O médium e o filósofo

Encontro de Herculano Pires com Chico Xavier e Waldo Vieira

Reflexões sobre os maiores vultos históricos do Espiritismo: Herculano Pires e Chico Xavier.

Marcelo Henrique 

“Ninguém, sob nenhum pretexto, tem o direito de fazer adulterações nos textos de Kardec ou de qualquer autor de obras doutrinárias ou não. Quando se trata de obras básicas de qualquer doutrina essa prática é considerada criminosa”, Herculano Pires.

“Estamos diante desta realidade estarrecedora: o movimento espírita se dividiu em duas partes, uma que sustenta a Verdade e outra que defende a mentira, a deturpação dos textos. […] Não há mais lugar para acomodações, para indecisões, para o “jeitinho” dos que preferem as conveniências. Ficamos com a Verdade ou ficamos com a mentira”, Herculano Pires.

Se me perguntassem quais seriam os maiores vultos históricos do Espiritismo Brasileiro (1865-2019), eu cravaria, de primeira: Francisco Cândido Xavier e José Herculano Pires. O primeiro, pela dinâmica e variada mediunidade, que lhe permitiu se tornar conhecido por todo o país e no exterior, ajudando na difusão das ideias espíritas. O popularizador do Espiritismo, no Brasil, principalmente, e por todo o mundo, onde seus feitos chegaram. O segundo, pela coerência a Kardec e a extensa obra bibliográfica (mais de oitenta livros), sempre privilegiando os aspectos filosófico e científico da Doutrina dos Espíritos, sem deixar de lado a Ética Espírita (as consequências morais).

E antes que o leitor me pergunte o porquê da data acima (1865), estamos considerando como ponto inaugural do Espiritismo em terras brasileiras a fundação, por Luís Olímpio Teles de Menezes, do Grupo Familiar de Espiritismo, fundado em 17 de setembro em Salvador (BA), a primeira agremiação espiritista de nosso país.

Um elemento essencial é a proximidade entre o médium e o filósofo, iniciada em 1962, quando Herculano assumiu pessoalmente a defesa da obra chiquista, num episódio lamentável da história espírita brasileira, quando o Movimento Universitário Espírita de São Paulo e o Grupo Espírita Emmanuel denunciaram o médium e orador Divaldo Franco de plagiar mensagens e copiar frases – particularmente de Emmanuel – psicografadas por Chico e Waldo Vieira, atribuindo-as a outros espíritos como se fossem egressas de sua mediunidade. As citadas instituições editaram e distribuíram folhetos, distribuídos às instituições espíritas paulistas – trinta mil folhetos – que confrontavam os textos. E Xavier, por recomendação expressa de Emmanuel, se afastou do tribuno baiano e só voltou a encontrá-lo quinze anos depois. Isto está relatado e detalhado no livro “J. Herculano Pires: O apóstolo de Kardec”, de autoria de Jorge Rizzini.

 

Já em 1964, Chico e Waldo Vieira foram envolvidos em uma trama ardilosa perpetrada por jornalistas da revista “O Cruzeiro” que se intrometeram nas experimentações de ectoplasmia que ocorriam em Uberaba (MG). De início, a revista publicou uma oportuna e interessante reportagem, com quatorze páginas ilustradas, assinada por José Franco, cujo título era “Fenômenos de Materialização”, com a médium Otília Diogo. Depois, forçaram a ocorrência de uma sessão, na presença de dezenove médicos e sete repórteres, para publicar, por três meses consecutivos, uma série assinada por sete repórteres, intitulada “A Farsa da Materialização”, em onze números seguidos da revista, cerca de setenta páginas e oitenta e sete fotografias, contendo inverdades acerca dos experimentos.

Mas o feitiço virou contra o feiticeiro e a trama urdida pelo sensacionalismo acabou atraindo o povo para o interesse pelo Espiritismo e nunca se vendeu tanto livro espírita neste país, principalmente os relativos à mediunidade. Waldo, no entanto, alertado pelos guias espirituais, havia gravado a sessão e a fita magnética contendo declarações dos repórteres e fotocópias de filmes e fotografias chegou às mãos de Herculano Pires e Jorge Rizzini. Programou-se, então, um programa no canal 4, TV Tupi e outro no canal 2, TV Cultura, onde se defrontariam médicos e repórteres. Estes últimos, no entanto, não compareceram, alegando que sua única tribuna era a revista. Na ausência dos jornalistas, os canais não exibiram o programa nem deram espaço para esclarecimentos. Mas eles não desistiram e, no canal 9, TV Excelsior, conseguiram veicular o material, em nove minutos, desmascarando a revista.

