Nova colaboradora do portal fala de manias e atavismos igrejeiros do cotidiano espírita

Entrevista a Manoel Fernandes Neto, editor do Portal Nova Era

A nova colaboradora do Portal Nova Era é Joana Abranches (foto); assistente social, escritora e presidente da Sociedade Espírita Amor Fraterno – Vitória-ES. Seus artigos são disseminados por e-mail e pelas redes sociais desde 2009, quando começou a escrever como uma “catarse”, conforme explica nesta entrevista exclusiva. Neles, sem rodeios. Ela fala do que vimos todos os dias nas casas que frequentamos e nos omitimos, às vezes por covardia, outras por conveniência ou conservadorismo. Ou ambos. Joana fala do cotidiano das sociedades espíritas com todas as suas idiossincrasias, atavismos arraigados, vindos de há bitos igrejeiros do passado. Desta e de outras vidas.

Além disto, em seus textos combate o sincretismo de alguns dirigentes, ao tentarem impor o maniqueísmo do “bem” e do “mal”, do “certo” e do “errado”, da salvação, do “pecado” disfarçado de “débito”, em um doutrina que solicita, acima de tudo, investigação interior, estudo, compreensão ativa de nossas atitudes e dos outros; e a criatividade ao movimentar-se na estrada do progresso, sem culpas ou ressentimentos. Com certeza, não é isso que Joana tem encontrado:

“Tenho me emocionado a cada dia com desabafos e relatos impactantes de companheiros insatisfeitos, oprimidos e solitários, trabalhando não com alegria, mas por senso de dever, e com a cabeça fervilhando de dúvidas e mágoas pela péssima convivência nos grupos que frequentam.”

Contemporânea e amiga pessoal de Lamartine Palhano Júnior, parceira na fundação Sociedade Espírita Amor Fraterno, da qual hoje é presidente, Joana se inspira nos ensinamentos desse escritor e pensador espírita e que a auxilia na luta na reencarnação:

” Ele era um cientista sem nenhuma arrogância doutrinária, que contagiava com o seu entusiasmo pelas realizações em prol da divulgação do Espiritismo, mas que socorria os irmãos em necessidade com o mesmo amor com que se dedicava às atividades intelectuais.”

Nesta entrevista, a nova colunista do Portal Nova Era nos brinda com sua palavra e determinação, humilde e consciente do papel de cada um.

Manoel Fernandes – Como e quando você resolveu falar francamente sobre o que ocorre nas casas? Colocar, no dito popular o “dedo na ferida”?

Joana Abranches –
Escrever pra mim sempre foi uma catarse. Através da escrita ponho pra fora as minhas angústias e indignações. Tanto assim que já tenho 3 livros de poesia editados. Com relação aos artigos doutrinários também não foi diferente. Nasci em berço espírita, e no decorrer de quase quarenta anos de militância no movimento,os questionamentos sobre as praticas cotidianas equivocadas começaram a se acumular na proporção do amadurecimento pessoal e observação, até que chegou a um ponto em que, naturalmente, a coisa começou a me incomodar tanto que se transportou para a escrita. Percebi então (ou me auxiliaram a perceber) que tinha nas mãos um excelente instrumento de sensibilização dos companheiros espíritas para repensar e discutir assuntos tabus, sempre varridos pra debaixo do tapete, e que poderia levantar essas reflexões de forma mais abrangente através da internet. Assim fiz. Em 2009 saiu o primeiro artigo, e de lá pra cá não parei mais.

Manoel Fernandes – Tem percebido algumas criticas, ou so elogios?

Joana Abranches – 
Todas as vezes que se bate de frente com culturas enraízadas, logicamente que se encontra alguma resistência. Sobretudo por parte dos mais conservadores (maioria no movimento espírita). Por isso, recebo sim algumas críticas carregadas de vibrações bastante pesadas, escondidas nas entrelinhas de saudações aparentemente fraternais mas cheias de rancor, por parte de companheiros que fazem uma leitura, digamos, anarquista, do meu apelo à humanização das relações e do resgate da espontaneidade nos grupos espíritas.

