Ler é transformar

Por André Azevedo da Fonseca

Paulo Freire (1921-1997) desenvolveu uma epistemologia da leitura que tenho procurado aplicar na praxis pedagógica com meus alunos de Comunicação Social na Universidade de Uberaba (Uniube), em Minas Gerais. Para compreender com clareza o complexo raciocínio freireano, enfrentei com seriedade grande parte de suas obras teóricas e dialógicas para desenvolver o estudo “O método Paulo Freire no ensino de Jornalismo”, apresentado em abril deste ano no 8o Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, realizado pela Universidade Federal de Alagoas, e em maio no 9o Colóquio Internacional da Escola Latino-Americana de Comunicação (Celacom), realizado pela Cátedra Unesco da Universidade Metodista de São Paulo.

Estou convencido que a perspectiva do educador pernambucano tem potencial revolucionário muito apropriado ao atual contexto histórico da educação brasileira. Ao superar a dicotomia entre conceito e realidade, teoria e prática, a dialética freireana é necessariamente uma convocação para que os estudantes se comprometam com a transformação social a partir dos conhecimentos que desenvolvem em sala de aula. E um dos pilares dessa pedagogia são as reflexões a respeito do conceito de leitura.

Primeiramente, para Freire, um texto jamais deve ser lido com a ligeireza e a displicência daqueles que acreditam que o conhecimento é um processo meramente acumulativo. Ele defendia que um palmo de leitura não significa necessariamente um palmo de conhecimento. Textos devem ser enfrentados com seriedade, com rigor. Aprender é um processo muito mais profundo, complexo e intenso do que a simples memorização mecânica de informações descoladas da realidade. Essa memorização leva apenas ao que Freire chamava de “verbosidade”, de “palavra oca”. Conhecimento é outra coisa.

Assim, ele defendia que só lemos verdadeiramente um texto quando o reescrevemos, quando reconstruímos as idéias do autor com nossas próprias reflexões. A leitura plena da palavra ocorre na medida em que nos tornamos co-autores das idéias impressas nos livros. Um bom leitor é aquele que desafia cada parágrafo, que mastiga, digere e metaboliza os conceitos, reinventando-os criativamente e aplicando-os na construção de novos conhecimentos. Essa atitude requer persistência e coragem de pensar. Dessa forma, enfrentar um bom texto com seriedade vale muito mais do que ler dezenas de livros de forma automática.

Mas Freire aprofundou ainda mais o conceito de leitura. Para ele, não lemos apenas as palavras, os textos e os livros. Lemos o mundo, a cidade, as pessoas. A sociedade é um texto que exige uma alfabetização conscientizadora para que possa ser lido com criticidade. E além disso, Freire observava que a leitura da realidade precede a leitura da palavra. Aprendemos a ler o mundo antes mesmo de decodificar os sinais gráficos das letras. Assim, ler o mundo é tão importante quanto ler a palavra. Na verdade, um não está dissociado do outro. São dois momentos que se dialetizam no ato de pensar.

Freire defendeu ainda que não é apenas na escola que se estuda. Estudamos as questões concretas no dia-a-dia, buscamos soluções para problemas reais que nos desafiam, e isso também é estudar. Um sujeito que observa a correnteza de um rio para calcular o tipo de isca mais adequado ao anzol está estudando. O garoto que observa a movimentação de um formigueiro para verificar a iminência da chuva também está estudando. É um equívoco, para o educador pernambucano, dizer que só se estuda na escola.

Prosseguindo o raciocínio, o fato é que se um texto só pode ser lido se o reescrevemos, assim também ocorre com a leitura da realidade. Ou seja, ler a realidade é reescrevê-la. E reescrevê-la significa transformá-la. Isso quer dizer que, epistemologicamente, só estamos sendo bons leitores de mundo se estamos transformando esse mundo. Não basta apenas memorizá-lo. A memorização não é aprendizagem, não é conhecimento. É preciso transformar para conhecer.

Freire dizia que nós, homens e mulheres, não somos um reflexo da realidade; mas sempre uma reflexão sobre ela. E a teoria não é algo à parte, distante da vida material; mas é uma luz que deve incidir sobre a prática cotidiana para nos faz enxergar melhor suas estruturas concretas. Para que o “ciclo gnosiológico” (ciclo do conhecimento) se realize, é preciso ler e reelaborar o lido, estudar e refazer o estudado, apreender e reaplicar o aprendido, observar e intervir no incessante processo de transformação social, assumindo humanamente a vocação de sujeitos históricos, inacabados, e por isso mesmo em constante transformação. Dessa forma, reinventar o mundo, pronunciá-lo com “palavras grávidas de realidade”, é a própria condição de sua leitura. Somente transformando a humanidade, que criamos e fazemos parte, é possível conhecê-la com profundidade.

E é por tudo isso que a leitura jamais pode ser entendida como um mero momento de memorização. Ler é transformar.

André Azevedo da Fonseca é jornalista, pesquisador e professor do curso de Comunicação Social na Universidade de Uberaba (Uniube). É membro do Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba e coordenador do Memorial Mário Palmério. Endereço eletrônico: http://azevedodafonseca.sites.uol.com.br

05.2005

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