“Não olhe para Kardec!”

O que o filme “Não olhe para cima” pode dizer para os espíritas e o movimento espírita.

Marcelo Henrique

“Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim”
(Certas Coisas, Lulu Santos e Nelson Motta).

Acabo de assistir o “filme da moda”, uma produção norte-americana intitulada “Não olhe para cima”, estrelado por Leo Di Caprio e com uma performance “rouba-cena” de Meryl Streep. A sátira – que poderia ser mais “pastelão” mas acabou sendo um roteiro sério, apesar de vários momentos icônicos de risos, enfoca a dualidade sim-não e, com ela, a proeminência do negacionismo sobre a ciência.

Muito a caráter para os dias atuais, reconhecemos. Tanto em terra brasilis, como, igualmente, no ambiente americano do governo anterior, protagonizado pelo fanfarrão Trump. As conhecidas medidas governamentais tomadas pelas autoridades brasileiras e ianques, em relação à pandemia de Covid19, figuram no “guiness” de trapalhadas e bizarrices, para não dizer do enquadramento em eventuais crimes contra a humanidade, os quais, esperamos, possam ser apurados com responsabilidade e apenados em futuro não muito distante, caso confirmados os delitos.

Mas, vamos falar da correlação entre o filme, seu título e a ambiência do movimento espírita, sobretudo o nacional (brasileiro).

Se o que estaria em cima, na película, seria um ameaçador cometa, capaz de devastar a vida humana e animal na superfície da Terra – como, aliás, ocorreu, segundo os estudos arqueológicos com os dinossauros – o enredo demonstra os esforços dos cientistas em alertarem autoridades políticas (executivas e legislativas) e a opinião pública acerca do risco que o mundo corria. Não vamos, pois, dar spoiller acerca do final do filme, recomendando aos interessados que o assistam.

Mas, situando a proposta do título em relação a Kardec, como seria o enredo e o contexto real, em termos de adeptos e simpatizantes do Espiritismo, na atualidade?

Não olhe para Kardec…

Não olhe para Kardec se você acredita no conteúdo dos romances ditos espíritas, que falam da existência de cidades espirituais, colônias, umbrais, vales, aeróbus, alimentos, bônus-horas e até, pasmem, sexo e gravidez espiritual…

Afinal de contas, o enredo das colônias é a projeção daquilo que existe neste plano, físico, para “ambientar” os desencarnados que precisam de elementos “de para-materialidade” para entender e aceitar a continuidade da vida (espiritual). Já os umbrais se assemelham, senão aos infernos cristãos, aos purgatórios com todas as dificuldades inerentes, no cumprimento de penas “espirituais” que traduzem dor e sofrimento atrozes.

Como bem disse o Professor Herculano Pires, as pessoas entram no Espiritismo, mas não deixam o Espiritismo nelas entrar, permanecendo com seus atavismos e crenças acalentadas por anos e décadas, quando não por encarnações sucessivas.

Não olhe para Kardec se você entende que o Espiritismo seja apenas uma religião cristã, feita para consolar os indivíduos, fazendo com que todos devam “baixar a cabeça” diante da injustiça, da intolerância, da desfaçatez, da violência, da estupidez generalizada e, é claro, do negacionismo em relação aos progressos científicos. Curioso é que aquele que concebeu a Doutrina Espírita, organizando-a pedagogicamente, assim se manifestou, em relação à dualidade Espiritismo-Ciência: “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará” (“A Gênese”, cap. I, item 55).

Não olhe para Kardec se você defende políticas sociais baseadas na agressividade, na violência, no desrespeito e na intolerância, seja ela de qual matiz for (sexual, racial, econômico, social, religioso, filosófico, ideológico). Nenhum texto espírita irá recomendar divisionismo e separativismo, ou afiançar a exclusão dos IRMÃOS (porque esta é a nossa real natureza, ISONOMICAMENTE CRIADOS e filhos de um MESMO PAI).

 

A tolerância e a compreensão são elementos essenciais exigíveis daquele que se declara espírita, sobretudo em cenários, como o atual, em que proliferam os embates: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”, tal é o conceito de caridade segundo “O Livro dos Espíritos”, item 886.

Não olhe para Kardec se você pretende validar, com desculpas esfarrapadas, nutridas no sentimento de idolatria a homens do nosso tempo, falíveis, imperfeitos e espiritualmente atrasados, mas que ocupam posições de destaque no cenário político-social, para defender o “direito” à não-vacinação e combater os meios clínicos e farmacêuticos disponíveis para a conservação e o auxílio à saúde pública em nosso país – e em outros, igualmente.

