A evolução do espírito através dos reinos da criação

Por Alvaro Glerean |  Uma viagem de conhecimento proporcionada pelo evolucionismo Espiritual, dos seres unicelulares aos pensadores do nosso tempo.

O Espiritismo é uma doutrina que admite uma fé raciocinada, ou seja, ela admite a ciência e caminha ao seu lado, não levando em consideração a existência de dogmas. Ora, isso significa que essa doutrina crê e admite o evolucionismo e baseia grande parte dos seus conhecimentos nesse conceito.

Também não há nenhuma dúvida quanto à crença na existência do Espírito. Baseado no que disse acima, conclui-se que deverá haver na vida do Espírito um caminho evolutivo, uma evolução.

Pois bem, já há algum tempo tem feito cócegas na minha massa cinzenta a ideia de tentar esboçar algo sobre onde e quando, eventualmente, teria surgido o primeiro sinal da existência de ‘algo’ nesse processo extremamente complexo da evolução, tão difícil de imaginar, tão difícil de se figurar na mente, algo do qual sabemos, por inúmeras razões, da sua existência real, mas que, ao mesmo tempo não se consegue materializar em nossa imaginação numa forma, numa textura, em algo palpável, enfim, que é o Espírito.

Nós todos, agora na condição de seres humanos, nos originamos de seres inferiores que por sua vez se originaram de material inorgânico. Passamos pelos reinos mineral, vegetal e animal. Se tais afirmações parecem chocar de início, mostram-se perfeitamente coerentes e falam a favor do Criador, que nos fornece com isso uma notável explicação do real significado do termo Criação, pois explica a existência de tudo que existe na nossa Terra, nada sendo supérfluo, e tudo sendo utilizado por Deus ou pelo próprio ser humano para tocar adiante esse processo evolutivo.

CUMPRINDO ETAPAS EVOLUTIVAS

É fácil reparar que todas as coisas, todos os progressos surgem em épocas determinadas, nem antes, nem depois. Na sua infinita bondade o Criador dá aos seres humanos a impressão de que eles tudo criaram sozinhos, o que é bom para a sua atual fase evolutiva, pois serve de mola propulsora que os conduzirá ao ponto final dessa saga que é a busca da proximidade cada vez maior de Deus.

Cada vez que penso no assunto, estala em minha cabeça a ideia de que a primeira manifestação da existência do Espírito, o seu início, o seu primeiro sopro, deveria dar-se na célula, pois ela é a unidade não só morfológica, como também funcional do ser vivo – de todo ser vivo.

 

Com isso quero dizer que um ser formado por uma célula (unicelular), e só por essa célula, é o seu próprio organismo. E que todos de sua espécie são idênticos a ele, portanto como unidade morfológica (de forma) e unidade funcional. Todas as suas funções, todo o seu funcionamento, tudo que ele faz, é feito por essa célula, por essa unidade; esse ser não depende de mais ninguém para funcionar, para viver, para existir; inclusive, por si mesmo se divide e origina outros seres idênticos. Já os seres formados por mais de uma célula (multicelulares ou pluricelulares), são aqueles mais complexos, dos quais a evolução foi exigindo mais unidades celulares para que começasse a haver uma especialização dessas células ou conjunto de células, para no futuro, constituírem os chamados órgãos, cada um com uma função específica e necessária, vital para o funcionamento do agora chamado organismo (conjunto de órgãos).

É só observar um livro de biologia ou a própria natureza para se ver a incrível variedade de organismos que existem por todo o nosso planeta, uns ainda formados por uma única célula (como os micróbios) e, a grande maioria, por muitas células. Isso é conseqüência do processo evolutivo que, a partir de minerais, do surgimento do ser uniceluLar, permitiu o aparecimento de tudo que conhecemos hoje e que tem vida.

