Serve-nos o Humanismo de Kardec?

Como se formou o pensamento de Rivail-Kardec e como ele pode ser resgatado e aprofundado na contemporaneidade

Marcelo Henrique

O Professor francês Rivail, na França do Século XIX, hauriu grande parte do seu conhecimento, naquela existência (encarnação), a partir da orientação (teórico e prática) no Instituto de Yverdon (Suécia) com Pestalozzi. Pode-se dizer, assim, que o Humanismo, enquanto corrente filosófica, foi essencial na formação daquele homem que, depois, veio a ser o responsável direto pela introdução dos conhecimentos espirituais sistematizados (Espiritismo) para a Humanidade.

Em que consistia, pois, o Humanismo de Kardec? Quais suas bases filosóficas? Como foi aplicado em relação às práticas espíritas?

Em linhas gerais, o Humanismo foi um conjunto de ideias, nascidas antes e durante o Renascimento, cujo escopo era a valorização das ações humanas e dos valores morais (como justiça, respeito, honra, amor, liberdade, solidariedade, etc.). Sua configuração partiu do antropocentrismo, com o homem no centro do pensamento filosófico, resgatando alguns conceitos da cultura clássica antiga (sobretudo dos gregos), com destacada valorização dos direitos humanos e das expressões de cidadania. Para o Humanismo o homem é o centro de interesse e é em torno dele que tudo acontece.
Os ideias e valores humanistas acham-se presentes na obra de Allan Kardec como um todo e fundamentam os princípios e os elementos da Doutrina dos Espíritos, que ele fundou, sistematizou e difundiu, na segunda metade do Século XIX. Os elementos fundantes e originários de tal doutrina permanecem válidos e atuais, em termos teóricos, mesmo considerando que grande parte dos que se afiliam ao chamado “movimento espírita”, fundando, dirigindo, participando em funções e atividades ou, ainda, apenas frequentando instituições espíritas (associações civis), no Brasil e em outras partes do mundo, não sejam totalmente fiéis nem aos conceitos e teorias, nem às práticas e roteiros de atividades introduzidos e recomendados por Kardec.

O Humanismo se opõe, frontalmente, ao Deísmo, porque coloca o ser humano no centro das realizações (materiais e espirituais) do Planeta, e salienta cada um dos avanços das sociedades em busca do aperfeiçoamento (material e espiritual) e a necessidade de mudanças (progresso) do Direito e das sociedades. O já citado antropocentrismo, assim, substitui a primazia pelo teocentrismo, escopo de todas as religiões deístas.

 

Na estruturação da Doutrina dos Espíritos, ao dialogar com as Inteligências Invisíveis, Kardec trabalha em dois contextos muito claros. Primeiro, o da ambiência terrena, material, da vida encarnada, contextualizada naquele momento histórico, fazendo análises detalhadas e aprofundadas de várias questões sociológicas, políticas, pedagógicas, associativas, entre outras. Analisa a sociedade vigente e projeta as futuras, neste orbe. Segundo, com as informações de Espíritos que já se encontram em outras posições na “Escala Espírita”, trata da realidade (espiritual e material) futura, como a projeção do progresso individual e coletivo da Humanidade terrena. E, com isso, influencia decisivamente no quesito participação, isto é o compromisso dos humanos (encarnados) na transformação social, a partir da individual, um dos objetivos finalísticos da própria Doutrina.

Então, ao nos debruçarmos sobre a proposta de Kardec (Espiritismo), em face da conjuntura planetária do Século XXI, torna-se oportuno perguntar se os conceitos e fundamentos do Espiritismo, vinculados ao Humanismo, estão conformes à atualidade planetária e o que é possível fazer, em termos de ações possíveis, para retomar o Humanismo de Kardec e aperfeiçoar as atividades e intenções do chamado “movimento espírita”.

O Humanismo Espírita, então, tem a ver com a implantação do “Reino”, ou seja, concretizar, pela ação dos Espíritos encarnados, um estágio mais adiantado de vida em Sociedade, onde a Justiça Social já é realidade. Em muitas passagens da chamada Codificação Espírita, Kardec e os Espíritos Superiores dissertam sobre ela, quer no aspecto negativo, quando Kardec e os Espíritos dissertam acerca das injustiças e limitações do nosso organismo social humano, quer no positivo quando prescrevem um estado futuro, em planos mais adiantados, no qual as ações humanas já se achariam melhor adequadas aos ditames das Leis Morais (que são explicitadas na parte terceira de “O livro dos espíritos”), quer, ainda, subjetivamente, quando são analisadas situações pontuais egressas da conduta dos Espíritos, encarnados ou desencarnados, a partir das perguntas de Kardec.

