Provas, expiações… e muito lixo!

A literatura espírita nos oferece o perfil de que a Terra é um hospital-escola. Mas os excessos de consumo estão dando outra característica ao planeta: a de lixeira

Por George De Marco

Uma ilha feita de 50 mil metros quadrados de lixo. Essa ilha existe e está no arquipélago das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico. A maior parte do lixo vem da capital, Male, com 100mil habitantes, somados com os mais de 10mil turistas que visitam as ilhas por dia, provocando maior produção de lixo.

A solução foi criar uma outra ilha que abrigasse indústrias e depósitos, alimentados por caminhões que chegam em barcos todo o tempo.

O lixo orgânico é queimado na hora. Plástico e metal são separados para reciclagem. O resto forma a base do território desta ilha que se formou nas útilmas duas décadas e que ninguém quer visitar. Esta foi a solução do governo das Ilhas Maldivas para o lixo produzido lá. Qual a solução para o lixo produzido no mundo inteiro? Criar um planeta feito de lixo? Ou transformar a Terra numa grande lixeira?

Na dúvida, pergunte a si mesmo: Para onde vão as coisas que jogamos fora? Acompanhe o que é feito da ilha de lixo: alguma coisa vai para reciclagem. Mas nem todo produto pode ser reciclado. Então é queimado. A queima do lixo lança várias substâncias tóxicas, entre elas o metano, muito mais venenoso que o CO2 e o principal causador do “efeito estufa”. Somente os Estados Unidos produzem 30% do lixo mundial, apesar de representarem apenas 5% da população de todo o planeta. Caso todos os países produzissem lixo em igual porcentagem, seriam necessários mais de 3 planetas para comportar tamanha degradação. Mas só temos um.

DA CRISE À CRISE

Depois da Grande Depressão Econômica nos EUA, que mergulhou o mundo numa crise nunca antes experimentada, a segunda grande guerra catalisou a recuperação econômica norte-americana. O desafio era adaptar a economia de guerra para os tempos de paz. A solução veio de Victor Lebow, chefe do conselho de assessores econômicos do então presidente Eisenhower: produzir mais bens é preciso extrair mais, explorar os recursos do planeta. Os recursos naturais são misturados a produtos tóxicos no processo de manufatura dos produtos. Depois são postos à venda. Para vendê-los, a máquina publicitária emplaca modismos variados, sem os quais ficaremos à margem da sociedade. Então compramos cada vez mais e mais rápido. O consumismo tornou-se o centro de nossa identidade.

Na questão 715 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta sobre o limite do necessário e os Espíritos afirmam que “aquele que é sensato o conhece pela intuição: muitos o conhecem pela experiência e à sua própria custa”. E o custo está claro: trabalhamos muito para consumir mais e tudo que consumimos tem efeito direto na Natureza. Após seis meses da venda, apenas 1% dos produtos ainda circulam. Ou seja, 99% das coisas são descartadas em menos de seis meses! Viram, simplesmente, lixo. Cada pessoa produz, em média, dois quilos de lixo. Para cada lata de lixo que produzimos, outras 70 latas são geradas pelas indústrias que fabricam o que compramos. Este sistema linear (extração, produção, distribuição, consumo e descarte) que não tem como funcionar num planeta de recursos finitos, entrou em crise. Segundo a questão 713 do mesmo livro, os prazeres têm limites traçados pela própria natureza.

Pelos excessos, punimos a nós mesmos. A compra de um produto novo produz um prazer imediato, mas, quando acaba a novidade, volta aquela sensação de vazio, que será solucionada com outra compra, e assim sucessivamente. Allan Kardec alerta: O homem que procura nos excessos de toda espécie um requinte de prazeres coloca-se abaixo do animal, porque o animal sabe deter-se na satisfação da sua necessidade. Despreza o homem a razão que Deus lhe deu por guia, e, quanto maiores os seus excessos, mais domínio exerce sua natureza primitiva sobre sua natureza espiritual. As doenças, a decadência, a morte prematura decorrentes dos abusos são a conseqüência da transgressão da lei divina.

Assim, comprando um modismo que nunca se satisfaz, entramos também numa crise existencial.

ESPANTANDO MOSCAS

Ainda acreditamos que o que “os olhos não vêem o coração não sente’”. Não vemos o lixo espacial, por exemplo. Mas em órbita da Terra trafegam 3000 satélites ativos e mais de 17 mil fragmentos de artefatos lançados do planeta, como foguetes, satélites desativados e ferramentas perdidas por astronautas. Recentemente, dois satélites colidiram, chamando a atenção para os riscos que o lixo espacial em órbita oferece. Também não enxergamos a situação completa que envolve o consumismo e suas armadilhas. Ao vermos um produto qualquer numa loja, sabemos que ele foi produzido, mas não sabemos em que circunstâncias aquele produto chegou até ali. E também sabemos que aquele produto vai para o lixo, por que ele foi feito para isso: pode durar cada vez menos.

Depois que o jogamos fora, não nos importamos com o que vai acontecer dali por diante. Portanto, uma solução imediata seria a consciência de toda a situação, de todo esse sistema linear. Ter noção do que está por trás de nosso estilo de vida. Saber que nossa escolha pessoal, como consumidores, tem suas conseqüências na natureza, na sociedade e, claro, até na espiritualidade. Daí a importância cada vez maior da sustentabilidade, da reciclagem, de saber lidar com os recursos do planeta, que; e um direito para todos os homens, conseqüência da necessidade de sobreviver.

GEORGE DE MARCO é publicitário e radialista. Realiza atividades como expositor e educador de mocidade da seara espírita.

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