Onde a Verdade

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Por Edir Salete

“E até importa que haja entre vós heresias,
para que os que são sinceros
se manifestem entre vós” Paulo ( I Coríntios, 11:19)

Para melhor compreendermos o versículo onde Paulo se manifesta, é importante o conceito de heresia, que deriva do grego hairèsis, e significa escolha, entendida aqui como o ato ou objeto da própria escolha.

Na era medieval considerava-se herege o indivíduo que tinha a mesma crença, mas que a interpretava de modo diferente dos seus pares, querendo assim, como que, restaurar a mensagem divina original.

As primeiras heresias se consolidaram quando aquilo que se tinha como verdadeiro e absoluto, começou a ser questionado e se fazer foco de discussões acirradas, minando as bases da Igreja Ortodoxa. Os hereges ou heréticos considerados assim pela Igreja, inicialmente rejeitavam a idéia dos sacramentos da eucaristia e do batismo; Acreditavam que, pelo espírito o homem poderia subir até o céu, desde que se destacasse no mundo material. Veneravam o Sol, para eles o princípio do Logos, do qual Cristo era o enviado; Rejeitavam a cruz, considerado símbolo de suplício; Desaconselhavam o casamento, e absolviam-se uns aos outros; Houve perseguição desumana aos praticantes da magia e da bruxaria, tanto que a jovem Joana d’Arc que tinha visões e ouvia vozes foi queimada como bruxa, mas não negou as suas convicções.

Muitos movimentos heréticos procuravam apontar os desvios da Igreja, do Clero e de sua intervenção no Poder Secular. Questionava-se o Poder Temporal da Igreja, isto é, o poder advindo da riqueza que acumulavam com grandes doações de terras, feitas pelos fiéis em troca de possível recompensa da felicidade dos céus. Calcula-se que a Igreja tenha chegado a controlar um terço das terras cultiváveis da Europa Ocidental. Nessa época a Igreja foi contaminada por um clima crescente de corrupção, afastando-se literalmente de sua missão divina.

Diante desse contexto opressivo e duvidoso, muitos foram perseguidos, calados e até mortos. Foi o Papa Gregório IX que então criou os Tribunais da Inquisição, cuja missão era julgar os hereges. Os condenados eram entregues as autoridades administrativas do Estado que se encarregavam da execução da sentença. As penalidades aplicadas iam desde confiscar os bens até a morte em fogueiras em plena praça pública.

Desse período negro da História, todos sabemos as consequências que advieram para a Humanidade. Até hoje respondemos moral e espiritualmente pelos suplícios aplicados aqueles que se insurgiram contra idéias pré concebidas e daqueles que se consideravam donos da verdade !

Mas, quem tem a verdade !

Muitos séculos depois dos sacrifícios sofridos pelas criaturas e tendo um Estado Federativo considerado laico, podemos nos manifestar livremente sobre qualquer credo religioso.

Sabedores que estamos cada um em um estágio evolutivo, que nos faz compreender de maneiras diversas, às vezes, os mesmos assuntos, as mesmas questões e até as mesmas dúvidas, aquelas que moveram, quem sabe os nossos antepassados. Não percamos nossas energias com discussões inúteis, sem sentido, sem objetividade… somos os mesmos que já estivemos frente a frente nos Tribunais da Vida… agora de retorno à mesma arena. Sejamos coerentes, no pensar, no falar e no agir, para assim melhor compreender quando Paulo diz:

“Recebamos os hereges com simpatia, falem livremente os materialistas, ninguém se insurja contra os que duvidam, que os descrentes possuam tribunais e vozes. Isso é justo”.

Só assim estaremos crescendo rumo a Verdade, que é a busca constante de toda a Humanidade; somos seres singulares e especiais dentro do contexto Divino da Criação, que de coração puro e com sinceridade todos possam se manifestar entre nós sem preconceitos ou julgamentos antecipados que nos afastem dos grandes objetivos da vida, alicerçados nas bases da Doutrina dos Espíritos.
 


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