 

Assim, as inteligências já despertas devem empreender todo e qualquer esforço – teórico ou técnico e prático – para o aperfeiçoamento da Sociedade, dentro da missão espiritual que cada individualidade tem para consigo mesmo, em relação ao(s) seu(s) semelhante(s) e para com o todo. O teórico ou técnico deriva dos estudos científicos e da promulgação de leis “melhores”; o prático compreende um rol de ações individuais e coletivas, para acelerar o progresso social.

O Espiritismo, Humanista que é, como doutrina filosófico-científica com consequências morais, concebe então uma ética espírita baseada nos valores de solidariedade, fraternidade e Justiça Social. Aos espíritas de nossos dias, compete a atribuição de contribuir para a instauração de um novo padrão de relações humanas, capazes de ensejar beleza na convivência humana e alcançando questões essenciais que gravitam em torno da satisfação das necessidades materiais e espirituais dos homens, a partir de um outro referencial de valores, o espiritual.

Trabalhar para a concretização desta Sociedade Justa, portanto, deve privilegiar a preocupação para amenizar as desigualdades sociais, permitindo o acesso aos direitos básicos (dignidade humana, educação, saúde, trabalho, moradia, acesso à justiça, etc.), por meio de políticas públicas e não pelo mero assistencialismo e clientelismo, primando, inclusive, pela transparência das ações governamentais, com a divulgação de recursos empregados e ações materiais realizadas, sobretudo na direção de pessoas e comunidades consideradas socialmente vulneráveis.

O Projeto Social Espírita, assim, é dialógico porque permite que todos os atores sociais dialoguem entre si, conhecendo dificuldades e problemas e laborando por superá-los. É humanista, porque está centrado na figura humana, o agente e objeto de todos os esforços e iniciativas em favor do progresso e, com ele, do atingimento da justiça. É livre-pensador, porquanto seja despido de preconceitos e dogmas, que poderiam particularizar entendimentos, permitindo que o entendimento espiritual, amplo e completo, referencie a busca pela erradicação das injustiças.

Kardec aponta o norte para este percurso quando, ao dissertar sobre “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, em “Obras Póstumas”: “destruí nas leis, nas instituições, nas religiões, na educação, até os últimos vestígios, os tempos de barbárie e de privilégios, e todas as causas que mantêm e desenvolvem esses eternos obstáculos ao progresso, que se recebe, por assim dizer, desde a meninice e se aspira por todos os poros na atmosfera social; só então os homens compreenderão os deveres e benefícios da fraternidade; então, também, se estabelecerão por si mesmos, sem abalos e sem perigo, os princípios complementares da igualdade e da liberdade”.

 

Os espíritas, destarte, imbuídos do Humanismo Espírita, devem agir e influenciar os não-espíritas, sem qualquer intenção proselitista, mas pela “força das ideias e das ações”, propugnando e materializando as mudanças de estrutura e da própria ordem social, a partir da noção de justiça dada pela reencarnação, mas, no plano material, atribuindo a cada indivíduo o dever de auxiliar o seu semelhante e eliminar quaisquer diferenças existentes, por meio de uma prática social efetiva e permanente.

É por isso que se diz, ao conhecer a essência da proposta espiritista, que todos os espíritas comprometidos com a construção de uma sociedade socialmente justa e fraterna, acham-se seriamente preocupados com os destinos (físicos, materiais) da Humanidade e mantêm a capacidade mobilizadora da indignação e da solidariedade capaz de direcionar esforços para, com a fundamentação crítica da Doutrina dos Espíritos. Engajam-se, deste modo, os espíritas em movimentos e iniciativas voltados à luta para superar este perverso modelo social, substituindo-o, aos poucos e perseverantemente, por um melhor e mais ajustado aos reais propósitos da encarnação neste orbe.

 

A chamada “Revolução Espírita” permite que se penetrem as bases do comportamento humano resultando na revisão de princípios morais, para promover, adiante, a revisão completa dos princípios jurídicos, econômicos e sociais. Desta revisão, que fará concretizar uma Justiça Social material, advirá a futura Justiça Social Espiritual.

Neste sentido, vale ponderar acerca de nossa efetiva participação na construção de uma Nova Sociedade. A organização social, este tecido formado por linhas que são as individualidades encarnadas, precisa refletir o grau de adiantamento (progresso) dos seres que a compõem e, neste contexto, devem os espíritas se adiantar, em posição de proeminência e organização para, com a visão aclarada que o Espiritismo propugna, criar, manter e aperfeiçoar mecanismos e ferramentas de inclusão, acolhimento, proteção e promoção de todos os seres nela inseridos. Em uma palavra: sejam garantidos os direitos elementares do homem e a cidadania, pilares essenciais de uma Sociedade Justa e Fraterna.

Não é outra, senão essa, a proposta do Humanismo de Kardec, ou do Humanismo Espírita.

Teoricamente, então, estamos prontos, suficientemente embasados e motivados para a implantação da Justiça Social na Terra. O que nos falta, então, na prática?


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+ Marcelo Henrique