O programa foi replicado e Herculano passou a veicular artigos doutrinários sobre a questão na sua coluna nos “Diários Associados”, no mesmo dia em que a revista começou a circular.

A luta deu resultado, contribuindo para a divulgação da Doutrina Espírita. Sobre o fato, assim destacou o Professor: “Nem Kardec deixou de defender a Doutrina em nome de um falso conceito de fraternidade, e defendê-la com firmeza e energia, empregando as palavras devidas. As sensitivas que murcham ao ser tocadas não são flores do jardim espírita. Porque espiritismo requer virilidade e franqueza de seus adeptos, o sim, sim e não, não do Evangelho, para impor-se neste mundo de ambiguidades e comodismos”.

Depois, o vínculo fraterno e cooperativo entre Herculano e Chico ficou marcantemente sedimentado pela participação de Herculano no célebre programa “Pinga Fogo” em que o médium mineiro foi sabatinado na TV Tupi, canal 4, de São Paulo, no dia 28 de julho de 1971 (foto ao lado), ocasião em que o programa, que inicialmente tinha a previsão de duração de uma hora se estendeu a quase três, registrando a maior audiência da história brasileira, com 75% (setenta e cinco por cento) dos aparelhos televisivos nele sintonizados. Depois, em 20 de dezembro do mesmo ano, outro programa, em edição especial de fim de ano, foi realizado, desta vez com mais de quatro horas de duração, alcançando uma audiência estimada de vinte milhões de brasileiros.

 

Sobre o programa, Herculano assim se pronunciou: “assinalou um passo decisivo na aceitação do Espiritismo pelo nosso povo e modificou completamente o conceito de Espiritismo existente em todas as faixas de nossa população. Chico Xavier, que era um símbolo para nós, espíritas, passou a ser um símbolo para o povo em geral; o símbolo do Espiritismo no seu mais belo e elevado aspecto”.

O programa gerou, para Chico, a notoriedade pública, tanto que foi entrevistado pelos principais veículos de mídia impressa à época, as revistas “O Cruzeiro”, “Manchete” e “Realidade”, naquele ano (1971), além do que o médium passou a receber homenagens, na forma de títulos de cidadania de mais de uma centena de municípios brasileiros, concedidos espontaneamente, com base em requerimentos de vereadores locais.

Esta situação fática começou a incomodar dirigentes federativos e “pessoas influentes” dentro do chamado Movimento Espírita Brasileiro (MEB), preocupados com um possível envaidecimento desmedido de Francisco. Logo ele, a simplicidade e a humildade em pessoa! Em uma consulta formal à União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE), Herculano foi consultado a respeito, e respondeu, como Mestre que era nestes assuntos, em texto do qual transcrevemos a parte que merece especial destaque: “O cuidado com a não excitação da vaidade dos médiuns é recomendação doutrinária referente à educação e desenvolvimento útil da mediunidade, não se aplicando a um caso como este, em que estamos diante de um médium com mais de quarenta anos de prática abnegada de suas funções, a serviço da nossa Doutrina, e cujo nome se tornou bandeira de honra para nosso movimento”. E Herculano, ainda, menciona que Kardec elogiou e defendeu, na Revue Spirite, os médiuns Daniel Dunglas Home e Stainton Moses, entre outros.

Herculano e Chico se aproximaram e, na coluna que o primeiro mantinha, há anos, no jornal “Diários Associados”, um dos maiores do país, foram publicadas, sequencialmente, diversas mensagens psicografadas por Xavier e comentadas por Pires. A parceria foi tão exitosa e elogiada, que os dois reuniram em cinco livros a produção decorrente: “Chico Xavier Pede Licença”, “Na Era do Espírito”, “Astronautas do Além”, “Diálogo dos Vivos” e “Na Hora do Testemunho”.

