Maria Madalena – O apóstolo Esquecido

[Por Paulo Henrique de Figueiredo]

Documentos autênticos do 1º século relatam uma narrativa ignorada da vida de Jesus. Os textos igualam a mensagem do Cristianismo primitivo à Doutrina Espírita. E Maria Madalena ressurge como verdadeiro apóstolo. Há uma nova história do mundo para ser contada.

Nem todos os cristãos contemporâneos de Jesus compreenderam sua mensagem de liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo entre os apóstolos havia controvérsias. Foi difícil para eles compreenderem as novas idéias cristãs, pois estavam condicionados pela religião e costumes judaicos. Um exemplo é quando Paulo, Pedro e Tiago tiveram fortes discussões e uma clara rivalidade sobre a obrigação de todo cristão fazer ou não a circuncisão, prática obrigatória entre os judeus. Alguns cristãos ensinavam na Judéia: “Se vós não receberdes a circuncisão, conforme a lei de Moisés, não podereis ser salvos” (Atos, 15:1-2). Paulo negava com veemência essa falsa interpretação: “Pois em Cristo nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a fé animada pela caridade” (Gálatas, 5:2-6). Tiago defendia abertamente a circuncisão, Pedro ficou em discussões calorosas entre eles que a posição firme de Paulo se estabeleceu.

As mulheres do Cristianismo

Foram revolucionários para a época, os ensinamentos de Jesus. O tratamento que ele dava às mulheres era inaceitável para muitos. As seguidoras de Jesus, não se limitavam a fazer comida, a carregar água e a servir aos homens, como era de hábito, elas ensinavam, debatiam a compreensão dos ensinamentos e até serviam de médiuns para as instruções dos Espíritos. Há uma tradição, apoiada nos próprios Evangelhos bíblicos, de que Maria Madalena não foi uma prostituta arrependida, mas sim, que ocupava uma posição semelhante a dos apóstolos Pedro, João e todos os demais. Ainda hoje a Igreja Ortodoxa Oriental oficialmente considera Madalena o “Apóstolo dos Apóstolos”, uma mulher com atuação mais relevante que os doze discípulos homens.

Naquela época, as mulheres não podiam servir de testemunha nos tribunais de justiça. Mas Jesus escolher exatamente Madalena para ser a única testemunha e sua volta em Espírito depois da morte. Ela foi a eleita para levar essa notícia aos discípulos. Informação das mais importantes, pois era a prova da vida após a morte – a história está descrita nos quatro relatos do Novo Testamento – Maria Madalena teria um papel importante ao lado de Jesus, como discípula esclarecida, e a mais amada.

Os ensinamentos libertários de Jesus foram sendo deturpados e perdidos com o passar dos séculos. A interpretação original do Cristianismo, conhecida por gnose (conhecimento), foi sendo substituída por dogmas, mantidos por uma estrutura hierárquica poderosa: a Igreja Católica. No final do 1º século e início do 2º, ganhou força a idéia de que a Igreja era uma instituição e que essa instituição consistiria essencialmente no colegiado dos seus líderes. Esse grupo optava por uma versão onde os padres seriam intermediários exclusivos entre Deus e o povo. No lugar da liberação pessoal – conquistada pelo próprio ser humano nas vidas sucessivas – imagina-se um julgamento divino decidindo a salvação coletiva, e o destino futuro na eternidade do céu ou do inferno. Por esse caminho, como mediadora da salvação, a Igreja tornava-se um instrumento de dominação do povo.

Eliminação dos contrários

Quaisquer divergências eram duramente reprimidas. Com o tempo, a interpretação Católica do Cristianismo, marcada pela cultura patriarcal e pela centralização do poder, eliminou os vestígios da diversidade de interpretações do Cristianismo Primitivo – cuja gnose era uma das vertentes aceitas. “Os autores sacros nada mais conseguiram do que girar dentro do mesmo círculo, produzindo apreciações pessoais, com seus pontos de vista. Pertencendo ao mesmo partido, tiveram todos de escrever no mesmo sentido, senão nos mesmos termos, sob pena de serem declarados heréticos, como o foram Orígenes [185-254] e tantos mais. Naturalmente, a Igreja só incluiu no número dos seus pais os escritores ortodoxos, do seu ponto de vista; somente exaltou, santificou e colecionou aqueles que lhe tomaram a defesa, ao passo que repudiou os outros e lhes destruiu quanto pôde os escritos. Nada, pois, de concludente exprime o acordo dos pais da Igreja, visto que formam uma unanimidade arranjada a dedo, mediante a eliminação dos elementos contrários”. Afirmou Allan Kardec em Obras Póstumas.

Do mesmo modo que ocorreu com a reencarnação, a igualdade entre homem e mulher, idéia fundamental do Cristianismo, foi abandonada pela Igreja Católica. O clero não assimilou a novidade cristã de uma mulher quebrando os rígidos códigos de comportamento.

 

O patriarcalismo do povo judeu se manteve no decorrer da historio, transformando-se em tradição e normas, válidas ainda hoje. As mulheres interessadas em participar da Igreja Católica foram confinadas nas celas dos conventos, com roupas medievais, afastadas dos sacramentos e das missas, e celibatárias. “Sexo é lei básica da Natureza. Querer suprimi-la é querer suprimir a vida. O celibato religioso contradiz os fundamentos da religião. É uma violência contra as fontes da vida”, esclareceu o filósofo espírita Herculano Pires na obra O Centro Espírita. Com o celibato, frades e freiras vivem os tormentos de um combate sem fim contra suas necessidades naturais, na suposta santidade dos mosteiros e conventos.

As mulheres têm alma?

No auge do desrespeito à mulher, houve até uma assembléia de bispos, na Gália, em 585, com a pretensão de resolver uma inquietante questão: a mulher tem ou não alma?

Os preconceitos da sociedade européia permitiram dúvidas absurdas como essa. Não foram somente os escravos e estrangeiros os diminuídos e explorados. O homem europeu centralizou em si todo poder e direitos, e manteve a mulher, social e culturalmente, isolada, como serviçal de sua casa. Até recentemente, ela não votava, não podia estudar e deveria submeter-se, sem pestanejar, às ordens de seu marido. Entre outras aberrações, ainda no século 19, em diversos países, o marido que se julgasse traído tinha o direito legal de matar sua esposa. Ainda hoje, no Irã, o testemunho da mulher na justiça vale a metade da palavra do homem. Nesse regime, um homem jamais será acusado por sua esposa, pois a palavra dela tem a metade do valor.

Dentro desse clima de hostilidade à figura feminina, Madalena foi injustamente difamada pela tradição da Igreja, a tal ponto que a imagem da prostituta arrependida foi assimilada pelo imaginário popular. Uma mulher dominada pelos prazeres, escrava das paixões, alheia à moral. A atormentada pecadora convertida por Jesus.

Por trás dessas deturpações existem intenções, que de boas nada têm: Madalena simbolizaria uma suposta fraqueza moral da mulher. Nas palavras de Tertuliano (155-220), um dos criadores da Igreja Católica, cada uma das mulheres “representa Eva. A maldição de Deus sobre esse sexo continua vivo em nossos tempos. Culpadas, deveis bordejar as suas durezas. Sois a porta do mal”, afirmou ele em sua obra De Cultu Feminarum (Do Culto de Mulheres).

Fonte: Revista Universo Espírita nº 32 Ano 3 – 2006

 


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