta e aceitação de seus dons foram retardadas pela ausência de modelos em que se espelhar. Se procurasse um pouquinho mais, quem sabe no Google, ela se depararia com O Livro dos Médiuns, que, como bem o disse Pedro Camilo na Universo Espírita 63, até hoje serve como orientação segura e insuperável.

RATOS DE LABORATÓRIO
Gary E. Schwartz é Ph.D em psicologia, matéria que leciona nos departamentos de Medicina, Neurologia, Psiquiatria e Cirurgia na Universidade do Arizona. Gary é o Diretor do Programa de Investigação VERITAS da Human Energy Systems Laboratory no Departamento de Psicologia da Universidade do Arizona e ficou mundialmente famoso por suas pesquisas acadêmicas sobre a vida depois da morte, envolvendo médiuns profissionais, utilizando protocolos e metodologias científicas para medir os resultados das comunicações de além-túmulo. Médiuns são seus “ratos”e, ente eles, Dr Gary conta com as já citadas Allison DuBois, Laurie Campbell e Catherine Yunt, entre outros.

O médico acredita que a ciência é uma forma de se conhecer e compreender Deus. Ele também prevê benefícios científicos, sociais e religiosos com a adoção da mediunidade e dos contatos com além e adota uma postura de recusar uma idéia até que tenha executado uma “penca”de testes que comprovem o valor científico da mesma. Algo como recusar dez verdades antes de aceitar uma única mentira.

Sua pesquisa não é inédita, pois no final do século 19, Stanley Hall e Amy Tanner já investigavam Leonora Piper (1859-1950), uma das mais famosas médiuns dos Estados Unidos, com o mesmo objetivo. Mas a Sra. Piper tinha ligações com Espiritismo e converteu a maioria de seus investigadores à Doutrina.

Ocorre que o Dr. Gary derrapa feio em suas pretensões e compromete seu diploma de Ph.D ao acreditar na estapafúrdia teoria das crianças índigo. E os médiuns-ratos de laboratório, como sabemos,não tem vínculo religioso. Exceto um padre católico médium que, segundo Allison DuBois, acha que suas crenças se alinham com o que está escrito na Bíblia. O padre não acredita em inferno, acha que os suicidas vão para o paraíso direto, sem escalas, e acredita na comunicação além-túmulo, pois Jesus apareceu para as pessoas depois de morto. O Vaticano se mostrou muito interessado em conhecer tal padre, mas DuBois não revela seu nome. Quanta ingratidão! Aliás, esta parece ser outra característica de Allison: Depois de tanto tempo com o Dr Gary, eis que a ingrata reclama que o venerável doutor ganha muito dinheiro às custas dos médiuns que participam de suas experiências, utilizando-os como uma espécie de propaganda para suas pesquisa. Percalços da profissão.

Mas Allison tem seus momentos de triunfo afinal. Quando a série Médium começou a ser produzida, Patrícia Arquette, atriz que interpreta a médium na série, não acreditou na previsão de Allison de que ganharia um prêmio pelo papel. Mais dois anos depois, Arquette conquistou o Emmy de melhor atriz. Arquette agradeceu àquela que, ao final de um de seus livros, admite gostar da luz dos holofotes e dos aplausos, considera-se muito famosa, não pretende pedir desculpas por ser quem é e quer se tornar um pouco mais sábia a cada ano. Para começar poderia ler O Livro dos Médiuns, item 228. Antes que você consulte seu exemplar, adiantamos o que diz Kardec:”Todas as imperfeições morais são outras tantas portas abertas ao acesso dos maus Espíritos. A que, porém, eles exploram com mais habilidade é o orgulho, porque é a que a criatura menos confessa a si mesma. O orgulho tem perdido muitos médiuns dotados das mais belas faculdades e que, se não fora essa imperfeição, teriam podido se tornar instrumentos notáveis e muito úteis(…)”.

Tornada “profissão, uma das mais importantes faces da mediunidade – a prática da caridade e do amor para com o próximo, indispensável ao bom desenvolvimento da faculdade e garantia de seu desenvolvimento em bases sólidas – se perde e se mistifica". A utilização empírica da mediunidade faz com que os “profissionais”do ramo deixem de lado o exame lógico das questões e saiam a opinar sobre tudo, sem levar em conta que tal faculdade deve ser orientada, de forma lógica e racional. A mediunidade além do Espiritismo deixa claro que é um fenômeno por matéria a ser observada, mas que necessita da Doutrina como fonte de luz que a esclareça.

GEORGE DE MARCO é publicitário e radialista. Realiza atividades como expositor e educador de mocidade na seara espírita.

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