Você até pode escudar-se na liberdade de ir e vir, constitucionalmente estabelecida no Brasil, mas a sua recusa à imunização terá uma consequência que deve ser aceita e assumida por você: não poder frequentar espaços públicos, sobretudo os fechados, não poder trabalhar nos mesmos ambientes que os vacinados, não poder enviar seus filhos à escola, etc. Não é justo que aqueles que foram submetidos aos procedimentos sanitários e de saúde pública tenham que conviver com aqueles que simplesmente desejam ficar expostos ao vírus.

Não olhe para Kardec se você alimenta, todos os dias, o rancor e o ódio direcionados àqueles que não pensam como você, em quaisquer temas e contextos. Em termos gerais, se você se vincula a determinada ideologia política ou partidária, respeite a conjuntura vigente no Estado Democrático de Direito que estabelece a pluralidade e a isonomia entre as legendas e seus estatutos ideológicos. Não há “verdade única” em termos sócio-políticos e a escolha deve ser decorrente do sufrágio universal (voto) e não em razão da supressão dos “diferentes”.

 

Há, também, um outro ódio, camuflado, que se manifesta nas “assembleias espíritas”, quando se deseja estabelecer a “ditadura da fé”, baseando-se seja em determinadas “máximas doutrinárias”, decoradas e repetidas como “mantras”, ou, ainda, e de forma mais perigosa, o comportamento de rebanho, na forma do séquito de fiéis adoradores de médiuns, guias espirituais, dirigentes ou expositores, como se estes fossem perfeitos e infalíveis.

Não olhe para Kardec se você se encastela no conhecimento adquirido, baseado em “n” anos de frequência a atividades espíritas (estudo, mediunidade, assistência social, “evangelização” ou “caridade”), para assumir uma postura professoral em relação aos demais, ou para considerar, intimamente, que “tempo de casa” oferece algum tipo de prerrogativa ou de superioridade em relação aos demais. “Ninguém é professor de Espiritismo”, nos lembraria o Professor Herculano.

Não olhe para Kardec, se você deseja permanecer na sua zona de conforto, acalentada há anos, décadas e, talvez, numa encarnação inteira, sentado em poltronas de convencimento, inarredáveis, que não permitem qualquer oxigenação de ideias, nem aprendizados em relação àqueles que, mesmo tendo vindo após você, pela idade cronológica que ostentam ou pelo tempo de frequência às reuniões espíritas, lhe apresenta um ponto de vista que você nunca havia pensado antes, mas que, orgulhosa e vaidosamente, numa postura egoística, você pretende manter, para não “pegar mal” em relação aos circunstantes.

O Espiritismo avança, progressivamente, e novas “revelações” são decorrentes dos estudos e da própria comunicabilidade mediúnica, mas, lembrando sempre, que, “se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”, mas que tal verdade precisará estar consonante com o conjunto de princípios e fundamentos do Espiritismo, caso contrário, deverá ser descartada por absoluta incompatibilidade entre o “novo” conceito e a estrutura filosófico-científica espírita.

Mas, todos os dias, vemos os “espíritas novidadeiros”, ávidos por inserir na Doutrina, as suas convicções pessoais, com o vezo de suas interpretações parciais e precárias, ao mesmo tempo em que apresentam vernizes multicoloridos em falas mansas e em bocas que sorriem. Devemos ter cuidado com os falsos profetas – advertência antiga, do próprio Jesus, repetida pelos textos kardecianos – já que em todas as agremiações que TENDEM a ser religiões, com seus adoradores e fiéis, os mesmos se tornam evidentes e cativantes, sobretudo em relação àqueles que não se aprofundam na – palavras de Kardec – ciência espírita.

 

Enfim, devemos dizer a todos esses que não devam, mesmo, olhar para Kardec porque ao olharem para ele, terão como resultado uma das duas hipóteses: 1) irão encontrar a LUZ para os seus olhos, admitindo o grande tempo perdido em aceitar formulações que destoam e se distanciam daquilo que prescreve e explica a Doutrina Espírita; ou, 2) irão permanecer entendendo que o “marrento professor francês” está ultrapassado e desatualizado, e “outros” Espíritos (encarnados ou desencarnados) estão “corrigindo a rota” da proposta espírita, para atualiza-la e faze-la mais a conforme das “suas” expectativas.

Em suma, retomando o conteúdo do filme, alguns poucos estão com a hipótese número “1”, e permanecem fiéis ao pensamento de Allan Kardec, combatendo de forma pacífica e fraterna as deturpações do Espiritismo. Enquanto isto, ao lado, em maior número, confortavelmente, está uma legião de NEGACIONISTAS que se entusiasmam com pseudoverdades e seguem os tais falsos profetas da atualidade espírita, extasiando-se ante falas e textos, onde a verborragia que cativa e emociona, por vezes, suplanta a lógica racional que foi a marca inconteste do Professor francês.

De que lado, então, você se encontra? Você pode olhar ou não para Kardec?


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+ Marcelo Henrique