Os (muitos) determinismos espíritas

O “morreu porque foi da VONTADE de Deus” passa a não fazer mais nenhum sentido. Morreu, sim. Mas por decorrência das Leis Espirituais.

 

Marcelo Henrique

Minha saudosa mãe, desde os meus dias de criança, tinha uma expressão que, volta e meia, aparecia, em distintas situações do cotidiano: – não cai um fio de cabelo sequer de nossas cabeças, se não for da vontade de Deus!

Aquilo me instigava…

Evidentemente, a fala não era originária dela. Ela havia ouvido esta expressão, durante a sua vida, certamente em ambientes religiosos, posto que era católica antes de se tornar espírita.
O fato é que tal (curiosa) expressão era uma espécie de mantra. Volta e meia era entoado. Sobretudo em relação às diversificadas situações da existência. Seja em relação a si, ao contexto familiar, à ambiência profissional, como, também, em relação àqueles com quem ela conversava.

Tenho pra mim que ela acreditava piamente nisto. E isto não a fazia uma criatura melhor nem pior, posto que pertencia ao contingente das crenças pessoais e, convenhamos, cada um tem as suas.
Mas eu – depois – entendi que aquilo soava como uma espécie de lenitivo ou consolo, uma justificação imaterial ou transcendental para as inúmeras situações da existência. Assim, quando o noticiário divulgava uma catástrofe, uma inundação, um terremoto, uma queda de uma aeronave, ao lado da comoção que ela – e nós – sentia (sentíamos), havia a repetição daquele bordão.
Ela passou a estudar com afinco o Espiritismo e a educar e aplicar a sua prodigiosa mediunidade, nas instituições que frequentou, atendendo a quantitativos representativos de pessoas, mas continuava entendendo aquele determinismo divino.

Traduzindo a expressão e entendendo-lhe o conteúdo, a partir da ideia religiosa (e porque não dizer dogmática, mítica e mística), a representação de um “Deus-humano”, feito à imagem e semelhança dos homens da Terra, conduzia ao entendimento de que ele, Deus, participava diretamente dos atos e fatos da vida planetária, individual ou coletivamente. Curioso, não?

Muitas pessoas não se dão conta disto e acabam repetindo frases – que possuem algum sentido, no conteúdo das crenças e da religiosidade íntima – e passam a acreditar realmente que haja toda uma previsão inafastável, uma espécie de roteiro infalível, com predeterminações espirituais (divinas) para o desenrolar dos atos e fatos da existência (material, física) das individualidades e das sociedades.

 

E, como não poderia ser diferente, uma vez que os espíritas (encarnados) são seres espirituais que possuem uma bagagem (pregressa) e uma educação (planetária) e, como tal, trazem e expressam um componente que possui contornos de espiritualidade, herdados tanto das vivências em agremiações religiosas (cristãs, em sua maioria) quanto da própria ambiência “espírita-cristã”, que se vivencia no Brasil espírita, desde o final do século XIX (a partir do pioneiro Teles de Menezes).

A incidência do Cristianismo (igrejas cristãs) no Espiritismo é total e permanente – sobretudo enquanto ainda estivermos no “período religioso”, como Kardec acentuou (Revista Espírita, “Período de Luta”), sendo muito comum que as expressões da ambiência espírita, nas manifestações de simpatizantes, adeptos, estudiosos, dirigentes, expositores e escritores, estejam carregadas de símbolos e cores que advém da interpretação cristã – e não da espiritual-espírita.

Contribui fortemente para tal cenário o fato de que, já na origem, isto é, no conjunto de 32 obras legadas por Rivail-Kardec à Humanidade, as principais assinaturas nas psicografias sejam de vultos religiosos, católicos em sua imensa maioria. E, como sabemos que a morte não transforma NINGUÉM naquilo que NÃO É, o natural é que, desencarnados, mesmo com apreciável e destacada condição moral – um dos dois elementos que constituem o progresso espiritual, aliado à inteligência – continuem se manifestando com suas idiossincrasias, crenças e valores religiosos, exatamente como nutriram em suas existências “na batina”.

Cabe-nos, no exercício da racionalidade e da lógica, premissas, aliás, estabelecidas pelo próprio Codificador, em termos de mensagens e atividades espiríticas, saber separar o que é da individualidade e o que é principiológico, calcado na expressão (nem sempre utilizada ou presente) do Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos.
Mas, voltemos ao(s) determinismo(s) espírita(s).

Seria adequado, assim, entender que as mais diversificadas situações do cotidiano, atos e fatos, individuais e coletivos, seriam ocorrências baseadas na VONTADE de Deus? O que pensar disto… Como seria a representação divina, a partir dos conceitos da Doutrina dos Espíritos? Em outras palavras, como é o “Deus do Espiritismo”?
Você já parou pra pensar sobre a ideia (pessoal) acerca de Deus? E nas ambiências espíritas que você frequenta ou participa, presencial ou virtualmente, qual é a noção de Deus que sobressai? Pense um pouco…

Há um Deus punitivo? Há um Deus severo? Há um Deus administrador da Justiça Divina? Há um Deus conselheiro? Há um Deus que se manifesta (verbalmente) em relação às Suas criaturas? Há um Deus que se entristece ou se irrita, quando agimos equivocadamente; ou se alegra e exulta, ao constatar que acertamos? Há um Deus que premia ou castiga? Pense mais um pouco…

 

Quando algo de bom, positivo, vitorioso acontece na sua vida, você acredita que é uma benesse divina? E quando passa por percalços, infortúnios, males, é uma espécie de maldição da divindade? Hum…

Se você acredita que a Justiça Divina se baseia nestas premissas salientadas nos dois parágrafos anteriores, minha amiga e meu amigo, penso que seja o momento de REVER CONCEITOS.

