Meu pai, Herminio Miranda

Uma entrevista com Ana Maria Miranda.

Por Eliana Haddad e Cristian Fernandes

Neste ano, comemora-se o centenário do escritor e pesquisador espírita Herminio Corrêa de Miranda, que nasceu em 5 de janeiro de 1920, em Volta Redonda, RJ.

O ‘velho escriba’ desencarnou em 8 de julho de 2013, aos 93 anos, deixando uma obra de inestimável valor que reúne mais de 40 livros e dezenas de artigos espíritas, em que analisa temas diversos relacionados à espiritualidade: Deus, cristianismo, mediunidade, memória, obsessão, animismo e vidas passadas, entre outros.

Para dar início às homenagens ao autor, que tem também vários títulos publicados pela Correio Fraterno, entrevistamos sua filha, Ana Maria Miranda.

Ela conta com exclusividade detalhes emocionantes da vida em família e relembra passagens importantes da existência de Herminio entre nós. Acompanhe.

Como é ser filha de Herminio Miranda?

Como ele diria, ele ‘esteve’ meu pai durante os 70 anos que vivemos juntos. Sinto que fui a filha mais abençoada do mundo. O Senhor me deu, além da vida, a felicidade de ser filha de Herminio Corrêa de Miranda. Porém tenho uma teoria: o Senhor sabia que seria Ele mesmo quem daria muito trabalho para o papai! Não seriam só os filhos! Assim, Ele decidiu que os filhos teriam que entender o ‘velho escriba’.

Papai ensinava tudo com seu exemplo. De vez em quando, explicava o porque sim e o porque não das coisas. Mas, na maior parte das vezes, só me olhava e eu já sabia se e o que tinha aprontado…

Certa vez, já jovem, ele me viu lendo um best seller na época. Só me disse: “pode ler, filha, mas acho que isto não é literatura pra você”. Eu não continuei.

Eu queria ser atriz de teatro, desde os 9 anos. Mas ele só me permitiu no último ano da faculdade. Cheguei a fazer teatro profissional. Certo dia, cheguei em casa e disse: “Pai, encerrei minha ‘carreira’… Ele me olhou assustado, como quem diz ‘por quê?’, mas não disse nada. Eu disse: “entendi agora o que você já tinha previsto”. Ele se levantou da rede e abriu os braços: chorei, mas estava nos braços dele…

Na realidade, acho que eu poderia responder a esta pergunta mais sucintamente: “alguém já teve um anjo como pai? Pois, eu tive!”

O que mais marcou em seu convívio com Heminio?

Papai era pura ‘alma’, um amor, uma ternura, compreensão e humildade sem limites. Era digno, verdadeiro, ético, sincero, sensibilíssimo. Não admitia mentiras, nem palavras de baixo calão. Nunca as pronunciou, nunca levantou um dedo, nem a voz para nós. Não precisava conhecer uma pessoa profundamente; ele a ‘lia’ e já a ‘sabia’… Acho que o papai foi o homem mais cristão, na mais pura acepção da palavra, que conheci. Conviver com ele era viver permanentemente em Deus.

Herminio conversava com vocês sobre espiritualidade, religião, Deus?

Sim. Fomos criados, tal como ele e mamãe, na religião católica. Estudamos em colégios e faculdades católicos. Conversávamos sobre todas as religiões. As concordâncias e discordâncias eram dirimidas por ele, por alto. Acredito que só eu tinha algum interesse. Com 22 anos e já na faculdade, por vezes eu entrava em discussão com o professor de direito canônico, e falava com ele. Ele jamais criticou, mas inteligentemente, como que semeava as palavras de Seu Pai em mim, sem que eu percebesse. Falava de Deus, do Cristo que nunca fundara uma religião, do livre- arbítrio, da lei do retorno, do amor isento de discriminação, da compaixão. Vital para ele era a intrínseca ligação amor-caridade. As palavras iam adentrando meu espírito e modus vivendi. Ele levava nossa religião muito a sério e não nos impunha de forma alguma suas crenças. O mesmo ele fez com seus leitores — não quis converter ninguém. Queria apenas expor sua visão das coisas que pesquisara, os resultados que obtivera, o que sabia e até vivera, concluindo por vezes: “Eu não acho. Eu sei”.

