Os espíritas e as colônias espirituais

Grupo ECK | É um equívoco dizer-se que o Espírito André Luiz foi pioneiro na descrição de colônias espirituais.

Salomão Jacob Benchaya
Do grupo ECK – Espiritismo com Kardec

Se Allan Kardec não aprofundou tal investigação, nem por isso sua obra deixa de fazer referência à existência de paisagens, ambientes, objetos e formas no mundo dos Espíritos.

Há uma interessante e velha divisão entre os espíritas a respeito da existência de vida social e de colônias no mundo dos espíritos. Com a publicação da obra “Nosso Lar”, de André Luiz, em 1943, psicografada pelo Chico Xavier, descrevendo a vida organizada e as edificações na dimensão extrafísica, estabeleceu-se a divergência. O movimento espírita, de maneira geral, assimilou a ideia, tal a confiabilidade do médium e a chancela da FEB. Essa concepção ficou tão popularizada que, no imaginário religioso, Nosso Lar tornou-se sucedâneo do Céu, tanto quanto o Umbral equivale ao Inferno católico.

Os que se opõem à narrativa de André Luiz, posteriormente, acrescida de livros de outros espíritos e médiuns, argumentam que Kardec não tratou disso na codificação onde não há referência a cidades espirituais, muralhas, hospitais, templos, etc. Há vagas referências ao lugar, ao espaço onde os espíritos habitam. A vida espiritual seria uma vida de reflexões, totalmente divorciada de formas e impressões do mundo físico. Alguns opositores chegam a afirmar tratar-se de uma fantasia anímica do médium ou mais uma influência da tradição católica onde, também, se encontram descrições de esferas espirituais.

Sabe-se que a originalidade desse tipo de informação não é de André Luiz. O sábio e vidente místico sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772), em suas incursões no mundo espiritual, fez descrições pormenorizadas sobre a vida social, paisagens e construções ali existentes.

Anteriormente, a obra “Vida dos Santos Padres de Mérida” datada do século VII, cita o caso do menino Augusto que, antes de morrer, enfermo, afirmou que esteve num lugar maravilhoso, repleto de flores perfumadas, rosas, lírios, grama verde, coroas de pedras preciosas, véus de seda e onde soprava uma leve brisa perfumada. Viu também santos resplandecentes e participou de um banquete, além de outras descrições.

Outra visão do além, na Alemanha do século XII, é a produzida pela monja Hildegarda de Bingen, nascida em 1098, cujas visões ocorreram desde cedo. Em 1141, uma voz ordenou-lhe escrever tudo o que lhe fosse dito e mostrado. Em uma de suas visões, conforme sua obra “Scivias”, ela descreve uma cidade quadrada, numerosos edifícios, igrejas, palácios, colunas e casas comuns.

Numa obra literária de 1148, conhecida como “A Visão de Túndalo”, o monge Marcos descreve uma experiência fora do corpo do personagem Túndalo que, na companhia de um anjo, visita regiões de sofrimento e de felicidade. Nesse desdobramento vê lírios, rosas e outras plantas perfumadas e habitações para os que defenderam a Igreja. À semelhança da “Divina Comédia”, poema que Dante Alighieri escreveria, mais tarde, no século XIV.

É um equívoco dizer-se que o Espírito André Luiz foi pioneiro na descrição de colônias espirituais e do “modus vivendi” de espíritos, no livro “Nosso Lar” e seguintes.

Se Allan Kardec não aprofundou tal investigação, nem por isso sua obra deixa de fazer referência à existência de paisagens, ambientes, objetos e formas no mundo dos Espíritos. Veja-se a citação, em O Livro dos Médiuns, item 116, da aparição de um espírito portando uma caixa de rapé, portanto, um objeto, certamente constituído de “fluidos espirituais”, espécie de matéria do mundo espiritual que os Espíritos “podem concentrar (…) e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais” (LM, item 128, 4ª resposta do Espírito São Luiz). Na Revista Espírita de Abril/1868, há uma mensagem assinada por Makariosenagape, datada de 1798, descrevendo o deslocamento de um grupo de Espíritos por regiões do mundo espiritual e o encontro com uma entidade saída de um “delicioso bosque”. No livro “O Céu e o Inferno”, de 1865, na 2ª. parte que trata de Espíritos Felizes, Kardec publica mensagem assinada pela Condessa Paula referindo-se a “moradas aéreas, vastas regiões do espaço matizadas de cores…”. Essas narrativas contradizem a afirmação dos descrentes de colônias espirituais de que o mundo espiritual é apenas moral, destinado a reflexões do espírito e preparo para novas reencarnações.

 

Na verdade, vamos encontrar na obra de Kardec, pontos que negariam as colônias – LE, questão 1017, e RE-Abril/1859, “Quadro da Vida Espírita” – e pontos que sugerem a sua existência, como os acima citados.

Outras obras espíritas, anteriores à psicografia de André Luiz, contém narrativas favoráveis à existência de tais colônias e de vida social pós morte. Eis algumas delas: “A Vida Além do Véu”, do Reverendo George Vale Owen, (1913); “Raymond: Uma Prova da Sobrevivência da Alma”, de Sir Oliver Lodge (1915); “História do Espiritualismo”, de Arthur Conan Doyle (1926); “A Vida no Outro Mundo”, de Cairbar Schutel (1932); “Cartas de uma Morta” de Maria João de Deus, psicografia Chico Xavier (1935); “Memórias de um Suicida”, de Yvonne A. Pereira (1954). Há, ainda, o livro “Cartas de um morto-vivo”, psicografia da inglesa Elsa Barker, publicado no início do século XX, antes de Cairbar e de André Luiz, publicado em 1978, em português, pela LAKE. E mais a obra “A View into the Hereafter” (Examinando o Após-vida), do médium holandês Josef Rulof, ditada pelo seu guia Algar.

Autores clássicos como Ernesto Bozzano (“A Crise da Morte”), Leon Denis (“Depois da Morte”, Parte Quarta, item XXV, §12, e “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, Primeira Parte, subitem XII, §§1º e 2º) atestam a realidade objetiva da vida espiritual.

* Artigo originalmente publicado no Jornal Opinião.

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