Durante muito tempo e até hoje, sempre que sou convidado a expor temas que guardem correlação com a dinâmica do Universo e a aplicabilidade das Leis Divinas, principalmente porque desde 1989 eu milito na área do Direito, eu costumo fazer estas afirmações: “Deus não se imiscui na rotina das individualidades espirituais humanas”; “Deus não joga dados”; “Deus não se acha sujeito às variações de humor, presentes no homem”; “Deus, o Pai, não se alegra nem se irrita com os atos falíveis de seus filhos, os Espíritos”; “Deus não concede honrarias ou premiações, nem punições ou represálias”; “A administração do Universo não está nas mãos de Deus, mas decorre da aplicação direta das Leis Universais, sem a interferência pessoal de Deus”.

Estes paradigmas, para mim, fazem todo o sentido! Eles não terceirizam a responsabilidade nem transferem para uma entidade “sobrenatural” a distribuição da própria Justiça (Divina). Quando Kardec perguntou às Inteligências Superiores acerca do conhecimento (humano e espiritual, porque somos Espíritos) sobre o conjunto das Leis Divinas (ou Leis Espirituais), para, assim, justificar a aplicação da própria lei às individualidades, eles responderam: as leis estão grafadas na consciência (de cada um).

Na atualidade, assim, vejo pessoas que parecem buscar uma justificativa para as mais diversas situações da vida. Veja-se, por exemplo, a questão da pandemia que assola este planeta. Muitos espíritas acham que ela, a pandemia, é algo “arquitetado espiritualmente” para “acelerar” o progresso (individual e planetário). Uma espécie de “seleção espiritual” para contemplar os mais aptos (aqueles, por exemplo, nesta ilação, que não estejam desencarnando por efeito da doença). E, também, como vez por outra é repetido em fóruns espíritas, que é necessária a “intervenção” espiritual para que o progresso da Terra, deixando a fase provacional-expiatória e alcançando a regenerativa, ocorra.

O que dizer, respeitosamente, deste raciocínio? Será que ele respeita as premissas da Doutrina dos Espíritos? Este pensamento se constitui em elementos de AUTONOMIA do Espírito, onde cada qual age e responde acerca de suas decisões e escolhas, tal qual teria dito Yeshua, sobre “ser livre a semeadura e obrigatória a colheita”?

Ainda agora, duas senhoras com quem eu conversava em uma ambiência espírita, me diziam: “- Ah, pra que usar máscara? Pra que se precaver tanto? Não seria melhor obter os anticorpos para que o vírus não alcance a gente? Deus é que sabe! Só morre quem tem de morrer!”.

 

E por aí, vai…

Há um expressivo contingente de espíritas que, realmente, “acredita” nisto. E segue a vida, entendendo que “o que é seu está guardado”, no sentido de que não vá acontecer, a eles, nada do que não esteja “programado”. Como se a dinâmica da vida fosse agir de uma forma “teleguiada” ou cumprindo um “roteiro” totalmente pré-estabelecido. Como se as esquinas das ruas da cidade não permitissem, a cada passo, a cada novo instante, divisar situações extraordinárias, inéditas, de livre entendimento e decisão, o que faz, certamente, da vida (de encarnados) essa mágica de poder se surpreender (positiva ou negativamente) a cada passo.

Um raciocínio tido como espírita em que tudo seja “controlado” ou “decidido” por Deus, me parece, como disse Rita Lee em uma de suas canções “muito chatinho”. Ao invés de assumirmos o protagonismo existencial, a condição de artistas principais do cenário de nossas vidas, deixamos que o “destino”, a “programação encarnatória” ou “Deus” tomem as rédeas do nosso viver.
E, então, diante dos FRACASSOS, dos ERROS, das DESGRAÇAS, das PROVAS/EXPIAÇÕES, só resta aos que assim pensam, o lamento, a tristeza, as lágrimas e a subserviência àquilo que, dizem eles, não pode ser mudado. Tudo pode ser mudado! Tudo parte de nós e a nós retorna, como a figura do bumerangue…

Resta-nos fugir dos determinismos espíritas. Como? Mudando a forma de pensar e entender a vida. Ficando atentos para a explicação coerente das Leis Espirituais – e não a tradução religiosa para textos ou máximas contidas, até mesmo, nas obras de Kardec. Vejo muitos “ditando” a forma de entendimento das questões espirituais e espíritas. E observo, aqui ou ali, uma multidão de seguidores cegos àquilo que uns e outros estabelecem como “a interpretação única”.

 

Se, APENAS, como disseram os Espíritos a Kardec, há uma única SITUAÇÃO FATAL na existência humana, que é o momento de consumação da morte (física, porque o Espírito a ela sobrevive), no sentido de que, ao ocorrer a mesma, não há retorno, ou seja, ninguém “revive” naquela existência e circunstância, nenhum de nós pode dizer, com exatidão, qual seja o INSTANTE DA MORTE. Isto é, até em relação a ela (se quisermos evitar as circunstâncias de perigo, de risco e de favorecimento ao desencarne, por opção pessoal), NÃO HÁ determinismo!

E o “morreu porque foi da VONTADE de Deus” passa a não fazer mais nenhum sentido. Morreu, sim. Mas por decorrência das Leis Espirituais, o que afasta, das “mãos de Deus” qualquer responsabilidade na execução (e nos efeitos) dos mínimos atos da existência.

Concorde você, ou não, com estas linhas, tenho certeza que elas lhe farão pensar muito – e diferentemente – sobre os tais “determinismos espíritas”.

Até a próxima!


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+ Marcelo Henrique