Jovens não precisam de conselhos

Por Manoel Fernandes Neto

 

Fique alerta caso você tenha mais de 50! Suas décadas vividas podem ser um amontoado de informações desconexas…

“Jovem não precisa de conselho, mas de memória”, disse uma vez um amigo, já em idade avançada, após décadas de esforço e trabalho na sua paixão e carreira: a marcenaria. Não cansava de explicar, aos interessados, que dar conselhos excessivos aos mais jovens era uma “tremenda balela”. Afirmava que foram os erros que o moldaram durante toda a vida presente, não os acertos. Os jovens não poderiam ter medo de errar.

Reencarnacionista, o velho marceneiro dizia que a juventude é uma continuação do que já foi vivido; assim, quando estava na presença de jovens, mais ouvia, interessado, do que falava, doutrinador. Quando o fazia era para plantar uma boa memória, despertar um sorriso, contar um erro crasso, um equívoco; lançar algo tão despretensioso ao vento, capaz de alcançar grandes distâncias no tempo. “Repetir que é ‘assim ou assado’ é rabugice; a partir do segundo conselho, o jovem só finge escutar”, ele dizia.

Estar jovem é movimento e (re)descoberta. Rubem Alves, em uma bela crônica de 1991, “Alegria”, fala da velhice e de como adiamos nossa felicidade porque estamos presos a regras, a normas, a conselhos, a chatices que criticávamos quando éramos jovens, mas os utilizamos como cantilena cansativa para nossos filhos, sobrinhos e netos.

Ser velho não é ser sábio automaticamente, lembra Alves. Cita o falso poema de Jorge Luís Borges, mais verdadeiro do que nunca: “Se eu pudesse viver de novo a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido.”

 

Uma memória da juventude pode valer muito mais para um jovem do que uma conta bancária recheada..

Espalhar memórias

Portanto, fique alerta caso você tenha mais de 50! Suas décadas vividas podem ser um amontoado de informações desconexas que você pensa que é sabedoria, mas é um lixo destrutivo de pseudoverdades mofadas e você é alguém que se nega a admitir que todos os seus manuais estavam errados.

Alves, com sua poesia, celebra a contramão do conselho tradicional aos jovens, que é pensar no futuro, segundo o escritor, uma inverdade:

“Velhice é quando se percebe que não existe no futuro nenhum evento portentoso por que esperar, como início da felicidade. Mas isto não será verdadeiro da vida inteira? Por isso, talvez, os jovens devessem aprender com os velhos que é preciso viver cada dia como se fosse o último.”

Uma memória da juventude pode valer muito mais para um jovem do que uma conta bancária recheada, boas aplicações na bolsa, o último negócio bem feito no mercado imobiliário, ou aquela forma “responsável” de lidar com o dinheiro.

Tenho na memória um senhor alegre, mesmo em seus últimos anos de vida de poucos bens materiais, ou nenhum, mas com uma felicidade interior de ver o seu filho formado jornalista. Tenho na memória uma senhora esgotada pela luta, mas feliz com as poucas coisas materiais que tinha e de todos os filhos tão bem criados. Tenho na memória um senhor que, mesmo com o céu escuro, sorria autenticamente e uma senhora que mesmo quando a terra tremia fazia questão de que todos estivessem na mesa sorrindo e experimentando seus quitutes. Eles sabiam e espalhavam memórias, evitavam conselhos.

Reino do psiquismo

O que se leva quando se vai deste mundo?

Diante das leis cósmicas universais, seja lá o nome que você dê a isto, o material é relativizado. E deve ser assim, porque você não leva para qualquer outro nível vibracional nada, além de valores psíquicos. E se estes valores estiverem excessivamente ligados à matéria, ao barro, é ali que você construirá seu reino. Não, não é nenhuma linguagem religiosa. É experimento comprovado no laboratório da vida, por todos que abriram o próprio coração e se divertiram com os próprios tropeços, tornando seu pensamento imune a decepções.

 

Sofrimento como libertação é tão falso como conselhos para jovens.

Andrei Moreira, em “Cura e Autocura”, fez um trabalho esplêndido para quem quer se aprofundar no conhecimento interior. Na página 74 diz:

“O pensamento, sendo onda de energia sutil, em associação com o sentimento, plasma na realidade etérica a natureza dos interesses e preocupações do ser, seus sentimentos e fixações, na forma de criações mentais, formas-pensamentos, parasitas astrais, conforme a natureza da criação, que habitam em torno do seu foco de origem, fazendo com que cada indivíduo esteja permanentemente rodeado pela representação das coisas, objetos, pessoas, interesses e intenções que povoem o seu campo mental e sua vida íntima.”

