Pazear, o verbo

Maria Gardênia Maders Garcia

Para o desenvolvimento do trabalho de hoje, utilizamos como base o Livro Caminho, Verdade e Vida, pelo Espírito Emmanuel, psicografia de Chico Xavier.

E no capítulo 53 desse livro, encontramos a passagem Bíblica em que Jesus, após o drama do Calvário, consumada Sua desencarnação, começava a manter contato com os Apóstolos. Por algum tempo, dedicou-Se a orientá-los e a encorajá-los.  E em uma dessas aparições, Ele afirmou: A paz seja convosco. Essa singela frase, no contexto em que foi proferida, merece muitas reflexões. O Mestre retornou do plano espiritual para confortar Seus discípulos.

Mas O fez de forma reservada e não em uma praça pública, com tumulto e escândalo. Não lhes deu soluções fáceis para os problemas que vivenciavam e vivenciariam. Não fez revelações bombásticas. Jesus apenas demonstrou a sobrevivência da alma após a morte do corpo e lhes desejou paz.

Estamos aqui diante de um assunto sem fim, que é a Paz!

Esse tema nos emociona, atravessa nossos sentimentos num sonho muito grande, de toda a humanidade, de que a Paz pode realmente ser conquistada.

Este tema nos estimula a refletir sobre a nossa vida, nossa conduta, nossa postura diante dos fenômenos que acontecem por aí e é preciso falar sobre as tentativas de minimizar as dificuldades e diferenças sociais, os preconceitos e as injustiças.

Valioso é todo o estímulo de que a sociedade receba visando a confraternização e tendo esses princípios maiores de vida, que são as Leis Morais dentro do conceito da solidariedade, igualdade e justiça.  E, se não conseguimos fazer isso de forma aberta, podemos fazer dentro da individualidade, no nosso dia a dia e é isso que estamos buscando fazer hoje aqui.

Certa vez, houve um concurso de pintura e o primeiro lugar seria dado ao quadro que melhor representasse a paz. Ficaram, dentre muitos, três finalistas igualmente empatados.

O primeiro retratava uma imensa pastagem, com lindas flores e borboletas que bailavam no ar, acariciadas por uma brisa suave.

O segundo mostrava pássaros a voar sobre nuvens brancas como a neve, em meio ao azul anil do céu.

O terceiro mostrava um grande rochedo, sendo açoitado pela violência das ondas do mar em meio a uma tempestade estrondosa e cheia de relâmpagos.

Para surpresa e espanto dos finalistas, o escolhido foi o terceiro quadro, o que retratava a violência das ondas contra o rochedo.

Indignados, os dois pintores que não foram escolhidos questionaram o juiz que deu o voto de desempate:

Como este quadro tão violento pode representar a paz, sr. Juiz?  E o juiz, com uma serenidade muito grande no olhar, disse:  Vocês repararam que, em meio à violência das ondas e à tempestade há numa das fendas do rochedo um passarinho com seus filhotes dormindo tranquilamente?

E os pintores sem entender responderam: Sim, mas…

Antes que eles concluíssem a frase, o juiz ponderou:

Caros amigos, a verdadeira paz é aquela que, mesmo nos momentos mais difíceis nos permite repousar tranquilos.  Paz é conceituada como ausência de lutas, violências ou perturbações sociais. No sentido individual é a ausência de conflitos íntimos, o sossego. É comum confundirmos a ideia de paz com estagnação.  Para muitos, significa nada fazer. É a possibilidade do repouso, do descanso merecido. Para outros, ter paz é não ter obrigações, não ter que cumprir horários, ter liberdade.Para outros tantos a paz é ter conforto material, facilidades econômicas, prestígio social, enfim, tudo que alimente a fantasia do poder. Para alguns mais, a paz significa ter a família bem constituída sem agitos no relacionamento doméstico.

 

É ter filhos ajustados, estudiosos, que não causem maiores preocupações.  Para muitos a paz significa gozar de saúde física, não necessitar de cuidados médicos. Jamais ter de se submeter a cirurgias ou hospitalizações, é não ter sequer um resfriado, vangloriando-se, então, de possuir uma saúde perfeita.

