Primavera sem flores

Pedro Camilo | Diretamente de Coimbra, Portugal, impressões da pandemia.

São 19h27 aqui em Coimbra e o céu, embora nublado, deixa passar os últimos raios de sol do dia.

Na madrugada de hoje, começou o horário de verão em Portugal, o que deixa os dias ainda mais longos. Na primavera, a partir de agora, somente anoitecerá perto das 20h30, enquanto no verão será cerca de uma hora e meia a mais.

Desde ontem, 28 de março, tiveram início as férias de Páscoa que, aqui, duram cerca quinze dias. Em tempos normais, as ruas estariam cheias e as praias, de uma ponta a outra do país, abarrotadas de gente. Mas não, não vivemos dias normais.

O mundo, neste momento, já contabiliza 710.950 notificações de contagiados pela covid-19, com cerca de 33.552 mortes. Aqui ao lado, a Espanha revive a tragédia da Itália e, além-mar, os EUA se tornam o novo epicentro da pandemia, com 135.627 notificações de contágio.

Aqui em casa, estamos confinados desde 13 de março. Somente quando necessário apenas eu saio, para compra de alguma coisa que falta na despensa, com exceção do dia 20, quando tive que levar Pietra ao médico.

Ela apresentava tosses, dor na barriga, no peito e na cabeça, febre de 39º… Como não pensar na possibilidade? Levei-a a sua médica de família e, quando chegamos ao centro de saúde, vimos e vivemos uma cena de filme. Todos cobertos dos pés à cabeça, tensos e receosos, eu recebi máscara e luvas e fomos ao atendimento.

A médica auscultou-lhe os pulmões 4 vezes, ao longo de 30min de consulta, para apreensão minha. Após a última escuta, a – quase – certeza de serem apenas, aqueles sintomas, reflexos de uma sinusite, a receita na mão e o tratamento a ser feito. Hoje, ela está bem, mas quem garante que não, já que não foi testada? O que importa é que estamos todos bem, graças a Deus!

Na Europa, o ano letivo começa em setembro de um ano e termina em junho ou julho do seguinte. Em 13 de abril, estava programado o retorno às aulas, para jovens e crianças. No entanto, as autoridades públicas já falam em dar sequência aos meses restantes em casa, com aulas virtuais, para garantir ainda menos circulação de pessoas e do vírus. Pelo visto, Pietra e todas as crianças e jovens em idade escolar somente voltarão às escolas e ao convívio com seus colegas no próximo mês de setembro.

Hoje, domingo, iríamos ao Porto para assistir a um concerto para crianças na Casa da Música. Seria o primeiro dia de fruição das férias da Páscoa… No entanto, as ruas estão vazias, as pessoas estão em casa, o medo acena das janelas e a tristeza parece dançar entre as nuvens um pouco densas que ainda estão ali, no céu que entrevejo aqui do quarto.

O dia ainda está claro, mas o sol já se retira do horizonte, aos poucos… Penso um pouco no Brasil, nos familiares e amigos que lá estão, nas incertezas que marcam os próximos dias dessa terra tão sofrida… E não posso negar que agora, tal como mais cedo, ao ver os dados de todo esse cenário que estamos vivendo, duas lágrimas teimosas se ensaiam no canto dos meus olhos cansados de ver tudo e não ter muito o que fazer, senão orar e agradecer…

São 19h48 aqui em Coimbra. A primavera chegou, mas não há flores nos canteiros… Lá fora, apenas um casal de idosos anda pela rua, não se sabe a caminho de onde, enquanto volto meu pensamento a Deus, pedindo o que tenho pedido todos os dias, a todo instante: “Misericórdia, Senhor! Misericórdia!”…


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+ Pedro Camilo de Figueirêdo