O real do Evangelho

15 de abril de 1864: lançamento do  “O Evangelho segundo o Espiritismo”

Marcelo Henrique

Em quinze de abril de 1864, depois de sete anos de seleção criteriosa de mensagens recebidas à sua vista ou enviadas por carta dos mais diferentes lugares, sobretudo da Europa, Allan Kardec resolveu publicar um livro que seria, ainda mais, afrontoso à moral religiosa vigente, seja ela católica ou protestante.

É fato que, desde a publicação do livro pioneiro – “O livro dos espíritos”, em abril de 1857 – os embates nem sempre eram amistosos, sobretudo da parte dos interlocutores religiosos. Mas, em “O que é o Espiritismo”, no Terceiro Diálogo, com o Padre, vemos um Kardec didático e compreensivo, como se ainda estivesse na cátedra escolar, proporcionando, por meio de dialéticas detalhadas, a compreensão mais acurada dos propósitos espiritistas.

Na Espanha, no entanto, o clero não estava nem um pouco disposto a dialogar e as ligações íntimas entre Igreja e Estado permitiram o confisco e a queima em praça pública de 300 volumes de obras espíritas, no “Auto de Fé de Barcelona” (9 de outubro de 1861).

Mas, ao publicar “Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo”, Rivail-Kardec alcança o coração da Igreja Romana, porque se “apropria” de um conhecimento que, até então, somente pertencia à religião institucionalizada. Vale lembrar que, de um universo de mais de cinquenta textos que falam dos feitos e das pregações de Jesus de Nazaré, apenas quatro deles tinham reconhecidos pela cúria romana como oficiais – canônicos – sendo, os demais, tratados como apócrifos.

Como, então, poderia alguém não ligado à religião, falar da vida de “Nosso Senhor” e ainda interpretar parábolas, atos, ações e curas (“milagres”), no contexto compreendido entre o nascimento e a paixão e morte daquele Sublime Carpinteiro, dando interpretações bem distintas daquelas pertencentes aos dogmas religiosos?

Blasfêmia!

Preliminarmente, Kardec não se valeu do conteúdo integral dos textos atribuídos a João, Lucas, Marcos e Mateus. Numa análise completa do conteúdo do “Evangelho Espírita”, não será possível encontrar muitos dos textos que estão nos capítulos e versículos do “Novo Testamento”. Espero que isto não seja surpresa para você, que estuda o Espiritismo.

Afinal de contas, sabe-se, os Evangelhos sofreram diversas modificações no curso da História, perpetradas pelo poder religioso vigente, com a intenção de fundamentar a dogmática litúrgica. Historicamente, três dos quatro autores viveram proximamente a Jesus, sendo dois deles seus discípulos (Mateus e João). Marcos, provavelmente, tenha sido um adolescente cujos pais acompanhavam alguns dos feitos e pregações do Nazareno, recebendo informações dos mesmos, enquanto Lucas teria vivido distante de Jesus, mas buscou aproximação com Maria, sua mãe, ouvindo dela muitos dos relatos.

Mesmo assim, a Igreja Romana apropriou-se de tais relatos e impregnou os mesmos de elementos para justificar os fundamentos da religião e, numa análise espírita, com base nos princípios e fundamentos da Doutrina dos Espíritos, percebe-se o tom místico e sobrenatural que é presente em muitas das passagens evangélicas.

Então, o que fez Kardec em parceria com as Inteligências Superiores? Selecionou os trechos que seriam verossímeis e corresponderiam à Moral de Jesus para explica-los à luz do Espiritismo. É o que se vê, logo na abertura do livro, no subtítulo da obra, em sua versão definitiva – que não é mais “Imitação”, mas, sim, “O Evangelho segundo o Espiritismo” – onde se lê: “Contendo a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida”.

Eis, aí, o ROTEIRO da obra “mais religiosa” do Espiritismo. E esta delimitação dada por Kardec é essencial, não só para o entendimento do que figura nos vinte e sete capítulos temáticos da obra – excepciono o último, o XXVIII, porquanto ele exorbite a proposta inicial da obra, para servir de referência para os que quiserem praticar a prece “segundo” o Espiritismo – como para demonstrar a desnecessidade “doutrinária” de ir buscar, nos textos da Bíblia (Novo Testamento) católica, por exemplo, versículos que não foram apropriados e interpretados conforme a razão lógica espírita. E, tampouco, outros livros como cartas, epístolas ou os atos dos apóstolos.

 

Quer conhecer – e bem – o homem Jesus de Nazaré, filho biológico de Maria e José? Centre seus esforços, dedicação, tempo, interesse e muita atenção, nos textos de “O Evangelho”. Embora Jesus também apareça nas demais obras kardecianas, é neste que ele é desnudado, em “Espírito e Verdade”.

Não é à toa, também, que o Evangelho Espírita é o livro de maior tiragem e maior vendagem – em termos de edições e editoras que, até hoje, o comercializaram e comercializam. Os números editoriais consagraram-no como o “livro mais popular” entre os da literatura espírita clássica, demonstrando o forte viés religioso dos espíritas brasileiros.

Mas Kardec não pretendeu fundar nenhuma igreja ou seita. Ao cunhar o Espiritismo como um neologismo – não vou discutir, aqui, se a palavra “Spiritsm” era ou não vigente na segunda metade do século XIX, por não ser o objetivo deste artigo e, também, por já existirem textos suficientes no meio espírita sobre isso – para definir a “Doutrina dos Espíritos”, ele a delimitou, no ramo dos conhecimentos humanos, como sendo uma “Filosofia Espiritualista com bases científicas e consequências ético-morais”. Nem mais, nem menos.

 

Este livro, que homenageamos em função da data, é muito mais do que um “livro de cabeceira”, apesar dele conter inúmeras mensagens relevantes para os distintos momentos da trajetória de vida dos espíritas (ou dos simpatizantes). É um livro para ser criteriosamente estudado, inclusive em face das interconexões que a obra tem com as demais.


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