Mas a paz proclamada pelo Cristo é bem diferente disto tudo. Está muito longe desses conceitos que alimentam vaidade, que incentivam privilégios ou discórdias. A paz que o Cristo veio trazer e nos legou é a que propõe trabalho ativo e continuado para o bem.  É a que ensina o cumprimento dos deveres como parte da autodisciplina. É a que sabe tirar proveito das dificuldades materiais, não permitindo acomodação, mas sim, estimulando a luta para superar as provas.  A paz que vem do Mestre Jesus é a que permite enfrentar a família-problema, sem propostas de fuga, permitindo que cada um seja o professor do outro dentro do lar. A paz do Cristo é a que ensina ao indivíduo a fazer bom uso do seu corpo, não importando se enfermo ou sadio, pois ele é instrumento de que se utiliza o Espírito para avançar, para progredir rumo ao aperfeiçoamento.

Jesus é Paz e precisamos nos aproximar dele.

Devemos conservar o amor em Jesus em todas as religiões, não nos esquecendo de que para produzir a paz, temos que cultivar o amor no outro que está vivendo conosco aqui na Terra.

A Doutrina Espírita, com base no pensamento de Jesus, convida espíritas ou não para a paz.  Ela nos ensina que Deus fala em nós através de nossa consciência.  Sabemos exatamente o que devemos e o que não devemos fazer com nosso semelhante, o que é bom para nós e o que é bom para o outro.  Então temos que colocar isso em prática, tanto quanto nos seja possível.  Essa vivência de amor e paz vai se constituir em realidade não só para o indivíduo, mas para toda a sociedade. Temos que ter o coração aberto, a mente aberta e estarmos dispostos realmente a ser felizes e conquistar essa paz.

Em O Livro dos Espíritos, no comentário à questão 930, o Codificador observa que “com uma organização social previdente e sábia o homem não pode sofrer necessidades, a não ser por sua culpa (…) Quando o homem praticar a Lei de Deus, disporá de uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade (…)”, consequentemente vivendo numa cultura de paz.

Também em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo IX, outro comentário de Kardec enaltece os rumos da paz: “(…) Quando a lei de amor e caridade for a lei da Humanidade, não haverá mais egoísmo; o fraco e o pacífico não serão mais explorados, nem esmagados pelo forte e pelo violento. Tal será o estado da Terra quando, segundo a lei do progresso e a promessa de Jesus, ela tornar-se um mundo feliz (…)”.

Então senhores, senhoras, crianças e jovens:

O QUE PODEMOS FAZER HOJE PARA ESTARMOS EM PAZ?

Primeiramente encontrar a paz dentro de nossos corações. A paz é um estado de espírito permanente, ela começa conosco e não com qualquer pessoa. Se uma pessoa estiver permanentemente em ação de paz, o mundo à sua volta se beneficiará com essa atitude. E se a paz mundial ainda não é realidade em nosso planeta, façamos paz em nosso mundo íntimo. Essa atitude só depende de uma única decisão: a NOSSA.

A nossa paz interior é capaz de neutralizar o ódio de muitas criaturas. Se mantivermos acesa a chama da paz em nossa intimidade, então podemos acreditar que a paz mundial está bem próxima. Porque, na verdade, a paz do mundo começa no íntimo de cada um de nós.

Vamos nos educar, começando dentro de nossa casa, ou melhor, primeiramente dentro de nossa casa que é o nosso corpo, pois esta é a casa que estamos utilizando agora. Vamos trabalhar dentro dele, com ações. Nós sabemos perfeitamente que o que interessa são as ações.

Quando Cristo falou “Bem aventurados os mansos, pois herdarão a Terra”, temos que pensar sobre o fato de estarmos num momento de transformação e, se desejamos herdar essa Terra, uma Terra melhorada, temos que ser mansos. Ser manso quer dizer ser calmo e equilibrado, justo e preciso.