Em 1972, Pires e Xavier estiveram juntos na II Bienal Internacional do Livro, que ocorreu de 17 a 25 de junho, no Parque Ibirapuera, em São Paulo (SP), situação em que milhares de pessoas aí compareceram, sendo descrito pela imprensa à época como um “formidável formigueiro humano”. Exatamente no último dia do evento, estava programada e foi realizada a sessão de autógrafos, conjunta, no stand da Livraria Modelo e, por quatorze horas ininterruptas, das duas horas da tarde até as quatro horas da madrugada do dia seguinte, os dois atenderam pacientemente os milhares de interessados. O fato foi inédito e surpreendeu escritores, editores e jornalistas, nacionais e estrangeiros.

Herculano, também do alto de sua conhecida humildade e simplicidade, assim se manifestou sobre o ocorrido: Chico “é o único nome brasileiro capaz de arrastar milhares de pessoas para uma tarde de autógrafos. Jamais se viu em São Paulo, no Brasil e no mundo, semelhante afluência de público […], mas esse recorde cultural, batido tranquilamente, foi abafado pela grande imprensa e em geral pelos meios de divulgação, com raras exceções. Nunca o preconceito cultural e religioso contra o Espiritismo se tornou mais palpável e negativo”.

Outros episódios, ainda, iriam manter o filósofo e o médium interligados e em ações compartilhadas, em prol da Doutrina dos Espíritos. Desde 1969, o escritor Salvador Gentile havia preconizado acerca da existência de uma “quarta revelação”, a que chamou de luisina (ou andreluizina), afirmando erroneamente que os livros ditados pelo autor espiritual a Chico seriam um “revisionismo doutrinário” (em relação à obra do professor francês) e que Kardec estaria superado, acusando os espíritas brasileiros de estarem fazendo do conteúdo kardeciano um “dogma intangível”. Para ele, então, respeitar a Codificação consistiria em ser dogmático!

 

Herculano busca as próprias referências kardecianas e o prefácio de Emmanuel ao livro “Os Mensageiros”, de A. Luiz, para afirmar categórica e definitivamente que o conteúdo luisino seria uma mera ilustração da vida espiritual, a partir da ótica do seu intérprete, sendo uma contribuição para a percepção dos distintos níveis de entendimento (e espiritualidade) que têm, os Espíritos, quando desencarnados. Em outras palavras, aquilo que se enxerga, no “outro lado da vida” é a percepção particular de cada ser e, portanto, são várias as visões (e, até, “materializações”, pois a individualidade espiritual, desencarnada, conserva as condições espirituais que já possui, em função das experiências encarnatórias, mantendo suas afinidades, gostos e conhecimentos acerca de tudo o que a rodeia.

Gentile errou ao dizer que, comparando-se Kardec aos relatos espirituais via Chico, ter-se-ia uma obra generalística (Codificação) e outra específica, com informações particulares e mais concretas. Esqueceu que as dissertações de A. Luiz são meramente simbólicas e, portanto, abstratas. A pedra de toque, sempre, resume Herculano, é a Codificação. E conclui: “Partindo de premissas falsas, o articulista só poderia chegar a conclusões falsas. […] Antes de pensar em “novas revelações”, o de que precisamos com urgência é de estudo sistemático e mais aprofundado da obra de Kardec, incluindo não só os tomos da Codificação, mas, também, a “Revista Espírita”, por ele mesmo indicada como indispensável ao bom conhecimento da doutrina”.

Depois viria a “grande batalha”, envolvendo os dois luminares homens, no capítulo mais dramático da vida do Filósofo de Avaré e uma das mais importantes páginas da História do Movimento Espírita Brasileiro (e Mundial).

