Toda criança tem o direito a não ser campeã

Por Hugo Tourinho Filho, professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP/USP)

O ser humano em todas as fases da vida está sempre descobrindo e aprendendo com seus semelhantes e pelo domínio sobre o meio em que vive. A este ato da busca, de troca, de interação, de apropriação é que se dá o nome de educação. Nesse sentido, é inegável a importância da utilização dos conteúdos dos jogos, ginásticas, lutas e danças na prática regular de exercícios físicos realizados durante a infância e adolescência como importante estratégia para o ato de educar.

No entanto, a atividade física por si só não educa, pois seus efeitos dependem da situação criada, especialmente, em relação aos aspectos de interação social, ao clima afetivo-emocional entre os quais a interação do educador é fundamental. Dentro dessa linha de raciocínio, o lúdico na educação infantil, apoiado nas ações do jogo, da dança, enfim, por meio do movimento, é uma importante forma de educar.

Para manter o equilíbrio com o mundo a criança necessita brincar, jogar, criar e inventar. A infância é a idade das brincadeiras. A brincadeira é algo inerente na criança – é sua forma de trabalhar, refletir e descobrir o mundo que a cerca. Uma criança que não sabe brincar será, fatalmente, um adulto que não sabe pensar e com sérias dificuldades para criar.

Nesse sentido, a ludicidade como conteúdo dos jogos, ginástica, lutas e danças nos programas de exercícios físicos na infância está longe da concepção ingênua de passatempo, brincadeira ou diversão superficial, muito pelo contrário: quando bem planejada, se torna uma importante ferramenta para o desenvolvimento integral da criança.

A participação das crianças nas atividades esportivas deve ser voltada, necessariamente, à aquisição de um repertório motor amplo e variado que possibilite uma maior vivência motora – experiência com diferentes formas de se movimentar a fim de criar uma “biblioteca motora” ampla e rica, além dos estímulos que propiciarão um melhor desenvolvimento cognitivo e socioafetivo.

 

Quanto maior o repertório motor (biblioteca motora), maior será a capacidade de aprender e executar novos padrões de movimento – mais preparada a criança ficará nas fases seguintes (adolescência e fase adulta) para aprender movimentos mais complexos e realizados com maior precisão, fato que no caso da formação de atletas aumentará as chances de obtenção do alto rendimento.

No entanto, acredita-se importante ressaltar que, durante as primeiras etapas do aprendizado esportivo, denominado como iniciação esportiva, é que se estabelecem as bases do futuro rendimento, sem jamais buscar o rendimento – toda criança tem o direito a não ser campeã.

Essa constatação parece fazer todo o sentido diante de todas as possibilidades que a participação em programas de atividades físicas pode propiciar nessa importante fase da vida, que vão muito além de uma vitória, um título ou a quebra de um recorde. Todavia, nem sempre é dessa forma que é encarada a participação das crianças na sua iniciação esportiva e dos adolescentes em sua formação atlética.

Essa afirmação pode ser ilustrada por meio da reflexão dos motivos que levam um adulto a matricular uma criança na educação formal ou em uma “escolinha” de esportes. Quando levamos uma criança para o seu primeiro dia de aula, dificilmente pensaremos que com esta atitude estaremos contribuindo para a formação de um futuro gênio da bioquímica ou da física ou que, ao matricularmos nossas crianças na escola, estaremos contribuindo para a preparação do próximo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, por exemplo.

 

Já quando matriculamos uma criança numa “escolinha” de futebol, natação, tênis, futsal ou qualquer outro esporte não é difícil encontrar o seguinte desejo: “Este será o futuro Neymar do futebol, ou o Cielo da natação ou até o Federer do tênis ou o Falcão do futsal”.

Por que numa “escolinha” de esportes não desejamos apenas que nossas crianças sejam felizes por estarem num ambiente que lhes proporciona, acima de tudo, boas experiências? Não, nesse caso queremos que elas se tornem as melhores, as campeãs. Com essa forma de agir podemos estar contribuindo para a instalação de um grande problema no que diz respeito à participação das crianças no esporte.

A busca pelo rendimento sem a devida atenção às fases que precisam ser respeitadas dentro da iniciação esportiva das crianças e a formação atlética dos adolescentes pode nos levar a deparar com um quadro de pressão excessiva que, ao invés de contribuir para aumentar o desejo em praticar esportes, irá acelerar o processo de abandono do hábito saudável da prática esportiva desde a mais tenra idade.

Nas últimas décadas verificou-se uma explosão do profissionalismo no esporte. O interesse da iniciativa privada por essa área e as consequentes oportunidades de independência financeira e ascensão social têm levado os profissionais envolvidos com esse segmento a uma corrida incessante em busca do sucesso, que, em muitos casos, tem trazido sérios prejuízos psicofisiológicos às pessoas envolvidas nesse processo.