 

Há muitos milhões de anos as células que, inicialmente, na sua formação, não passavam de bolhas minúsculas imersas num caldo nutritivo, como alguns ainda admitem, paulatinamente começaram a sofrer modificações, todas elas visando o aprimoramento desse ser que acabava de aparecer na face da terra, até atingir o aspecto e os componentes que tem atualmente, ou seja, os componentes típicos: núcleo e citoplasma, cada um deles composto de uma extensa gama de constitutivos químicos e estruturais, característicos das células em geral além dos específicos para certos tipos celulares. No interior do citoplasma, a parte com aspecto gelatinoso que envolve o núcleo, existem várias estruturas que apareceram com a evolução e com funções absolutamente específicas, denominadas organelas (pequenos órgãos). De algum tempo para cá, tem sido dada extrema importância a um sistema complexo de estruturas sob a forma de membranas que constitui o conhecido sistema de citomembranas, que existe em toda a célula, não só envolvendo-a, mas também preenchendo-a totalmente.

O IMPRESSIONANTE CÓDIGO GENÉTICO

O núcleo é a região da célula, totalmente envolvida pelo citoplasma, e tem funções específicas, enviando ao citoplasma “ordens” necessárias ao funcionamento da célula; além disso, é nele que se encontra o conhecido DNA (ou ADN, em português) responsável pelo armazenamento da memória genética celular e pela transmissão dos caracteres hereditários, por ocasião da fecundação, visando à formação de outro ser da mesma espécie.

Para o leitor ter idéia da solução que a natureza encontrou para armazenar toda essa informação genética, adquirida durante toda a evolução, eis a seguir elucidativos parágrafos de um trabalho publicado pela Christian Answers Network sob o título A Origem da Vida:

“Em sua função o DNA é como um programa de computador em um disquete. Ele armazena e transfere informação codificada e instruções. Diz-se que o DNA humano armazena um código de informações para encher 1.000 livros cada um com 500 páginas de letras muito pequenas e comprimidas. O código de DNA produz um produto muito mais sofisticado do que o de qualquer computador.( … ) Assombrosamente, esse enorme conjunto de instruções cabe com facilidade dentro de uma simples célula e rotineiramente dirige a formação de adultos humanos inteiros, começando de um único óvulo fertilizado.

Mesmo o DNA de uma bactéria é altamente complexo, contendo no mínimo 3 milhões de unidades, todas alinhadas em uma seqüência muito precisa e significativa. ( … ) O DNA e as moléculas que o cercam formam um mecanismo verdadeiramente extraordinário – uma maravilha miniaturizada. A informação é armazenada de um modo tão compacto que toda a quantidade necessária para codificar todas as pessoas do nosso planeta caberia num espaço não maior do que uma aspirina. ( … ) Muitos cientistas estão convencidos de que um código tão complexo e uma química tão intrincada nunca poderiam ter existido por química pura e sem direção”.

 

Isso dá uma ideia da complexidade que a célula animal atingiu na evolução e nos dá uma idéia também de que o organismo se serve dos atributos funcionais das células que o compõem para seu dia a dia na vida. Pois na verdade são as células que, ainda mais especializadas de acordo com o órgão ao qual pertencem, cumprem as funções de digestão, respiração, reprodução, defesa, movimentação, e toda as exercidas pelas incríveis células do sistema nervoso. Tudo isso nos leva a pensar que cada uma dessas células possui algo que as dirige e que as agrupa sob uma vontade exercida pelo ser e que nós nos acostumamos a chamar de alma, ou Espírito.

Mas, creio que chegou o instante de contar-lhes como as primeiras manifestações anímicas foram observadas em células bastante primitivas.

Steven Rose: “Um sistema de comunicação funcionando dentro dessas células que faz com que uma parte saiba o que ocorre com a outra” (Na foto Steven Rose e Hilary Rose)

ENSAIOS DE UMA INTELIGÊNCIA

Vou me servir do livro de Steven Rose – O Cérebro Consciente: “O Paramecium, um organismo unicelular possui na sua superfície minúsculos chicotes (cílios] que se movem regularmente, coordenados entre si como se recebessem ordens (precursora da coordenação neuromuscular?). Ele está em constante peregrinação, geralmente esbarrando em obstáculos como um brinquedo de corda. Após uma colisão ele entra em marcha à ré revertendo o batimento dos seus cílios (reação evasiva) que também pode ocorrer em presença do frio, do calor e de agentes químicos irritantes. Ele alimenta-se de bactérias e foi observado que sempre procura dirigir-se ao local onde esse alimento está, comportando-se como se evitasse a região pobre em alimentação.”