Em 1973, o jornalista Paulo Alves Godoy, que ocupava cargos diretivos tanto na Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) quanto na União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE), acompanhado de Jamil Nagib Salomão, então diretor de divulgação da FEESP, foram a Uberaba visitar o médium mineiro. Numa conversa, pública, presenciada por muitos que participavam das corriqueiras sessões de estudos e conversações promovidas na casa espírita, Chico afirmou, inadvertidamente, que certas expressões de Kardec (em “O Evangelho segundo o Espiritismo”) deveriam ser abrandadas – sem que o pensamento original fosse alterado. No retorno, Salomão incumbiu Godoy de fazer uma “nova” tradução da obra. E lhe recomendou fossem suprimidas e substituídas certas expressões que lhe parecessem agressivas ou inadequadas. Godoy aceitou a tarefa, inclusive porque já era autor de alguns livros sobre Jesus e os evangelhos. Salomão, comerciante experiente, acreditava que a “tradução moderninha” (expressão que ele mesmo utilizou), desbancaria as edições tradicionais de Guillon Ribeiro e do próprio Herculano Pires, contribuindo com os cofres federativos.

Em julho de 1974, trinta mil exemplares da obra adulterada foram impressas na cidade de Araras (SP), com grande parte da tiragem já comercializada previamente entre os centros espíritas, sendo, o restante, adquirido pela Livraria Boa-Nova, de São Paulo (SP), que se incumbiu de distribuí-la às demais distribuidoras e livrarias. Um exemplar foi especialmente enviado ao Professor Herculano, que experimentou grande e grave impacto ao folhear a obra. Herculano, então, resolveu assumir a conduta recomendada pelos Espíritos Superiores, no próprio “Evangelho” espírita, Capítulo X, Item 21: “Conforme as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever, pois é melhor que um homem caia do que muitos serem enganados e se tornarem suas vítimas”. Decidiu, assim, alertar o movimento espírita brasileiro, de norte a sul. Escreveu um artigo-denúncia intitulado “Adulteração das Obras de Kardec”, estampado na edição dominical do “Diário de São Paulo”, o qual foi reproduzido, graciosamente, em sessenta e quatro mil folhetos, pelo Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, e distribuído país afora. Ele e Jorge Rizzini foram além. Nos programas radiofônicos “No limiar do amanhã” (Rádio Mulher) e “Um passo no além” (Rádio Boa Nova e Rádio Clube de Sorocaba), o fato ganhou reverberação. E, também, fizeram circular uma tiragem de quarenta mil exemplares de um jornal tabloide chamado “Mensagem”, lançado em dezembro de 1974, cuja manchete estampava: “Adulteradores da obra de Kardec impedem a divulgação da verdade”.

O filósofo, a esse respeito, ainda teve bom humor para afirmar ao médium mineiro, em carta: “Imagine, meu caro Chico, um pintor de paredes corrigindo um quadro de Michelangelo ou um poetastro qualquer a corrigir “Os Lusíadas”, de Camões…

Herculano foi corajoso, sem usar a “linguagem untada de fraternismo adocicado”, mas a afinada com a utilizada nos Evangelhos, nas epístolas e nos trabalhos sinceros e francos de Kardec. Com a voz clara da verdade, distante da rudeza agressiva, fiel à verdade, o Professor disse o que sentia e com as palavras certas, sem simulações e com críticas construtivas. Avesso, como ele mesmo disse, em carta à FEESP, à “conversação de comadres”, sentenciou: “É realmente triste, para mim, ter de reconhecer e precisar dizer de público que Chico revelou desconhecer a extensão de sua responsabilidade no campo doutrinário. Mas a verdade é essa, pois se o reconhecesse não teria formado com Paulo e Jamil o trio interessado em “abrandar” o Evangelho. Chico entrou numa canoa furada por invigilância, como ele mesmo confessa, e ainda agora, reconhecendo o erro, quer sustentá-lo para não faltar com a solidariedade aos dois patetas, sem lembrar das consequências que o seu endosso a essa miserável trapaça, filha da ignorância e da vaidade, poderá acarretar para o movimento espírita. É duro dizer isto, mas é verdade”.

 

Mas Chico Xavier se portou dignamente e diferente daqueles que patrocinaram ou que defenderam a edição “reformada”. Envolvido que fora, indebitamente, na adulteração, já que havia sugerido o tal abrandamento dos textos kardecianos, embaraçado, sentiu-se responsável pelo crime e assumiu de pronto a sua total responsabilidade. E voltou a público para condenar a desfiguração d’O Evangelho, retificando, assim, a sua posição.

