Sabedoria dos Xamãs

 

Para Thomas Kuhn, o cientista escolhe o que considera real e que esta escolha se prende a suas crenças e valores.egundo oa sociedade.

(Thomas Kuhn, saiba mais )

A ciência acadêmica considera real e digno de apreciação somente aquilo que pode ser capturado por meio dos cinco sentidos físicos. No entanto, há outras realidades a serem conhecidas, como a dos estados alterados de consciência

Por Rita Foelker /rita@universoespírita.com.br

Ingênua e incoerente: assim pode ser considerada a concepção que a ciência materialista nos tem apresentado da realidade. Ela ignora alguns fatos de patente origem espiritual, no decorrer da história da humanidade e abre mão de tentar explicar outros. Oferece versões simplistas do que ocorre nos processos anímicos e mediúnicos, pretensamente encontrando explicações neuroquímicas que não dão conta da sua complexidade, nem da sua diversidade.

Tal ciência decide arbitrariamente o que existe ou não, e rejeita a metafísica dos que admitem níveis de realidade que poderiam ser considerados níveis ‘espirituais’, ‘não comuns’ ou ‘alternativos’.

Espiritualismo e materialismo são posições filosóficas, nada se prova sobre a hipótese espiritual com estágio atual das pesquisas científicas. O cientista precisa da crença tanto para aceitar quanto negar o espírito. A pergunta que se impõe, então, é: o que torna o realismo dos materialistas melhor, mais satisfatório que o daqueles que afirmam conhecer e desvendar outras realidades?

Se considerarmos, em princípio, como propôs Thomas Kuhn (1922-1996) que o cientista escolhe o que considera real e que esta escolha se prende a suas crenças e valores, não há porque defender que uma ciência materialista seria melhor do que uma ciência espiritualista, que aquela que separa é superior àquela que integra, que aquela que ignora ou nega um sentido maior por trás da realidade visível seria superior àquela que consegue enxergá-lo.

Os estados alterados de consciência têm sido objetivo de pesquisa científica e também são utilizados com finalidades práticas, para cura e esclarecimento, por psiquiatras, xamãs e pelos próprios Espíritos, via mediunidade. Os materialistas os tomam por alucinações ou fantasias.

“Pode ser que não me agrade [a realidade] , mas não me agradar é um ato responsável de minha predileção, não é um ato de negação da legitimidade desse outro domínio de realidade”.

Humberto Maturana

(Humberto Maturana. Saiba mais.)

No entanto, transitar numa realidade que chamamos de incomum ou alternativa não é uma mera experiência psicológica ou delírio. Relatos sobre estados alterados de consciência, sejam eles naturais ou induzidos, apresentam algumas noções que podemos corroborar usando os critérios presentes na obra de Kardec e os princípios filosóficos do Espiritismo, que ganha quando pesquisas como estas são levadas a efeito com seriedade e isenção.

O QUE É REAL?

Quantas realidades existem? De acordo como o filósofo Humberto Maturana (1928), em Cognição, Ciência e Vida Cotidiana, há muitas realidades – todas diferentes, mas igualmente legítimas. Uma realidade é uma perspectiva dentro da qual criamos uma compreensão de mundo e nela nos movemos eficientemente, seja uma realidade material, uma realidade social, uma realidade espiritual, etc. “Pode ser que não me agrade, mas não me agradar é um ato responsável de minha predileção, não é um ato de negação da legitimidade desse outro domínio de realidade”- conclui.

O conhecimento de múltiplas realidades pode ser igualmente legitimo? Sim. O mesmo autor defende a legitimidade do conhecimento de diferentes realidades propondo a expressão objetividade – entre parênteses, que significa dizer que não há um conhecimento totalmente objetivo, independente do observador, para validar afirmações ou explicar experiências. A condição do observador transparece na sua forma própria de explicar as coisas, de modo que não é humanamente possível um saber único e universal, apenas um saber de cada pessoa.

O que sabemos, sabemos que a partir do nosso ponto-de-vista. Tanto espiritualistas como materialistas estão condicionados pela sua posição de observadores da realidade, ponto-de-vista que contamina sua pretensa objetividade. Para ambos, olhar o mundo não significa ver o mundo ‘como ele é’, mas o que se espera ver a partir de certos pressupostos.

