Visão Global do Espiritismo

Deolindo Amorim

Embora os conhecimentos humanos se tornem cada vez mais especializados, pois há muito tempo já não há lugar para o velho saber enciclopédico e, muito menos, para aquela figura muito curiosa do tira-teima, o homem que resolvia tudo e dava respostas sobre qualquer assunto, verdade é que ainda se encontram bons exemplos de cultura sólida e ampla.

Que a especialização é um fato, na vida atual, não há a menor dúvida. É a experiência que o demonstra. O exagero da especialização, porém, pode causar deformações. É o caso, por exemplo, dos indivíduos que se especializam demais, acreditam somente no valor de seu preparo técnico, científico, literário, jurídico ou lá o que seja, não querem ver mais nada além de seu reduzido campo de conhecimento. Ficam muito limitados, com a capacidade inteiramente enquadrada neste ou naquele ângulo e, portanto, sem um horizonte mais largo. Para estes, os que chegam a este ponto, pois nem todos os homens de cultura especializada são assim, toda a verdade deve ser ajustada à faixa intelectual em que se encontram. É uma deformação, queiram ou não queiram.

É por este prisma, inegavelmente, que certos especialistas em ciências humanas, até mesmo as ciências que dizem respeito às atividades psíquicas, encaram os problemas do espírito e suas relações com a vida corporal. Entendem que o debate sobre o espírito é apenas questão de fé ou de suposição e, como tal, não pode entrar no discurso científico.

 

Habituados a uma especialidade, que lhes restringe a faixa de observações, não admitem, nem que seja como hipótese, que o plano espiritual tenha alguma coisa que ver com o interesse científico.

Não se trata, porém, de espírito em si, sua natureza, sua origem e seu destino após a morte, pois as indagações desta ordem são eminentemente filosóficos, antes de tudo, com repercussões no campo religioso. Entretanto, não se pode deixar de levar em consideração um fato que se impõe por si mesmo, a despeito de todas as posições restritivas: o mecanismo e as consequências da comunicação do espírito com o mundo corporal envolvem problemas mentais, filosóficos, emocionais, patológicos e também sociais, em muitos casos.

Assim como um espírito, que vem do outro mundo, aliás um mundo nada imaginário, mas tão real como o nosso, pode causar perturbações ao organismo ou provocar lesões e depressões arrasadoras, também um espírito pode operar curas ou libertar definitivamente uma criatura humana de estados deploráveis de angústia, desespero e até de loucura das mais tremendas.

Se, portanto, a esta altura já se nota que há perturbações no organismo humano, como também se observa que o espírito dispõe de meios capazes de alterar todo um quadro clínico, naturalmente há recursos desconhecidos, tanto quanto instrumentos e técnicas estranhas aos conhecimentos usuais. Então, há interesse científico, pois aí se abre um campo diferente. Os espíritos podem criar situações que levem o estudioso imparcial ou não bitolado a enveredar pela Fisiologia ou pela Física, a Psicologia, e assim por diante, segundo a natureza e as características dos fenômenos.

 

Justamente por isso, o investigador precisa ter uma visão mais larga, pois a especialização muito rígida ou fechada não abre grande perspectiva. A fronteira entre o espírito e a matéria está exigindo, hoje, muito mais acuidade e precisão do que anteriormente, quando os instrumentos eram precários e as informações eram duvidosas, em grande parte. Por sua vez, o intercâmbio de vibrações entre os dois mundos é tão intenso, tão sutil, que muitas vezes nos deixa em dificuldade para atinar bem com as balizas que os separam.

As noções de matéria e energia estão passando por modificações a cada passo, ao mesmo tempo em que já estamos caminhando para a antimatéria. E a Doutrina Espírita já nos dizia, há mais de um século, que a matéria existe em estados que desconhecemos. Diante, pois, da nova realidade que se apresenta e de tantas surpresas que nos impressionam, o conceito de Ciência terá de ampliar-se necessariamente.

Se, para muitos, Ciência é apenas a de laboratório, já para outros, com perspectiva mais dilatada, Ciência pressupõe um processo que procura a verdade em diversos sentidos, ultrapassando as delimitações clássicas. Então, o discurso científico também há de comportar a discussão sobre o espírito, que não é mais exclusivamente um ponto de fé, porém um agente de força, tão positiva, tão atuante como as forças mais ponderáveis do mundo conhecido.

Não se pode perder de vista, finalmente, que a Ciência tem um sentido universal e, por isso mesmo, não pode ser objeto exclusivo de uma especialização. Sua natureza independe, consequentemente, de compartimentos e escolas. À luz deste entendimento, é natural que situemos o espírito no vasto campo do conhecimento, como realidade comprovada através de fatos que também constituem matéria de interesse científico, desde que se reformule o conceito de Ciência, em virtude das aquisições que a inteligência humana vem acumulando nestes últimos anos. E, por isso mesmo, o Espiritismo não pode ser interpretado e explicado através das especializações restritivas e, às vezes, deformantes, mas somente com a visão global de um conhecimento capaz de abranger as realidades da matéria e do espírito.


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