A Doutrina Espírita coloca essa proposta de uma forma bastante clara no sentido de que não se espera perfeição de cada um de nós, mas a valorização dos bons atos, para que predominem sobre nossos atos ruins e que a gente se esforce para busca-los. Praticar a Paz, é saber como nós estamos preparados para gerar a solidariedade no momento da pressão, no momento em que o atrito existe, é respeitar a opinião do outro, é ter consideração com ser humano, que é teu companheiro e que está pisando na Terra em qualquer situação de ordem social ou familiar, mas que é espírito como nós e está evoluindo.

 

E falando em família, precisamos lembrar sobre a paz nos lares, dizer que dos laços de sangue surge uma nova história, a chance de refazer os caminhos. Precisamos estar atentos à família que nos abraça.

Estão ali, muito claros para nós, os maiores objetivos que nos trazem a mais uma encarnação na Terra. Estão ali, nas diferenças e afinidades que nos unem, as provas benditas que nos farão melhores hoje do que fomos ontem. Estão ali, no coração do pai, da mãe, dos irmãos e dos filhos, as sementes da nova era de paz que se estabelece gradualmente na Terra. Eis então a importância de praticarmos a paz em nossos lares.

Por curiosidade, alguém aqui já ouviu a palavra PAZEAR? 

Pois bem, esse Verbo é desconhecido e ainda pouco usado.  O verbo PAZEAR, segundo os dicionários, significa estabelecer paz ou harmonia. Sua conjugação, no presente do indicativo, é a seguinte: eu pazeio, tua pazeias, ele pazeia, nós pazeamos, vós pazeais, eles pazeiam.

E, mais interessante, é que dificilmente nós o conjugamos na fase escolar; nossos avós também não o fizeram e, se o mantivermos esquecido, as gerações futuras também não o farão. É que a cultura humana valoriza, com muita ênfase, as ações e a cultura de guerra.

Tanto que conhecemos na escola os heróis de guerra, os corajosos revolucionários; quando abrimos um livro de história logo nos deparamos com batalhas, guerras entre nações, guerras religiosas ou civis, conflitos de toda ordem. Aí aprendemos com facilidade a conjugação do verbo guerrear esquecendo de falar dos inúmeros conquistadores da paz.

Para criar uma cultura de paz, incentivar o cultivo da paz nos lares, nas escolas e em todas as iniciativas sócio-econômicas, sócio-culturais, sócio-políticas e religiosas no planeta é preciso desde já ensinar crianças e adultos a conjugar o verbo pazear.  Um movimento intitulado MOVPAZ, de uma ONG – Organização não governamental – internacional, em parceria com o Governo do Estado da Paraíba, pretende instalar naquele Estado o primeiro Museu da Paz do Brasil e do planeta.

 

A ONG MOVPAZ criou o projeto Paz pela Paz e não à violência e tem efetuado ações práticas em favor da paz, ganhando adesão de autoridades, artistas e músicos, principalmente na região nordeste do país, mas com outras iniciativas em diversos estados do Brasil.

Talvez muitas pessoas não consigam entender como pode reinar a paz em meio à tempestade, mas não é tão difícil de entender. Considerando que a paz é um estado de espírito, podemos concluir que, se a consciência está tranquila, tudo à volta pode estar em revolução que conseguiremos manter nossa serenidade. Fazendo uma comparação com o quadro vencedor, poderíamos dizer que o ninho do pássaro, que repousava serenamente com seus filhotes, representa a nossa consciência.

A consciência é um refúgio seguro, quando nada tem que nos reprove. E também pode acontecer o contrário: tudo à volta pode estar tranquilo e nossa consciência arder em chamas. A consciência, portanto, é um tribunal implacável, do qual não conseguiremos fugir, porque está em nós.

É ela que nos dará possibilidades de permanecer em harmonia íntima, mesmo que tudo à volta ameace desmoronar, ou acuse sinais de perigo solicitando correção. Concluímos que a paz não será implantada por decretos nem por ordens exteriores, mas será uma conquista individual de cada criatura, dentro da sua intimidade.

Por isso, em nome da paz devemos espalhar amor em todos os lugares. Primeiro, em nosso próprio lar, aos nossos filhos e aos demais familiares. Depois, ao nosso vizinho de porta e aos outros moradores da nossa rua.