O Espiritismo nos proporciona vivenciar uma objetividade-entre-parenteses, ao admitir os seguintes pressupostos para a validação do conhecimento transmitidos pelos Espíritos: (1) “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si. (…)”, diz O Livro dos Espíritos. Ali também lemos que (2) os Espíritos, estejam encarnados ou desencarnados, encontram-se em diferentes estágios evolutivos, que (3) esta diferença de estágios evolutivos condiciona o grau de conhecimento e de compreensão da verdade e que (4) os Espíritos vivenciam experiências que são interpretadas de acordo com sua compreensão possível e evolução espiritual.

Destas quatro premissas, conclui-se, acerca do conhecimento dos Espíritos sobre as coisas, que ele está na razão direta de seu grau evolutivo e que sua condição de interpretar suas experiências se altera com seu progresso.

Então, um Espírito em qualquer ponto de sua jornada rumo à perfeição nos oferecerá um relato possível no limite de sua compreensão e adiantamento. E nós interpretaremos e compreenderemos na medida da nossa própria evolução.

Os critérios de Kardec aplicado às comunicações mediúnicas, como a idoneidade dos médiuns e a universalidade dos ensinos podem ser utilizados para analisar relatos de Espíritos em muitas situações, estejam atualmente no mundo espiritual, ou encarnados narrando suas experiências e visões da realidade com o eles a percebem.

“As experiências transpessoais têm muitas características estranhas que põem por terra as mais fundamentais suposições metafísicas da visão de mundo materialista e do paradigma newtoniano-cartesiano”.

Stanislav Grof

(Stanislav Grof. Saiba mais.)

MAPA DA CONSCIÊNCIA APLICADA

O estudo das diferentes ordens de Espíritos, de sua condição de encarnado ou desencarnado, também nos ajuda a abordar outros estados alterados de consciência, além do fenômeno mediúnico.

Algumas incursões nesse campo de pesquisa já foram feitas por pesquisadores não-espíritas, das quais citaremos duas: a de Stanislav Grof (1931) e a de Carlos Castaneda (1925-1998).

Stanislav Grof é um psiquiatra que utilizou terapia psicodélica (com LSD, enquanto era permitido por lei) no passado e hoje conduz seus pacientes a estados alterados mediante um procedimento que ele denominou respiração holotrópica. Diz ele, em Psicologia do Futuro, que a consciência pode ser profundamente modificada por estados não comuns de consciência, considerados clinicamente importantes e significativos. De acordo com o psiquiatra tcheco, nesses transes pode-se ter insights a revelações extraordinárias, relativas à nossa história pessoal, relacionamentos, encarnações anteriores e propósito de vida.

Com base nos casos que pesquisou e tratou, ele desenha um mapa dos domínios que a consciência pode visitar durante o transe, que aqueles que conhecem as possibilidades do Espírito, de acordo com a visão espírita, acharão bastante plausíveis: o domínio biográfico, que envolve questões da vida presente; o domínio perinatal, que envolve gestação e parto biológico; o domínio transpessoal, que traz memórias raciais, ancestrais (incluindo vidas passadas), experiências mediúnicas, encontro com seres espirituais, entre outras.

Segundo Grof observa nessa obra, “as experiências transpessoais têm muitas características estranhas que põem por terra as mais fundamentais suposições metafísicas da visão de mundo materialista e do paradigma newtoniano-cartesiano”. E seu livro possibilita ver a reencarnação, a mediunidade, ou auxílio espiritual, o livre-arbítrio e outros conceitos espíritas em pleno funcionamento, com uma ressalva: trata-se das observações e conclusões de um cientista não-espírita descobrindo a realidade espiritual no seu próprio exercício profissional.

“Para eles [os xamãs do México antigo], era um fato energético que o universo em geral é predatório ao máximo (…) A condição predatória do universo significava que o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência. (…) ".

Carlos Castaneda

(Carlos Castaneda, em foto de 1945. Saiba mais.)