De Nova York [onde foi trabalhar pela Companhia Siderúrgica Nacional, de 1950 a 1954], ele já voltou ao Brasil com a cabeça fervilhando com perguntas que o catolicismo não conseguia lhe explicar. Já havia pesquisado muito. Buscou ler e pesquisar ainda mais, arriscando passar suas ideias a revistas especializadas, tais como Reformador, da FEB, cuja aceitação durou mais de 20 anos. Usava pseudônimos, como: Marcos, João Marcus, HCM, João, para não ferir a vovó Helena, sua mãe. Mas isso o perturbava. Na edição da revista de maio de 1961 saiu publicada a carta que escreveu a ela: “Carta à mãe católica”. Começava assim: “Mamãe, esta carta contém uma terrível confissão: tornei-me espírita”. Vovó morreu em janeiro de 1961, antes de a carta ser publicada, mas a resposta dela veio anos depois, sob a forma de duas mensagens mediúnicas. Os leitores podem acessá-la no livro Nossos filhos são Espíritos [ou ler a síntese nesta edição, na página 13].

Os familiares sabiam das suas comentadas reencarnações? Ele chegou a falar sobre isso com vocês?

Convivemos com essas conversas toda nossa vida. Acho que foi comigo com quem teve mais abertura para falar de suas ‘coisas’ em épocas diferentes. Me contou sobre sua encarnação como Robert Browning Sr. (pai do poeta Robert Browning). Fora um alto funcionário do Banco da Inglaterra, que inclusive conheceu pessoalmente Kardec). Ele me falou muito antes de sua entrevista ao Globo Repórter sobre a reencarnação, de 13 de dezembro de 1996.

Eu tinha lido poucos livros seus. Eu sabia da sua irrecorrível crença e provas incontestes de reencarnação, da regressão de memória, como a usava e para quê. Suas reuniões se davam agora em seu escritório, no novo apartamento, quando ele e seu grupo se reuniam e ele “dialogava com as sombras”. Tudo era gravado. Acompanhei na época, do lado de fora, as sessões de regressão de memória com o jornalista e escritor espírita Luciano dos Anjos. A família sabia que não poderia fazer qualquer barulho até que papai abrisse a porta, até que Luciano se fosse. O resultado se desdobrou no livro Eu sou Camille Desmoulins (Lachâtre). Com o passar dos anos, me falou também sobre outras existência, sobre sua ligação com Lutero, e sua insofismável admiração por Paulo, o Apóstolo.

 

Você não é espírita. Chegou a ler as obras de seu pai? 

Sim, mas falhei flagrantemente. Li Diálogo com as sombras, O pequeno laboratório de Deus, Os procuradores de Deus, Histórias que os espíritos contaram, Eu sou Camille Demoulins, Nossos filhos são espíritos. Estou agora acabando de ler Diversidade dos carismas. O próximo será Autismo, o livro que teve um impacto incrível na mente dos pais de autistas.

Saberia destacar a obra mais importantes dele, para você?

Para mim, Os Procuradores de Deus, Histórias que os espíritos contaram, Diversidade dos carismas, Eu sou Camille Desmoulins, A memória e o tempo e Nossos filhos são espíritos.

Como era Herminio escritor e pesquisador?

Ele chegava pra nós e dizia sorrindo: “Devo anunciar que estou grávido”! Ele tinha um senso de humor incrível. A gente morria de rir. Pronto, daí já sabíamos que ele iria entrar em estado de hibernação: longas horas de estudos, muita pesquisa, muita leitura, e daí nasceria outra obra digna da doutrina, do conteúdo e dos leitores. Quando do ‘nascimento’ do livro, ele relaxava por algumas horas e já ficava grávido de novo…

No livro Nossos filhos são espíritos, ele começa falando de você e encerra com o seu “Diploma de pai”. Como foi estar presente nessa obra tão conhecida do Herminio?

Eles completavam aniversário de casamento dia 11 de agosto. Todos os anos eu mandava uma carta e flores. Eu trabalhava e trabalhei 48 anos. Mas, dia 22 de agosto, meu aniversário, eu ia sempre almoçar com eles. Almoçamos e papai chegou com meu presente: Nossos filhos, em mais uma edição! Ele pediu para eu ler o capítulo “Diploma de pai”. Sentei e li. Comecei a chorar na primeira linha (reconheci meu texto) e terminamos chorando juntos na última, os três abraçados. Eu virara ‘coautora’!