“ Outro tipo de comportamento observado no Paramecium ocorre quando, por exemplo, o organismo move-se para uma região farta de material rico em nutriente, a bactéria. Se ocorre ao organismo mover-se para fora desta região, sua tendência será voltar atrás até encontrá-Ia novamente, de maneira a permanecer onde o suprimento do alimento seja maior, comportando-se como se evitasse a região pobre em alimentação e procurasse as áreas mais ricas. O padrão de movimento resultante pode ser descrito do tipo tentativa e erro, ou de procura do objetivo. A Euglena, protótipo da planta fotossintética quando colocada num ambiente luminosamente desigual, move-se em direção à luz, procurando aglomerar-se no lado mais claro do vidro em que estiverem. Em relação à bactéria, nos últimos anos o fenômeno da quimiotaxia (movimento em resposta a um estímulo químico) tem sido estudado com cuidado. Existe um bom número de produtos químicos que atraem as bactérias, até mesmo os que apesar de serem semelhantes quimicamente à glicose, não servem como alimento para o organismo, por outro lado, alimentos que poderiam servir como alimento não atraem a bactéria.”

“Todos esses comportamentos ocorrem em células que não têm um sistema nervoso. Mas é óbvio que deve existir algum sistema de comunicação funcionando dentro dessas células que faz com que uma parte saiba o que ocorre com a outra. Na verdade, estas propriedades comportamentais podem ser vistas em formas de vida até mais simples do que o Paramecium ou a Euglena, ou seja, nas bactérias que podem ser até mais de cem vezes menores. Complementando a informação que dei, em 1880 W. Pfeiffer na Alemanha, mergulhou um delgado tubo capilar contendo glicose numa gota de líquido contendo bactérias e observou que as bactérias tendiam a se juntar na boca do capilar. Como é que as bactérias “sabiam” que o nutriente estava ali? Na verdade existe um gradiente de glicose, com seu ponto mais alto na boca do capilar. As bactérias podem seguir a substância até chegar ao ponto mais alto da concentração.”

 

Já se pode notar por essas linhas que, nesse momento da evolução, bastante longínquo do ponto em que estamos como seres humanos, uma certa complexidade que, é explicada pela ciência como conseqüente à presença de receptores de membranas na superfície dos organismos unicelulares, os quais explicariam essas reações descritas. Mas, insisto, quem proporcionou o aparecimento desses receptores; seriam conse- qüência de algo mais sutil? De algo que começava a se desenvolver nesses seres primitivos, destinado exatamente a obedecer ao forte apelo evolucionário?

Talvez esses exemplos de que me servi não sejam adequados, porque já estariam numa fase evolutiva adiantada. Certamente o aparecimento desse “algo” a que me referi deve ter acontecido em células muito mais primitivas, mais junto da sua fase ainda próxima do mineral. Não é à toa que alguns imaginam que o fenômeno perfeito da cristalização no mineral já possa ser devido a esse “a mais” que começa a surgir nesse momento da evolução. Quem sabe? Entrei nessa zona espinhosa do raciocínio para lembrar – a mim também – que essas são idéias muito complexas, mas que, talvez por isso sejam tão atraentes e animem a quem quer enfrentá-Ias.

Capra: fim da ideia da vida surgida da sopa química

No imperdível livro Conexões Ocultas, o físico austríaco Fritjof Capra aborda a questão da origem da vida e nos dá ideia da opinião atual da ciência sobre o assunto. A antiga ideia de que a vida teria surgido de uma sopa química não é mais aceita e, hoje, admite-se que certas moléculas tenham constituído membranas primitivas que, espontaneamente, dispuseram-se de maneira a formar vesículas fechadas; e que a evolução da complexidade molecular ocorreu dentro dessas bolhas, e não numa sopa química sem estrutura fundamental nenhuma. No ambiente do interior da vesícula, processos bioquímicos altamente complexos teriam dado origem à célula primitiva.

