Pacto pela inteligência

André Azevedo da Fonseca

Uma recente pesquisa de opinião com estudantes em todo o Brasil registrou um dado cultural muito relevante, mas que ainda não foi discutido com a intensidade que o problema exige. Percebeu-se que alunos que têm o hábito de estudar são sistematicamente hostilizados pelos colegas. Em outras palavras, aqueles que gostam de ler, que prestam atenção nas aulas e dedicam-se ao curso são discriminados e ridicularizados pela maioria. Além de enfrentar os livros, esses alunos têm que combater toda uma cultura do atraso para firmar posição perante a turma.

É claro que a escola é co-responsável por essa quantidade de estudantes que odeiam estudar. Em geral, o sistema educacional não favorece uma situação onde os estudantes possam desfrutar da liberdade de decidir, com os professores, os assuntos que querem estudar. Ao contrário do que prega a teoria, alunos não são convidados para a elaboração dos projetos pedagógicos. Assim, é compreensível o boicote. Mas colocando de lado a discussão pedagógica, há uma questão cultural no centro do problema, que é ainda mais grave: trata-se da “ridicularização da inteligência”.

Em nossas relações de sociabilidade, persiste uma espécie de pacto pela ignorância que garante a todos os signatários um certo conforto espiritual rasteiro ao nivelar por baixo os níveis de inteligência exigidos para o convívio social. Nessa opção por uma vida regulamentada pela futilidade e estupidez, os inteligentes são vistos como traidores que romperam o contrato. Tornam-se, portanto, ameaças indesejáveis. Assim, os ignorantes, que não têm talento ou força de vontade para desenvolver a própria capacidade intelectual, passam a atacar os estudiosos de várias maneiras. A forma mais identificável – e óbvia – é a tentativa de difamar aquilo que invejam. E como estamos falando de sociabilidade, isso se faz sobretudo através de zombaria, menosprezo e ridicularização.

“De tanto estudar, ficou doido!” – eis um dito comum, tipicamente desdenhoso, neste pacto pela burrice. Na estratégia psicológica de desmerecer aquilo que não se tem, o partidário da estupidez procura, em uma bizarra inversão, associar a inteligência à demência mental. Apelidam o sábio de retardado! Evidentemente, sabemos que é justamente o contrário: quem estuda fica mais lúcido, articula melhor as idéias e compreende a realidade com mais perspicácia. É sintomático perceber como a chacota do “inteligente maluco” é forte em nossa cultura. Só que isso não existe. Ninguém fica doido de tanto estudar! É mais fácil ficar doido de tanto ser burro.

“Intelectual é bitolado, cdf, careta, fica sofrendo estudando, não vive a vida”. Ignorantes por opção, essas criaturas não compreendem que o estudo e a leitura são atividades prazerosas. Pessoas inteligentes não sofrem ao estudar, pois o exercício do pensamento é uma atividade agradável. A aventura do conhecimento é um desafio que leva o espírito às alturas. Na verdade o estúpido que é o bitolado, por ter visão limitada. E tem mais: como ensina Bill Gates, respeite o colega “cdf”, pois provavelmente ele será seu chefe no futuro…

É trágico quando percebemos que o pacto pela burrice já envolve políticos, jornalistas e até professores – aqueles que supostamente deveriam valorizar o saber. Essas pessoas odeiam a inteligência e, sempre que têm oportunidade, zombam dos estudiosos ao mesmo tempo em que elogiam a futilidade e festejam a própria ignorância. Precisamos urgentemente de um pacto pela inteligência. Caso contrário, aí sim, ficaremos cada dia mais insensatos.

André Azevedo é jornalista e historiador. Publicado também na revista Novae

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