O Ser Espírita

Por Edson Figueiredo de Abreu, do ECK | Não existe o “ser espírita perfeito”, aquele que deve ser seguido e idolatrado por todos, sendo idealizado como um modelo.

Ao longo de vários anos de atividades espíritas, tive a oportunidade de conversar e conviver com muitas pessoas, umas recém ingressas no estudo doutrinário, outras de vivência e conhecimentos doutrinários medianos e algumas conhecedoras da doutrina há um bom tempo. Nestas convivências, conversas e análises comportamentais, idealizei e formulei uma espécie de “conduta padrão” do ser espírita, que se modifica ao longo do tempo do seu aprofundamento no entendimento doutrinário.

Naturalmente que, em termos de comportamento, não se pode generalizar, e este artigo não tem a pretensão de “classificar”, “enquadrar” e muito menos “definir” o que é o “ser espírita” e sua conduta. Trata-se apenas de um ensaio puramente especulativo, fruto da observação do comportamento das pessoas no meio espírita, no qual incluo o meu próprio.

Vamos lá!!

Quem é o Espírita?

Para entender o comportamento do “ser espírita”, temos de primeiro especular sobre a origem do espírita e de como as pessoas surgem no movimento doutrinário. E neste caso, podemos dizer que o espírita é uma pessoa comum, que traz consigo uma série de atavismos, conceitos e preconceitos, e que, em mais ou menos 90% dos casos é atraído para a doutrina pela dor, através de problemas dos mais diversos tipos (doenças, perdas etc.).

Ou seja, dificilmente encontraremos no meio espírita alguém que acordou de manhã dizendo: puxa minha vida está boa demais, profissionalmente estou realizado, minha saúde está perfeita, meus conceitos filosóficos, científicos e religiosos me satisfazem plenamente, mas sinto que preciso me aprofundar mais. Tomei uma decisão, vou a um centro espírita!!

 

Naturalmente que existem exceções, mas estamos tratando aqui da maioria, e neste caso, desta maioria dos que vem pela dor, outros 90% querem a solução imediata de seus problemas e não estão dispostos a empreender nenhum esforço para isso. Não querem compromissos e não estão dispostos a investir seu tempo em estudos e mudanças de valores e atitudes. Este ainda não é o espírita, pois que normalmente não permanece no centro e não está disposto a mudar suas atitudes e crenças.

Então, tratamos aqui como espírita aquele que fica no centro espírita ou que se interessa em estudar os conceitos dessa nova doutrina. E, por se tratar de uma doutrina relativamente nova (fundada em 1857), dificilmente encontraremos um espírita que já tenha sido espírita em encarnação anterior, portanto, todos nós, exceto raríssimas exceções, estamos aprendendo os novos conceitos que o espiritismo nos traz.

Esta informação é importante de ser entendida, pois nos ajudará a caracterizar a conduta do espírita ao longo de seu aprendizado doutrinário, além de deixar bem claro que, não existe o “ser espírita perfeito”, aquele que deve ser seguido e idolatrado por todos, sendo idealizado como um modelo. A doutrina é nova e o aprendizado também, portanto não existem os professores ou mestres, todos são alunos.

 

No decorrer do nosso aprendizado espírita, passamos por algumas fases em nosso comportamento, que não necessariamente seguem a sequência a seguir apresentada, que podem ser bem delineadas ou então, apenas sutilmente perceptíveis, a saber:

Fase 1 = Euforia e Encantamento. Achamos a doutrina fantástica já que responde todos nossos questionamentos de forma clara e racional e, iludidos, acreditamos que aqueles que a representam são pessoas maravilhosas, evoluídas e desprovidas de qualquer defeito.

Fase 2 = Decepção e Desencanto. Descobrimos que as pessoas que acreditávamos maravilhosas e evoluídas, na realidade são pessoas comuns e, de repente, apresentam mais defeitos que nós mesmos.

Fase 3 = Acomodação. Após a decepção, na continuidade dos estudos doutrinários, finalmente entendemos que todos somos espíritos em evolução, e que todos, sem exceção, estamos aprendendo as lições adequadas à cada um. Descobrimos enfim, que temos que ter como ídolos nós mesmos.