Você chegou a ajudá-lo em algumas pesquisas? Ele dava notícias dos trabalhos que estava realizando, dos livros que pretendia escrever, das suas descobertas?

Muito pouco. Mandava vir livros da Amazon, da ABE books na Inglaterra, da Livraria Barnes & Noble de Nova York. Trazia muitos livros para ele quando viajava. Uma vez, em Nova York, fui consultar um senhor que ia mandar por mim um livro raro para ele, que continha a resposta de uma pesquisa muito importante. Trouxe o livro. Sua última encomenda foi por livros de física quântica. Não deu tempo de comprar…

Como era a convivência do seu pai com Inez, sua mãe?

Se conheceram e casaram em seis meses, na antiga igrejinha de Nossa Senhora Aparecida, em 1942, em Volta Redonda. Eu nasci em agosto de 1943. Marta e Gilberto viriam seis anos depois. O amor deles foi único! Os dois eram um, até um mês antes de completarem 72 anos de casados. Apesar de participar de toda sua vida, mamãe não mudou de religião, e nunca houve qualquer problema quanto a isso. Assim, a família evoluiu com as decisões tomadas por ambos. E acho que deu certo.

Conte alguma passagem divertida, alegre, da intimidade de Herminio.

Papai precisou fazer duas pontes de safena e uma mamária em agosto de 2006. Tinha 86 anos. Ficou quatro dias na UTI e depois foi para a unidade coronariana e teve alta para ir para o quarto. Corremos para o hospital e para o quarto esperá-lo. De repente, vejo uma enfermeira empurrando um senhor numa cadeira de rodas: o ‘senhor’, de óculos, caneta esferográfica, cabeça baixa, escrevendo sobre os joelhos. Seria o velho escriba? Quem mais?!! Saí correndo e mamãe, mais devagar. Ele estava assustado! Me perguntou algo zangado: “O que sua mãe e você estão fazendo aqui?” Eu disse: “Ué, viemos receber você, com o sangue correndo livre por suas veias, seu cérebro pululando, suas pesquisas já te perturbando e teus livros esperando”. E, perguntei o por quê do espanto. Ele, chorando e rindo ao mesmo tempo, disse: “Eu achei que tinha morrido e estava no céu e vocês duas também”. Mamãe disse: “Eu estou vivíssima”. E falei: “E eu também”. Foi aquela alegria! Peguei a esferográfica e o guardanapo, e li: eram instruções pra mim sobre seus bancos, contas, senhas, investimentos, etc. Eu já sabia de cor. Depois de deitado e refeito do susto do “encontro coletivo no céu”, ele deu gargalhadas e disse: “Tinha tanta gente (espiritualidade) na sala de cirurgia que não podia dar outra coisa! Acho que fizeram uma lanternagem geral em mim”. Rimos mais ainda e escondi o guardanapo; era relíquia. O velho escriba faria mais sete anos de serão!

 

Você acompanhou bem de perto a partida de seu pai. Qual a lição mais marcante que ficou?

A fé, o amor pelo Pai e por seu ‘amigo’, o Cristo! A irrestrita obediência às ‘coisas’ de Deus. Percebi até uma alegria preocupada com a ‘volta pra casa’, na nossa última conversa: quando ele sorriu e me disse: “Tá todo mundo me esperando por lá…”Suas impossibilidades físicas, dada às complicações na saúde e da idade, tinham, de repente, desaparecido. Conversou comigo por duas horas, fluentemente.

Qual a lição mais marcante? Acho que não sei responder. Eu ainda ‘estou gente’, esperando o embarque ‘pra casa’. Mas vislumbro-me chegando à Espiritualidade e o encontro: um abraço de amor, só amor… em silêncio. Um entenderia o outro pelo olhar … Eu pediria apenas uma coisa: “perdão, papai, se te fiz sofrer…”

Como filha, você acha que seu pai ainda guardava muitos segredos?

Possivelmente. Acho que ele já estava triste por não poder escrever tudo que ainda tinha para contar. O serão acabara e ele apagou as luzes do quarto e voltou pra casa, mas o céu ficou todo iluminado.

1 As marcados do Cristo, Herminio C. Miranda, FEB.

Publicado originalmente no Correio.news, canal de mídia digital do jornal Correio Fraterno, que há 50 anos acompanha o espiritismo no Brasil e no mundo.


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