No mesmo livro, Capra diz que “( … ) quando a memória codificou-se por fim nas macromoléculas, as redes químicas limitadas por membranas adquiriram todas as características normais das células bacterianas de hoje em dia. Esse grande marco da evolução da vida estabeleceu-se talvez há 3,8 bilhões de anos, uns cem milhões antes da formação das primeiras protocélulas. Foi assim que surgiu um ancestral universal – ou uma única célula ou toda uma população de células – do qual descendem todas as posteriores formas de vida sobre a Terra. É como explica Morowitz: “Embora não saibamos quantas origens independentes de vida celular podem ter ocorrido, toda a vida atual descende de um único clone. No decorrer dos dois primeiros dois bilhões de anos de evolução biológica as bactérias e outros microorganismos foram as únicas formas de vida no planeta.( … ) as bactérias “inventaram” todas as biotecnologias essenciais à vida: a fermentação, a fotossíntese, a fixação do nitrogênio, a respiração e diversas técnicas de locomoção rápida, entre outras.”

 

SEMENTE LANÇADA

Acredito que o leitor pôde colocar-se no meio de uma elucubração científica e pôde também sentir o emaranhado que certos assuntos podem ocasionar. Mas, creio que vale a pena insistir e tentar apontar pelo menos um caminho para que outros me sigam e
acrescentem mais informações no futuro.

Nos minerais, pode-se acompanhar o magnífico espetáculo proporcionado pelo fenômeno da cristalização e fica-se com a nítida impressão que “algo” mais o dirige, dada a precisão absoluta e o fato de que cada tipo tem suas próprias características e desenho, de tal modo que o especialista se vê capaz de classificá-lo e identificar o mineral. Mesmo que se atreva a admitir, aí, o início da individuação do elemento espiritual, ou seja, que está aí o esboço do que se denominará futuramente, Espírito, creio que não se estará longe da realidade, pois parece que a suposição está bem dentro da coerência e do desenrolar do processo evolutivo. A seguir, o ser unicelular, mostrando comportamento como foi descrito, evolui para a maior complexidade dos seres multicelulares primitivos, tais como os vegetais.

Como se pode ler na literatura já bastante divulgada, daí evolui para os animais mais primitivos, depois, como se nota facilmente nos animais domésticos e assim por diante.
Tem-se a sensação de que aquelas primeiras células, evoluindo, se agrupando, passam a constituir uma associação de pequenas chamas vivas reunidas sob a ação de uma inteligência identificada como Espírito, capaz agora de orientar a formação de um embrião e determinar, de acordo com planos pré-estabelecidos, um ser com tais e quais características destinadas a comandar uma vida numa encarnação. Dirigente esse que é capaz, após cumprida a missão numa vida, de armazenar todas as experiências de cada vida que se sucede, visando ao desenvolvimento de cada ser.

Espero que tenha ficado perfeitamente claro que este é um esboço. Este artigo pretende ser nada mais nada menos do que uma semente lançada no terreno fértil da imaginação de todos os leitores, notadamente dos habituados com as lides da escrita, para que acrescentem, desenvolvam, ou corrijam o que lancei nessas linhas.

 

ALVARO GLEREAN (1930-2018) foi médico, professor universitário e pesquisador nas áreas de Citologia e Histologia

Nascido em São Paulo, Capital, formado em medicina, foi docente do Departamento de Histologia e Embriologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, bem como, docente da Disciplina de Histologia do Departamento de Morfologia da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. Publicou um livro didático intitulado “Manual de Histologia”, entre outros. Traduziu livros de Anton Mesmer, publicados no livro “Mesmer, a Ciência negada e os textos escondidos” de autoria de Paulo Henrique de Figueiredo.

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Editora Baraúna
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Publicado originalmente na revista Universo Espírita, edição impressa, no 64, 2009.

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