Fase 4 = Estudo e Aplicação. É quando nós nos dedicamos ao aprendizado da doutrina com afinco e, acima de tudo, procuramos aplicar em nós mesmos este aprendizado. Entendemos a frase de Kardec: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”.

O interessante é que à medida que nos aprofundamos no conhecimento doutrinário, vamos aos poucos nos transformando e mudando nosso comportamento sem o percebermos. Começamos a escolher melhor os programas que vamos assistir, pois os filmes de violência, sexo e terror já não nos atraem tanto. Até o esporte deixa de ser um assunto de predileção. Passamos a selecionar as conversas, de repente assuntos de maledicência e piadas racistas e preconceituosas passam a nos incomodar. Até nosso gosto por música passa a ser diferente.

Às vezes, antes de nós mesmos, as pessoas notam esta transformação e uns elogiam, mas a maioria nos critica, pois não entendendo a mudança e querendo o ser antigo de volta, apontam-nos como beatos e fanáticos. Nessa fase precisamos tomar muito cuidado, pois algumas situações poderão ocorrer conosco, ou seja:

1) Nos encantamos com a doutrina ao ponto de nos dedicarmos a ela com afinco esquecendo-nos do mundo, tornando-nos assim verdadeiros fanáticos. Parece que a conciliação entre a doutrina e a vida que levávamos e, principalmente nossos antigos valores, não é possível.

2) Desistimos da doutrina porque achamos que ela está nos isolando do mundo ou porque não nos sentimos suficientemente equilibrados para permanecer nela. Na ânsia de querer transformar-se o mais rápido possível, descobrimos que não é bem assim, já que continuamos a manter os sentimentos naturais do ser humano comum, como raiva, medo, vaidade, mágoa etc. e nos decepcionamos conosco mesmo.

3) Ficamos na doutrina, mas ignorando nossos sentimentos que classificamos de impuros, vestimos uma capa de santidade que ainda não possuímos, escondendo de nós mesmos e dos outros nossos erros e defeitos, passando a cobrar nos demais, companheiros de doutrina ou não, algo que não conseguimos mudar em nós mesmos. Sem o perceber agimos como hipócritas!!

4) Tentamos conciliar a doutrina com nossas crenças enraizadas e, sem o notar, adaptamos os conceitos doutrinários, tornando a doutrina “libertadora” em “castradora”. Passamos a acreditar e até pregar ideias de punições, sofrimentos, culpa, pecado, degradação espiritual e processos obsessivos, em detrimento a responsabilidade individual, racionalidade, autonomia e emancipação espiritual que a doutrina proporciona.

5) Permanecemos no mundo vivenciando experiências diárias nas relações, perfeitamente adaptados e conciliados com a doutrina, conscientes que, vivendo em harmonia e equilíbrio, temos um papel importante a desempenhar na sociedade. Na realidade esta é a opção desejável e perfeitamente cabível, e vai depender unicamente de nós mesmos conseguir isso. A compreensão da autonomia e responsabilidade individual é importante aqui, pois nós entendemos que somos independentes e os únicos construtores do nosso ser espiritual.

Estas cinco situações acima apresentadas, não são fictícias, mas sim muito verdadeiras. Basta parar um pouquinho para observar e analisar o comportamento de nossos companheiros de ideal, além do nosso próprio, é claro, para encontrarmos pessoas que estão visivelmente enquadradas em uma delas.

Naturalmente que, na realidade, o que se espera verdadeiramente do “ser espírita” é que se enquadre no comportamento descrito no item 5, e, sinceramente desejo que muitos mais espíritas possam alcançá-lo o mais breve possível, porém, para isso, é necessário que aprendam a “pensar” fora dos padrões estabelecidos e questionar sempre, afinal, como preconizou Allan Kardec sobre raciocínio, “fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”

Então, ao “ser espírita”, questionar é permitido e, mais, questionar é necessário!!

Do grupo ECK

 

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