Com certeza, conscientemente ou não, o velho marceneiro sabia disto. Não existe experiência que tenha mais valor do que um regozijo, por pior que seja a situação; a busca do prazer e de momentos de júbilo não pode tornar-se uma arma, um atentando que traga vantagens para o excesso de disciplinas vazias. Não estamos aqui para pagar erros; sofrimento como libertação é tão falso como conselhos para jovens. Ser casto não é promessa de paraíso. Ser um asceta não garante a redenção.

Seja lá o Deus no qual você acredita, ele proclama a felicidade, senão não seria Deus. O velho marceneiro nunca dava conselhos a jovens. Mas falava do enxó, uma ferramenta antiga, usada para dar os acertos iniciais nas arestas da madeira. O marceneiro dizia: “Há tempo de usar o enxó, como há tempo de usar o formão ou a plaina, ou mesmo uma simples lixa.”

Conselhos em rede

Este conhecimento das fases necessárias para o aprimoramento do Espírito e sua convivência com o entorno é a pedra angular da caminhada, a cada vida na matéria, ou mesmo no mundo astral. Nada se perde, em erros ou acertos. Estamos a todo momento tomando decisões, ajustando rotas; conectados, tudo com todos;  o que deve ser feito com entusiasmo, que literalmente significa Inspiração ou presença Divina.

É isto que a juventude deve encontrar nos mais velhos: vibração positiva, não cobranças e conselhos em excesso. Sintomático, o Facebook, a maior ferramenta de relacionamento social do mundo, está sendo abandonada pelos adolescentes de 16 a 20 anos. Motivo: a chegada de pais e mães na solicitação de “amigos”, que no fundo é monitoramento de cada ato ou postagem de seus filhos.

A maioria dos pais não quer mais lembrar de uma canção de Taiguara, “Universo do seu Corpo”, em que o poeta fala de sua decepção para todos os lugares que olha:

Eu desisto
Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
E uma gente que não viva só pra si
Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi
Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor

Mas o poeta sabe que somente o corpo da amada pode libertá-lo:

Vem, vem comigo
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem em versos a canção
Em que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante amigo em minhas mãos

 

Gostamos de amor e sexo, erramos, contamos piadas, sabemos surpreender.

“Nadar pelado”

Despertar o sentimento de estranheza construtiva em relação aos mais velhos, arrisco que é disto que os jovens precisam.

Eles devem ter na memória que gostamos de amor e sexo, erramos, contamos piadas, sabemos surpreender. Os jovens que nos rodeiam devem ter na memória que gostamos de nadar nus, que às vezes bebemos demais, ou gastamos demais. Ter na memória que um pai só é pai quando arrisca além do razoável, e um avô só é avô quando anda na chuva sem medo de resfriado. Isto é memória, sem conselhos, sem cobranças.

Na última memória que tenho do marceneiro ele acenou com a mão, pedindo que eu entrasse na casa com pintura desbotada e vegetação tomando todos os lugares. Estava na varanda, pés no chão, rosto muito enrugado, olhos escondidos sobre pálpebras pesadas.

– Vai para qual direção?
– Como assim?, perguntei na minha ignorância.
– Saber a direção é o sentido da vida.
– Qual é a melhor?, provoquei.

Ele demorou a responder, como se o tempo tivesse deixado de existir, ou estivesse acontecendo de forma diferente. Mas disse, enfim:

– A direção de sempre.

Ele levantou-se em silêncio, foi em direção ao jardim, pisando em pedras e folhas, agachou-se e deu início a cuidados concentrados em um grupo de plantas e flores. Arrumou pedras, ergueu um arbusto caído, redistribuiu a terra. Tudo sem pressa, de uma forma cadenciada, misturando suas mãos calosas com o barro e mantendo a cabeça nos céus.

Fiquei o resto da tarde ali a saborear a ultima memória do velho marceneiro. Lembrei-me do Frei Betto, em um livro que escreveu junto com Leonardo Boff, “Mística e Espiritualidade”:

“O zen-budismo tem um método de concentração muito interessante, que é fazer cada coisa com o máximo de atenção nos detalhes. Para o zen-budista, pegar um copo d’água é uma liturgia, um rito: pôr a água, sentir a água, levar o copo à boca, sorver a água… Tudo isso é cheio de significado, de cuidado, e nos faz ter outra relação com a vida, com os objetos, com as coisas.”

São memórias que tenho, muito mais profundas que os conselhos que ouvi.

 

Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião da Casa Espírita Nova Era.


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