Diversos problemas, como dificuldades em melhorar o desempenho, conflito entre técnico e atleta, uso de drogas muitas vezes utilizadas como doping em busca de melhores resultados e estresse emocional, são extremamente intensificados pela incrível pressão exercida pelas sessões de treinamento em face das exigências da preparação dos atletas de elite que se inicia cada vez mais precocemente.

Iniciação esportiva inadequada e o burnout

No começo dos anos 80, o termo burnout começou a aparecer com frequência na literatura esportiva sendo explicada como uma síndrome que tem o poder de afastar as pessoas de suas atividades; no caso do esporte, o abandono da prática esportiva.

Técnicos em todos os níveis começaram a discutir os perigos do burnout em sua profissão. Atletas de elite começaram a abandonar o esporte no auge de suas carreiras, afirmando que estavam “esgotados” e que a participação tinha se tornado tão aversiva que era impossível para eles continuar. Preocupações com o grande número de atletas que passaram a desistir do esporte durante a adolescência tornaram-se frequentes.

Mas, na verdade, tudo começou em 1959, quando Thibaut e Kelley avançaram para uma teoria que fornece uma base para diferenciar as retiradas do esporte provenientes do burnout daquelas provenientes de outros motivos. Thibaut e Kelley começaram seus estudos com a suposição de que o comportamento humano é governado principalmente pelo desejo de maximizar as experiências positivas e minimizar as negativas. A partir dessa perspectiva, as pessoas têm relações ou participam de atividades só enquanto os resultados da participação são suficientemente favoráveis.

 

O favorecimento é determinado pelo equilíbrio entre recompensas e custos. No entanto, eles ainda verificaram que a decisão de entrar ou de permanecer em uma relação ou em uma atividade não é baseada somente no resultado recompensa menos custos, ou seja, se a recompensa for maior que os custos a tendência seria continuar na atividade e o contrário levaria ao abandono da mesma. No burnout o abandono da prática não se dá apenas pelo fato de haver uma alternativa mais atrativa e sim por não se suportar mais permanecer naquela função.

Alguns estudos têm sinalizado para o fato de que as raízes do burnout estavam fundadas na organização social do esporte de competição. Nessas pesquisas os jovens entrevistados frequentemente mencionaram pressões e estresse relacionados à participação esportiva, mas as pressões e o estresse, que pareciam ser o pior para eles, eram aqueles ligados à falta de controle sobre suas próprias vidas.

Não existe dúvida de que o estresse está associado ao burnout. Contudo, as raízes do burnout entre jovens atletas vão além do estresse crônico, além das demandas emocionais e consequências do esporte competitivo e dos recursos psicológicos individuais. O burnout é mais bem explicado e tratado como um problema social ao invés de uma falha pessoal.

O envolvimento no esporte que visa apenas ao rendimento pode-se tornar análogo a estar sobre uma corda bamba: é excitante, eles são bons, eles são o centro das atenções, mas sabe-se que não se pode mudar o foco de atenção para nada além do esporte, sem perder o equilíbrio. E se eles perderem esse equilíbrio, eles sabem que não terão rede para agarrá-los. Em virtude disso, passam a se sentir inseguros. Essa insegurança afeta o rendimento. E a inabilidade de manter os padrões de desempenho leva à retirada do esporte.

 

Parece razoável, nesse sentido, sugerir que quando o burnout é conceituado como um problema social ao invés de uma falha pessoal isso significa uma mudança indo além do tratamento do estresse. Jovens atletas, frequentemente, necessitam muito mais de uma avaliação crítica com relação a sua participação no esporte e uma maior autonomia sobre sua vida, do que simples técnicas de controle de estresse.

Por fim, jovens atletas precisam ser encorajados a se tornarem menos dependentes e mais autônomos em suas decisões. Os jovens devem aprender com o esporte que não são perfeitos e que vão errar muitas vezes. Eles não deveriam ter receio de agir por medo de errar. É preciso ensiná-los a ter iniciativa, agir e ousar sabendo que vão errar muitas vezes. Os erros os tornam mais fortes se forem aceitos de maneira apropriada.

E as crianças? Ah, as crianças podem e devem jogar imaginando ser o Neymar, o Lionel Messi ou o Cristiano Ronaldo! Elas têm todo o direito de sonhar em ser um astro numa partida de futebol, basquete, vôlei ou tênis, pois isso faz parte do lúdico, da magia do esporte que enriquece a infância, porém, é incorreto pensar que todas as crianças que se envolvem com prática esportiva irão atingir altos níveis de rendimento.

Em sua maioria, elas se beneficiarão pelo simples fato de estarem envolvidas com a prática esportiva: sentirão alegria, farão amigos, aprenderão a lidar com conflitos, tomar iniciativas e se relacionarem, enfim, estarão exercitando sua cidadania na forma mais ampla e integral, e isso é tudo…

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