Devemos ser a expressão viva da bondade de Deus: bondade em nossa face, em nossos olhos, em nosso sorriso, bondade em nosso caloroso cumprimento. Esta uma ótima receita para se conquistar a paz.

Dez Apontamentos de Paz

1º – Aprenda a desculpar infinitamente para que os seus erros, à frente dos outros, sejam esquecidos e perdoados.

2º – Cale-se, diante do escárnio e da ofensa, sustentando o silêncio edificante, capaz de ambientar-lhe a palavra fraterna em momento oportuno.

3º – Não cultive desafetos, recordando que a aversão por determinada criatura é, quase sempre, o resultado da aversão que lhe impuseste.

4º – Não permita que o egoísmo e a vaidade, o orgulho e a discórdia se enraízem no seu coração, lembrando que toda a idéia de superestimação dos próprios valores é adubo nos espinheiros da irritação e do ódio.

5º – Perante o companheiro que se rendeu às tentações de natureza inferior, deixe que a compaixão lhe ilumine os pontos de vista, pensando que, em outras circunstâncias, poderia você ocupar-lhe a indesejável situação e o lugar triste.

6º – Não erga a sua voz demasiado e nem tempere a sua frase com fel para que a sua palavra não envenene as chagas do próximo.

7º – Levante-se, cada dia, com a disposição de servir sem a preocupação de ser servido, de auxiliar sem retribuição e cooperar sem recompensa, para que a solidariedade espontânea te favoreça com os créditos e recursos da simpatia.

8º – Esqueça a calúnia e a maledicência, a perversidade e as aflições que lhe dilaceram a alma, entendendo nas dores e obstáculos do mundo as suas melhores oportunidades de redenção.

9º – Lembre-se de que os seus credores estão registrando a linguagem de seus exemplos e perdoar-lhe-ão as faltas e os débitos, à medida que você se fizer o benfeitor desinteressado de muitos.

10º – Não julgue que o serviço da paz seja mero problema da boca, mas, sim, testemunho de amor renúncia, regeneração e humildade da própria vida, porque, somente ao preço de nosso próprio suor, na obra do bem, é que conseguiremos reconciliar-nos, mais depressa, com os nossos adversários, segundo a lição do Senhor.

 

CONCLUSÃO

Ter paz é agir no bem. Qualquer que seja a nossa situação no mundo, somente teremos paz no íntimo quando aprendermos a ser o melhor para os outros, a fazer o melhor para os outros, a vibrar o melhor para os outros, valendo-nos do nível ao qual já tenhamos chegado na vida, seja ele qual for..

PRECE PELA PAZ

O texto foi escrito em 1865, mas é espantosamente atual.

(Psicografada em reunião do Instituto André Luiz, em 03.11.2002)

Jesus e Mestre, peço hoje pela paz, porque sem ela todas as realizações são ínfimas, senão impossíveis.

Peço pela paz no mundo, para que algumas nações desistam de milenares lutas rancorosas e que tanta insegurança e temor tem levado aos povos que vivem e trabalham pacificamente.

Peço pela paz interna em todos os países do planeta, para que o progresso e a felicidade possam desenvolver-se plenamente, auxiliando e melhorando a vida em geral.

Peço pela paz nas grandes cidades do mundo, foco centralizador das realizações nobres e pioneiras, mas que tem gerado igualmente múltiplos problemas sociais devido às desigualdades gritantes dentro de seus limites geográficos.

Peço pela paz nos bairros, germinadores de reaproximações, provações e resgates, e onde fazes renascer imenso número de espíritos a buscar, pela similaridade de pensamentos, os mesmos objetivos pelos quais se reuniam no mundo espiritual.

Peço pela paz nas casas, para que os corações reunidos nos sagrados laços familiares, se compreendam, se auxiliem mutuamente e juntos conquistem a harmonia afetuosa, pura e inalterável.

Peço, finalmente, Senhor, a paz individual, a paz íntima para todos nós, porque toda e qualquer condição existencial no Universo principia, invariavelmente, dentro de cada ser, perfazendo enfim um todo, e que produz o bem ou o mal, conforme as inclinações gerais.

Que assim seja!


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