PARALELO AO XAMANISMO

Um livro bastante famoso sobre estados alterados de consciência foi escrito pelo antropólogo Carlos Castaneda, nos anos 60 do século 20, e se chama A Erva do Diabo, onde ele narra seu encontro e aprendizado com Dom Juan Matus, um índio mexicano que conhece os segredos da manipulação e os efeitos de plantas alucinógenas. O trigésimo aniversário da edição estadunidense foi comemorado com acréscimo de comentários do autor. E estes comentários trazem elucidações importantíssimas sobre o sistema dos xamãs como um domínio legítimo de conhecimento.

A cognição (forma de conhecer) dos xamãs do México antigo difere daquela do homem ocidental e traz um pressuposto, segundo o autor: “A internalização dos processos de um sistema cognitivo diferente sempre começava com o direcionamento total da atenção do xamã iniciado para o fato de que somos seres a caminho da morte. Dom Juan e os outros xamãs da sua linhagem acreditavam que a percepção plena desse fato energético, dessa verdade irredutível, levaria à aceitação da nova cognição.”

Mais abaixo, Castaneda complementa: “Eles sustentam que a cognição humana pode ser temporariamente interrompida (…). Quando esta interrupção ocorre, os feiticeiros afirmam que a energia pode ser percebida, diretamente enquanto flui no universo.”

Uma noção de conhecimento baseada na percepção de ‘fatos energéticos’ e que pressupõe a morte como destino inevitável de todos os seres humanos é a chave da compreensão desse domínio do conhecimento.

Na teoria que depreende dos ensinamentos de Dom Juan, assim como na Doutrina Espírita, o sujeito do conhecimento não é um ser com objetivos aleatórios. Embora suas escolhas existam e tornem seu caminho mais ou menos fácil, mais ou menos prazeroso, mais ou menos generoso, há o que se considera um ‘intento’ no Universo, algo que o Espiritismo chamou de Lei do Progresso. Segundo afirmam os xamãs do México antigo, os seres orgânicos e inorgânicos são manifestações de seres inteligentes em evolução anímica ou espiritual (no Espiritismo, seriam chamados de individualizações do princípio inteligente).

“Para eles [os xamãs do México antigo], era um fato energético que o universo em geral é predatório ao máximo (…) A condição predatória do universo significava que o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência. (…) Exercendo pressão sobre todos esses seres [orgânicos e inorgânicos], o universo SOS força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio. No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, a consciência é o resultado final.”

COMO SERÁ POSSÍVEL FAZER CIÊNCIA?

Uma característica das realidades apresentadas por Grof e Castaneda é a presença de elementos constitutivos próprios da experiência. Tais elementos se repetem em ocasiões seguidas nos atendimentos de Grof a seus pacientes, e são consensuais numa comunidade, no caso dos feiticeiros do México. Se Castaneda narra sua experiência em primeira pessoa, Grof baseia-se em inúmeros casos clínicos passíveis de classificação, comparação e de compartilhamento.

A moral, de importância destacada na ciência que estuda a mediunidade, apresenta-se aqui também como indispensável, e o desinteresse por vantagens pessoais de cada cientista é a garantia de legitimidade e veracidade dos resultados.

Afinal, dado que conhecimento científico é sempre compartilhado, temos de pensar num ambiente de pesquisa em que se estimule a ética, a cooperação. O exercício de compartilhar leva ao aperfeiçoamento das concepções particulares numa somatória de conhecimentos que se torna um empreendimento coletivo. Lembrando Maturana, em Emoção e Linguagem na Educação e na Política, vemos que o ambiente de competição não é propício ao estabelecimento das bases de uma ciência, mas a solidariedade tende a favorecer seu progresso.

Ao cooperar e compartilhar, torna-se possível sair de um único ponto-de-vista para encontrar afirmações consensuais que constituirão nossas hipóteses, teorias e leis científicas. Poderemos falar então de uma ciência que enxerga além da matéria sem devanear, sem delirar, mas baseada em percepções além dos cinco sentidos físicos.

RITA FOLKER é escritora, bacharel em Filosofia e coordenadora editorial da Revista Universo Espírita

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