Porém, surpreendentemente, as manifestações que recebo, em maioria, são de afinidade com esses mesmos questionamentos, são de alívio por poder falar sobre questões até então implicitamente proibidas, sem temer julgamentos. Tenho me emocionado à cada dia com desabafos e relatos impactantes de companheiros insatisfeitos, oprimidos e solitários, trabalhando não com alegria mas por senso de dever, e com a cabeça fervilhando de dúvidas e mágoas pela péssima convivência nos grupos que frequentam. Só essa oportunidade de socorrer, mesmo que virtualmente, companheiros que não se sentem à vontade para se abrir com os mais próximos por medo de represálias, de serem estigmatizados, já é extremamente gratificante, já faz todos os “desaforos caridosos” que recebo de alguns, se tornarem irrelevantes.

Mas sinto que a coisa vai mais além. Que não estou pregando no deserto, não estou só. Milhares de vozes, em todo esse nosso imenso Brasil e até no exterior, tem se juntado à minha. Existe uma sede de humanização no ar, e um sopro de renovação que, não tenho dúvida, tem partido do mundo superior na esperança de sensibilizar os corações mais aptos a entender o “amai-vos e instruí-vos” com profundidade.

Manoel Fernandes – Fale como é vc como dirigente e de sua casa espírita ?

Joana Abranches –  Bom, eu não sou a pessoa mais indicada pra me avaliar como dirigente…(risos)… seria mais seguro perguntar aos meus companheiros de equipe… O que posso dizer, com certeza, é que conseguimos trabalhar em clima de relativa liberdade, simplicidade, tolerância, alegria e prazer em estarmos juntos, sem nenhuma preocupação em esconder as nossas limitações e dificuldades ou ficar apontando a do outro, e com o mínimo de exigências e burocracia possível. Penso que a nossa maior conquista é ter conseguido trabalhar nos companheiros a compreensão que ser irmão é muito mais importante que ser PHD em Espiritismo.

Manoel Fernandes – Você cita o professor Lamartine Palhano Júnior em alguns textos. O conheceu pessolmente? Pode nos falar dele?

Joana Abranches –  Palhano é um divisor de águas em minha trajetória. Tornamo-nos amigos nos anos 90. Logo se estabeleceu uma parceria fraterna e doutrinária. Amigo pessoal e uma referencia doutrinária marcante. Trabalhamos juntos na extinta FESPE, Fundação Espirito Santense de Pesquisa Espírita e juntos fundamos a Sociedade Espírita Amor Fraterno, Instituição da qual foi o primeiro presidente e que hoje dirijo.

Falar do Palhano é falar de idealismo, dinamismo e simplicidade. É falar de um homem cujo espírito determinado superou todas as barreiras de um corpo frágil e debilitado sem perder a alegria, o bom humor e o otimismo. Era um cientista sem nenhuma arrogancia doutrinária, que contagiava com o seu entusiasmo pelas realizações em prol da divulgação do Espiritismo, mas que socorria os irmãos em necessidade com o mesmo amor com que se dedicava às atividades intelectuais. Era próximo, acessível e amigo de todos. Aprendiamos e riamos muito juntos. E mesmo após o seu desencarne, ele continua conosco, como amigo e parte integrante da família Amor Fraterno. Enfim, eu poderia definir meu querido e inesquecível amigo como uma pessoa especial… e um espírita como poucos!

Manoel Fernandes – Como esta o movimento espírita no Espírito Santo?

Joana Abranches –  Acredito que da mesma forma como me parece estar em quase todo Brasil…Companheiros de boa vontade, detentores do nosso maior respeito, dando o melhor de si, mas muitas vezes confundindo “movimentação de espírita” com movimento espírita.


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