E a dignidade do Cisco de Deus foi além disso. Propôs ao nosso “metro que melhor mediu Kardec” que escrevessem, juntos, um livro contando todo o episódio, em detalhes históricos e de fundamento, para a posteridade. Para justificar o pedido, Xavier assim pronunciou, em setembro de 1975: “a sua veemência necessária na defesa da Obra de Allan Kardec me fez pensar muito no cuidado que todos nós, os espíritas, devemos ter na preservação dos textos referidos, sob pena de criarmos dificuldades irreparáveis parar nós mesmos, agora e no futuro”. Assim surgiu “Na hora do testemunho”, em 1978, obra que coroaria com louros sua trajetória espírita, já que no ano seguinte, 1979, o Professor desencarnaria.

Herculano, ainda, analisou com acuidade as obras de Chico, sobretudo as que foram da lavra de A. Luiz. E fez críticas pontuais às afirmações do espírito, destacando que “O Espiritismo estaria sujeito à mais completa deformação, se os espíritas se entregassem ao delírio dos caçadores de novidades”, no que prossegue qualificando o autor espiritual como “um neófito empolado pela doutrina, empregando, às vezes, termos que destoam da terminologia doutrinária e conceitos que nem sempre se ajustam aos princípios espíritas” (no livro “Vampirismo”, ao se referir ao conceito de “espíritos ovóides”), entre outras críticas.

E prossegue elucidando, afirmando que o próprio Emmanuel, ao prefaciar um dos livros de A. Luiz “se serve de figuras analógicas para explicar fatos e coisas que não poderiam ser explicados de maneira fidedigna em nossa linguagem humana”. E sentencia: “São perigosas as duas posições externadas: a dos que não aceitam essas obras como válidas e a dos que pretendem substituir por elas as obras de Kardec. Os princípios da Codificação não podem ser alterados pela obra de um espírito isolado. A Codificação não é obra de vidência, mas de pesquisa científica realizada por Kardec sob orientação e vigilância dos Espíritos Superiores”.

Herculano também deixou um claro recado para os que se maravilham e ficam estupefatos diante de obras mediúnicas: “Estudar, por exemplo, uma obra de Emmanuel ou André Luiz sem relacioná-la com as obras de Kardec, a pretexto de que esses autores espirituais superaram o Mestre (cujas obras ainda não conhecemos suficientemente) é demonstrar falta de compreensão do sentido e da natureza da Doutrina”. E arremata: “Opiniões pessoais, sejam de sábios terrenos ou do mundo espiritual, nada valem para a Doutrina. O mesmo ocorre nas Ciências e em todos os ramos do Conhecimento na Terra. Porque o Conhecimento é uma estrutura orgânica, derivada da estrutura exterior da realidade e nunca sujeita a caprichos individuais. Por isso é temeridade aceitar-se e propagar-se princípios deste espírito ou daquele homem como se fossem elementos doutrinários. Quem se arrisca a isso revela falta de senso e falta absoluta de critério lógico, além de falta de convicção doutrinária. O Espiritismo não é uma doutrina fechada ou estática, mas aberta ao futuro. Não obstante, essa abertura está necessariamente condicionada às regras de equilíbrio e de ordem que sustentam a validade e a eficácia da sua estrutura doutrinária”.

 

Amando o Chico, defendendo-o, posicionando-se sempre como um fiel escudeiro da obra kardeciana e procurando, com o mesmo bom senso e lógica do Codificador, Herculano se debruçou e acompanhou de perto a produção mediúnica de Chico e, com fraternal denodo, também alertou: “As próprias obras mediúnicas, psicografadas, que descrevem com excesso de minúcias a vida no plano espiritual, devem ser encaradas com reserva pelos espíritas estudiosos”.
Herculano chega a comparar as descrições luizinas com a obra “No Invisível”, do célebre León Denis, afiançando que estes devem ser utilizados, no máximo, como subsidiários, mas jamais afirmados como obras básicas do Espiritismo. Ao erigir tais livros como fundamentais (básicos), centros e grupos “caíram num plano de misticismo igrejeiro e de autoritarismo sacerdotal que desfiguram e ridicularizam o Espiritismo”.

REFERÊNCIAS

Vampirismo – Herculano Pires.
O Espírito e o Tempo – Herculano Pires.
Mediunidade: Vida e Comunicação – Herculano Pires.
J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec – Jorge Rizzini.

 

 


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